O Doutor Marcos Luiz Mucheroni nos fala sobre Cibercultura, e-Democracia e governo electronico

Imagen de Vinício Carrilho Martinez
Vinício Carrilho Martinez entrevistou ao Doutor Mucheroni. Marcos Luiz Mucheroni é Bacharel em Ciência da Computação pela UFSCar/SP, onde lecionou 10 anos, publicou inúmeros artigos nacionais e internacionais, é Doutor em Engenharia Elétrica (Poli-USP) e professor de Paradigmas de Linguagens (graduação e pós-graduação), junto à Faculdade de Informática da Fundação de Ensino “Eurípides Soares da Rocha”, e Teoria do Caos e Cibercultura (mestrado em Ciência da Informação) junto à UNESP de Marilia.

DdE. Sempre teve um interesse pela área de tecnologia? Quando tomou a decisão de se tornar bacharel em Ciência da Computação?

Marcos Luiz Mucheroni. Faço uma correção, sou Bacharel em Ciência da Computação, tinha interesse desde criança por romances e livros de ficção científica, acho que foi influência de meu irmão mais velho, que também me levou ao interesse por literatura e filosofia.  Ia fazer Física, quando abriu uma inscrição especial para CiÊNCIA DA COMPUTAÇÃO na Universidade Federal de São Carlos, ainda não era moda, era algo de poucos curiosos, ano de 1975.


DdE. Lembra-se de alguma situação da infância ou adolescência em que essa
vocação tenha se despertado?

MLM. Como disse na figura anterior, lia muita literatura de ficção, foi a
época do projeto Apolo que chegou à lua, víamos na TV aquele centro de
computação de Houston, parecia um mundo novo.


DdE. A família interferiu nisso?

MLM. Como disse, um irmão mais velho e meus pais incentivaram a educação e o estudo, mas sem preferências.


DdE. Depois, quando foi que se interessou pelas humanidades? Foi na mesma
época?

MLM. Sim. Tinha uma consciência forte quando jovem, sempre li muita
literatura, e abri meu primeiro livro com 13 anos. Fui ler Espinosa, quando
saiu a coleção dos pensadores, economizava dinheiro para comprá-la.


DdE. Você se considera, hoje, um filósofo da ciência e da tecnologia?

MLM. Não, mas estou me preparando a anos para os primeiros livros, uma
vertente religiosa, Teilhard Chardin me deixou muito entusiasmado, pensei
que boa parte da minha vida chegava a uma síntese, três aspectos que
cultivei (embora tenha me tornado ateu e marxista aos 20 anos Aos 40 anos
revi minha visão religiosa e tive uma experiência mística). Penso que são
três sínteses do homem moderno (ou pós-moderno se quiserem): a vida
filósofica-cultural, a vida religiosa (num sentido mais lato que o atual) e
a vida material-prática. A tecnologia interfere nas três  e sofre influência
das três.


DdE. O que os colegas de área, de profissão, dizem dessa aproximação entre
filosofia e tecnologia?

MLM. Acham curiosa, exótica, mas a maioria embora não diga, acha que é uma fuga dos verdadeiros objetivos (utilitaristas, embora não saibam) da tecnologia;
mas já há congressos e pessoas da área se arriscando neste campo. É inevitável esta discussão mais cedo ou mais tarde, todos farão.

 

DdE. Poderia resumir sua história em contato com a rede? Do início até
hoje, o que mudou ou se acrescentou, basicamente, nesse contato com o mundo
virtual, em termos da sua própria maneira de ver a rede?

MLM. Sou cauteloso. A tecnologia deve ajudar o homem. Quando vejo gente
escrava idolatrando celulares, palms, micros e principalmente a TV, vejo
como algo a-crítico e sem reflexão. Toda tecnologia deve ter um lugar
definido em nossas vidas, auxiliá-la e nunca atrapalhar Brinco com meus
alunos que falo para meu micro: fique no seu lugar de escravo.


DdE. Diria que o ciberespaço é a maior descoberta do século XX?

MLM. Pierre Lévy faz uma comparação inteligente: é equivalente ao homem
primitivo ter descoberto a linguagem e os copistas beneditinos que começaram a
fazer os primeiros livros — depois veio Gutenberg com a imprensa automática,
ao liberar nossos discursos. Nos livros demos vida a eles, mas há três
precursores da cibercultura: o cinema, o rádio e a TV, mas centralizados,
mas sem dúvida alguma nos jogaram numa "aldeia global".


