O DIREITO A EDUCAÇÃO MANTIDO À DISTÂNCIA
Não suporto mais
discutir suportes
Lema ético pela crítica ao tecnicismo
Cabe discutir a techné na modernidade? Essa perspectiva clássica dos gregos, reunindo arte, política, tecnologia e habilidades (do “fazer-se humano pelas próprias mãos”) teria algo a nos ensinar ainda hoje?
O dado concreto com que nos deparamos atualmente (em progressão geométrica, como uma vingança de Malthus) está na educação à distância. Neste ambiente da cibercultura sem crítica, apologética (pouco importa se queremos dar o pseudônimo de “ensino à distância”) a chamada mais-valia relativa é elevada à potência N, pela ação multiplicada e múltipla do trabalhador intelectual (o ex-professor).
A seguir o(s) modelo(s) que temos visto desfilar(em), para cada professor, trabalhador intelectual contratado e demitido à distância, interagindo em chats com 500 alunos (pelo milagre da multiplicação de acessos), há pelo menos dez outros ex-professores em busca do que fazer – porque perderam sua “aura” e sua “vocação”, além dos meios básicos de subsistência.
A educação não é somente subsistência, até porque se fosse apenas isto, nem ela mesma subsistiria, porém isto é o básico, acima do que tudo o mais se eleva. A educação perdeu a magia para quem não é/está encantado, mas precisa ser “recuperada pelos realistas”. Por outro lado, os encantados encaram os realistas como pessimistas, simplesmente porque muitas vezes são incapazes/fracos para suportar a imagem de que a realidade nua/crua pode ser cruel/péssima. Isto não quer dizer que sempre seja assim, uma avaliação, aliás, que bem demarca as diferenças entre ambos.
Os realistas simplesmente pensam que não é preciso vocabulário e nem clareza para se definir a tolice que vêem desfilar diante dos olhos. Os realistas sabem que a educação precisa de mais conversões e de menos convenções, de mais conteúdo e de menos marketing. A educação precisa de menos conformação e de mais emancipação, de mais convicção (convencimento de seu papel social da maior importância) e de menos “convencidos pelos caça-níqueis”.
Os realistas pensam que a educação sem metas — mas, com métodos em excesso, tipo: método mais metódico — é um mero acidente/incidente. Por isso, a educação precisa de paixão, doação, mistério, sedução, como diria o sociólogo Max Weber:
Todo jovem que acredite possuir a vocação de cientista deve dar-se conta de que a tarefa que o espera reveste duplo aspecto. Deve ele possuir não apenas as qualificações do cientista, mas também as do professor [...] É possível ser, ao mesmo tempo, eminente cientista e péssimo professor [...] Sem essa embriaguez singular, de que zombam todos os que se mantém afastados da ciência, sem essa paixão, sem essa certeza de que “milhares de anos se escoaram antes de você ter acesso à vida e milhares se escoarão em silêncio” se você não for capaz de formular aquela conjectura; sem isso, você não possuirá jamais a vocação de cientista e melhor será que se dedique a outra atividade. Com efeito, para o homem, enquanto homem, nada tem valor a menos que ele possa fazê-lo com paixão [...] Essa inspiração não pode ser forçada. Ela nada tem em comum com o cálculo frio [...] Normalmente, a inspiração só ocorre após esforço profundo [...] Só aquele que se coloca pura e simplesmente ao serviço de sua causa possui, no mundo da ciência, “personalidade” [...] qual a posição pessoal do homem de ciência perante sua vocação? [...] Ele nos diz que se dedica à ciência “pela ciência” e não apenas para que da ciência possam outros retirar vantagens comerciais ou técnicas ou para que os homens possam melhor nutrir-se, vestir-se, iluminar-se ou dirigir-se (Weber, 1993, pp. 22-25-27-29 – grifos nossos) .
A educação não é para encantados, mas tem que ser encantadora para que os realistas possam converter os pessimistas a fim de “modificarem o que vêem”.
A educação é sedução sem dúvida, mas sedução para estudar e estudar, para aprender a aprender, além de estimular e de apreciar a aprender a apreender. Só desse modo, a educação permanente é sedução para investigar e ter vontade de conhecer o conhecimento.
Nestes ambientes de educação à distância, pode até ser que o “doutor”, o professor titulado, seja contratado. Mas, não será só de fachada? Quem garante? A senha? Quem saberá se ele é o doutor ou apenas mais um aluno recém-formado (talvez o melhor de sua turma) quem aplica e supervisiona as lições? Os seus interlocutores, de todo modo, serão menos informados do que o jovem operador se passando por doutor — e ninguém saberá, a não ser ele próprio, o doutor-fantasma e o empregador picareta.
Do mesmo modo, quem garante a “fidelidade intelectual” de que as respostas aos questionamentos são/serão realmente dadas por fulano e não por beltrano? Novamente, a senha?
Enquanto não houver ética dos dois lados do sistema (seja professor, tutor; aluno ou internauta), a educação à distância só nos prestará um desserviço: manter a educação ainda mais à distância. Infelizmente, nada parece apontar em outra direção nos dias atuais e menos ainda no Brasil — aqui, por “inércia cultural”, a corrupção é costume e não crime.
É deste modo que a educação brasileira está sempre pronta para ser mergulhada em novas profundezas e não em maior profundidade. Certamente, por tudo o que se passa na educação, salvo exceções que só confirmam a regra, não será nenhum suporte tecnológico que mudará automaticamente nossa tragédia educacional.
É por isso que os éticos/céticos trazem como lema ou mo®te, uma idéia simples e direta: “Não suporte(o) mais discutir suportes”.