DdE. Um filme como Matrix mostra o fim ou o início de uma utopia da
cibercultura?
MLM. Matrix é um discurso possível para a utopia da Cibercultura, diz ele
Morpheus "um mundo dos sonhos gerado por computador" , mas o filme envolve
uma referência aos problemas clássicos da percepção, por exemplo: a primeira
meditação de Descartes onde tenta induzir dúvidas sobre a nossa capacidade
de experiência sensorial, algo que os filósofos de modo geral, chamam de
"ceticismo dos sentidos", dá para discutir muita coisa, a coletânea de
William Irwin dá uma idéia destas discussões.


DdE. O que é a cibercultura?

MLM.  Usando Teilhard Chardin diria que é a concretização virtual da noosfera,
ou sua concretização, mas Pierre Lévy é mais simples e claro:
"é o conjunto de técnicas(materiais e intelectuais), de práticas e de
atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente como crescimento do ciberespaço".


DdE. A rede estimula a serendipidade? O que vem a ser esse processo de criação?

MLM. A serendipidade é um fato na rede, porque cada nó pode desestabilizar (no sentido positivo, excitar ou usando o termo da teoria do caos: sensibilizar) toda a rede para depois encontrar uma estabilidade participativa de todos nós, a teia da aranha é um bom exemplo disto: ela sabe que captou algum ^alimento^ porque toda a rede balança e vai para lá embrulhar seu alimento para depois devorá-lo. O bicho cai na rede ao acaso, de modo serendípico.


DdE. Há muitos críticos, inclusive severos, da rede, como Paul Virilio e
Jean Baudrillard - você considera essas críticas na sua reflexão ou apenas
descarta-as como sendo críticas exageradas?

MLM. Sou um chardiano agora que conheço um pouco do pensamento dele. Estamos imersos numa noosfera do espírito humano. Ela acompanha o desenvolvimento material, social e filosófico do homem, mas a percepção que temos do momento presente é sempre um pouco fantasiosa. Diria que Virilio é um pessismista que só falta dizer que a tecnologia atrapalha, Baudrillard é um vislumbrado que pensa ser tudo possível (a técnica e a tecnologia sempre e em todo tempo tem limitações, novas e mais limitações). Diria que Lévy a idolatra. Ela é o centro de todas as mudanças que podemos fazer para criar uma sociedade coletiva, solidária ou no termo que mais gosto ^em comunhão^ de bens materiais e filosóficos.


DdE. Os críticos da rede sempre destacam duas questões básicas: o
estranhamento que substitui a interação social; o fetiche que corrompe a
reflexão e o senso crítico. Como vê essa questão?

MLM. Muitas coisas impedem a reflexão. Ela é fundamental, inclusive no
pensamento chardiano. Creio que ainda que impessa num certo sentido, a
libera no outro. Explico melhor: com a rede, os jovens passaram a ler mais e
a buscar mais interação. Ela é aberta e mais democrática que a televisão, o
problema é que neste momento eles expressam a cultura que tem, que é
fetichizada e a-crítica, mas aos poucos isto vai mudar. O papel das forças
progressistas é dar à rede substâncias novas, e que atraiam os jovens.  O
individualismo, consumismo e isolamento é fruto da sociedade que vivemos.
Neste momento a rede ainda é expressão disto, mas ela é aberta, pode mudar.



DdE. Vez ou outra, vemos jovens morrendo de fadiga física e mental, depois
de terem jogado games dias seguidos sem dormir ou se alimentar. O que
explicaria esse "fetichismo ou estranhamento" absurdo?

MLM. Morrem de fadiga das drogas, até de fadiga de aulas enfadonhas e
desestimulantes, precisam de algo. A sociedade tem pouco a oferecer, a moda
agora são festas "have" que acontecem a noite toda, até a exaustão, é uma
busca de vida ... infelizmente onde nem sempre tem.  Se a rede oferecer
alternativas, pode mudar isto.


DdE. Seria uma espécie de recusa da vida natural? Será que a net realmente
nos criou uma carapaça de mundo virtual que substituiria a chamada vida
social? Um outro desencantamento do mundo, muito mais radical e violento do
que aquele definido por Weber?

MLM. O homem sempre buscou a utopia. O virtual é sua faceta contemporânea.
Diria que o paraíso é seu grande paradigma. No passado eram os romances,
jardins do eden, clubes, etc. Agora são casas em condomínios fechados, cinemas
home-theater e a net, mas ainda nem resolvemos problemas básicas da maioria
do povo: fome e saúde,  é preciso dar realidade àutopia.

 
DdE. Pierre Lévy diz que "a rede não é boa, nem má, nem neutra". A isto
acrescentaria que, muito pelo contrário, a rede é política. Como você vê
essa questão?

MLM. É preciso o homem se ver como protagonista e parar de criar álibis para
sua infelicidade. É um processo de catarse social, arrumar algo para amar ou
odiar de tempos em tempos. Neste momento, por exemplo, os bandidos do PCC
(ódio mortal) e a seleção (amor infinito), é a-crítico.


DdE. A Rede é Democrática?

MLM. Sim, pois todo processamento em rede é auto-organizado, o grau de auto-organização (maior ou menor democracia) depende apenas das atividades dos “nós”, já existem algoritmos de computação criados por um cara chama Tuevo Kohonen ... e é SOM (por isto, os mapas de auto-organização - SOM - SELF ORGANIZING MAPS) são também chamados de Kohonen. Podemos dizer então que, quanto mais auto-organizado ele for mais a rede é estável (estabilidade depende só da ação dos nós e não da dependência de algum nó). Portanto, a rede é democrática. Claro que estou pensando em nós ativos (inseridos, fora da exclusão portanto). O processamento dela é mais que democrático, é auto-organizado (melhor que autocrático) e estável, mas para quem gosta do racionalismo vai dizer que ele é anárquico (quase isto).


DdE. Será possível o governo eletrônico? Temos condições para isso?

MLM. Depende do nosso protagonismo. Precisamos parar de buscar
salvadores da pátria e construir nosso futuro. Fala-se tanto em cidadania
plena, mas ninguém a constrói. Por exemplo, um curso de política para os
jovens, com discussões na internet, mas de modo reflexivo e crítico, não
baboseiras ideológicas enlatadas.


DdE. Como formar/educar o cidadão virtual ativo e fortalecer a democracia
virtual?
MLM. Sem dúvida, devemos começar isto urgente. Há movimentos sociais,
já preocupados com isto, mas é preciso unificar esforços, atrair gente de
todos os matizes para uma discussão reflexiva, sem clubinhos ideológicos
fechados. Eles são na maioria dogmáticos.


DdE. O que esperar do futuro tecnológico e o que dizer aos jovens que, por
deslumbramento, só agora é que estão descobrindo este mundo? Esse será o
melhor caminho da descoberta, pelo deslumbramento? Ou o que fazer?

MLM. O novo não é revolucionário, mas também não é reacionário. Precisamos dar um caráter progressista a ele, e dar ao deslumbre, um encantamento de fato: a construção de um mundo bom, feliz e progressista. Os jovens vão abraçar isto se fizermos de modo sincero e aberto, eles serão abertos.


DdE. Qual livro e filme você indicaria, como sendo os mais criativos,
instigantes para discutir essas questões?

MLM. Indicaria três interessantes: Cibercultura do Pierre Lévy; O lugar do
homem na natureza
de Teilhard Chardin e a coletânea de William Irwin sobre
Matrix. Mas não podemos ignorar a Escola de Frankfurt, Virilio e
Baudrillard. Há pontos interessantes nestes discursos.


DdE. Alguma outra questão que gostaria de comentar e que não foi perguntada?

MLM. Gostaria de acrescentar a chamada revanche do sagrado. O homem moderno tem uma busca por subjetividade, mística e transcendência, mas tem medo do que o espero ... eu convido a todos um mergulho no poço quântico da
incerteza, da complexidade (outro nome de caos) e de quebrar as barreiras
que separam a física da metafísica, o material do espiritual, talvez ali
onde menos esperamos .... estejam as respostas que procuramos ...


DdE. Há liberdade ou um caminho para a liberdade que se possa ver na rede?

MLM. o homem é sempre livre; quem cria muro, barreiras e tudo o que gera ódio, não é um humanista sincero.

DdE. O que falta nas concepções de Cibercultura Teilhard Chardin e Pierre Lévy ?
MLM. Ambos conseguem perceber a concepção geral, não falta nada na concepção de Teilhard Chardin pois ele não viveu para ver a Internet. Na verdade, morreu quando a computação nascia. O mais extraordinário nele é ver um mundo nascente e ser otimista, mesmo estando praticamente exilado na China e num pós-guerra cheio de feridas. Na concepção de Lévy falta uma crítica social e há um certo culto à tecnologia. Mas, ambos contribuem muito para uma concepção moderna e avançada de um mundo em rede construindo não apenas uma inteligência coletiva (na visão de Lévy, que vê o aspecto cultural) e uma noosfera (na visão de Chardin, que vê o aspecto espiritual subjetivo). Em ambos, há a construção de uma relação prática nova entre os homens, entre o homem e o Estado, e principalmente entre os homens e os bens materiais e culturais (chamaria isto de consciência coletiva em rede).


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