Este movimento tem este lema porque concluiu que não há nenhuma dignidade em suportar a falta de ética, seja em nome do que for, mas, menos ainda em razão de qualquer tipo de suporte que carregue a mínima possibilidade do comando anti-ético. No campo da ética, é preciso cuidado redobrado, porque, no mais das vezes, o que é pior pega mais rápido e pode contrariar até os pessimistas.
Encerremos este breve debate com um caso concreto (que se desdobrou) recentemente: um analista/realista advertia faz pouco tempo para que tivéssemos muito cuidado com IEs que se parecessem com shopping centers.
Os otimistas de plantão, como sempre desinformados (ou malversados), debocharam do clínico da educação brasileira. Porém, passados poucos meses (nem um ano), foi de cair o queixo até do mais pessimista ver que as faculdades não só tinham fachada de lojas de conveniência, com os “saberes à mostra para degustação e livre-consumo, como já estavam instaladas dentro de alguns shoppings em capitais brasileiras.
Já imaginou a sua sala de aulas bem em frente à escada rolante ou ao lado da praça de alimentação, com show ao vivo?
Nem o mais fanático seguidor de Epicuro, Baco e adorador de qualquer desmedida obsessão pelos “prazeres mundanos”, confundido com hedonismo, poderia suspeitar do nível a que chegamos. Infelizmente, pois, nem sempre, prazer e educação são sinônimos.
Na grande maioria das experiências de “educação à distância”, sobretudo no ensino privado (no Brasil), os resultados são pífios, incitam ao plágio, à corrupção da imagem e da inteligência dos que de fato produzem e o mercantilismo do direito, no caso, do direito à educação.
Entre a cópia e a criação produtiva, inventiva há uma distância enorme, como já ensinava o padre espanhol Baltazar Gracián, como um dos clássicos do final do Renascimento: “Eleger idéia heróica, mais para emulação que para imitação. Há exemplares de grandeza, textos animados pela reputação. Que cada um se proponha os melhores em seu ofício, não tanto para seguir quanto para superar” (p. 64 – grifos nossos) .
No sentido mais pleno ou inicial do Renascimento, ainda podemos destacar a utopia , como uma de suas principais elaborações/construções teóricas:
A reflexão histórica e social e a ciência política nasceram juntas no Renascimento [...] Desse cruzamento nasceria outra [...] os utopistas. As obras mais notáveis nesse gênero são a Utopia (1516) de Thomas Morus, a Cidade do Sol (1623) de Campanella e a Nova Atlântida de Francis Bacon. Todas essas comunidades contam com um poder altamente centralizado, porém justo, racional e inspirado, o que torna plenamente legítimo e incontestável para os membros da sociedade. Essas utopias refletem modelos basicamente urbanos, dispostos numa arquitetura geométrica em que cada detalhe obedece a um rigor matemático absoluto [...] a harmonia social deve ser uma derivação da perfeição geométrica do espaço público [...] o que se percebe é um desejo de abolição da imprevisibilidade da história e da violência dos conflitos sociais. Seus autores revelam um nítido desejo de planificação total das relações sociais e produtivas e a perpetuação da ordem política racional [...] se arrogava agora o monopólio da razão [...] a diversidade é o que conta. Fato que, de resto, era plenamente coerente com sua insistência sobre a postura crítica, o respeito à individualidade, seu desejo de mudança. O mundo é um vórtice infinito de possibilidades e o que impulsiona o homem não é representar um jogo de cartas marcadas, mas confiar na energia da pura vontade, na paixão de seus sentimentos e na lucidez de sua razão. As disputas, as polêmicas, as críticas entre esses criadores são intensas e acaloradas, mas todos acatam ciosos a lição de Pico della Mirandola: a dignidade do homem repousa no mais fundo da sua liberdade (Sevcenko, 1994, pp. 23-24) .
Enfim, mantido nosso pé das coisas, continuaremos com a educação mantida à distância! No entanto, admitiria ver a experiência ser posta à prova se, e apenas se, não viesse para substituir nenhum curso regular e presencial e que estivesse sob controle/gestão do espírito e do espaço público.
A educação, entretanto, como grande lema humanista (do Humanismo pré-renascentista) e com presença marcante no Renascimento, é o legado que mais nos deve persuadir em nossa caminhada:
Para os pensadores renascentistas, os humanistas, a educação seria o fator decisivo [...] Embora só [...] difundido no século XV [...] indica indivíduos [...] se esforçando para modificar e renovar o padrão de estudos [...] nas unidades medievais. Centros [...] dominados pela cultura da igreja [...] três carreiras: direito, medicina e teologia [...] Empenhados em transmitir aos seus alunos uma concepção estática, hierárquica e dogmática da sociedade, da natureza e das coisas sagradas, de forma a preservar a ordem feudal. Iniciou-se assim um movimento [...] baseado no programa dos studia humanitatis (estudos humanos), que incluíam a poesia, a filosofia, a história, a matemática e a eloqüência. Ocorre que esses studia humanitatis eram indissociáveis de aprendizagem e do perfeito domínio das línguas clássicas (latim e grego), e mais tarde do árabe, hebraico e aramaico [...] Deveriam ser conduzidos [...] sobre os textos dos autores da Antiguidade clássica (Sevcenko, 1994, pp. 11-14-15) .
Assim, esses cursos à distância estariam ou poderiam estar mais próximos da educação se, e apenas se, viessem a complementar o que já existe de forma real, presente e honesta. Admitiria se viesse para complementar e nunca para substituir, afinal, como real direito público-subjetivo e que não pode ser substituído por nada, nem tergiversado.
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