MODERNIDADE TARDIA E/OU “TEMPOS MODERNOS”
De quem meu bom direito exijo?
Mefistófeles – n’O Fausto
É difícil dizer com precisão se ainda é possível definir modernidade com tanta clareza, como faria Ortega Y Gasset, à procura ou já propondo um método claro-escuro. Ao contrário, talvez seja possível apenas um tipo de método de meio-fio, em que clareza e precisão, por exemplo, não sejam tão claramente expostas à luz do meio-dia:
Eu sou um homem espanhol que ama as coisas em sua pureza natural, que gosta de recebê-las tal e como são, com claridade, recortadas pelo meio-dia, sem que se confundam umas com outras, sem que eu ponha nada sobre elas: sou um homem que quer, antes de tudo, ver e tocar as coisas e que não se contenta imaginando-as: sou um homem sem imaginação (Ortega y Gasset, 1991, p. 9 – grifos nossos).
Quem sabe talvez seja preferível dizer o que não é moderno, o que é tradição:
É voltar à Idade Média para tomar o ponto em que se inicia essa ruptura. Quando vemos uma grande catedral antiga, observamos, em primeiro lugar, que não se conhece o nome de seu arquiteto nem o nome de seus construtores. É que a catedral antiga era uma obra coletiva. Em segundo lugar, notamos que somos nós, hoje em dia (a partir do fim do século XVIII), que dizemos que a catedral é uma obra de arte, pois quando foi feita ela era uma obra religiosa, uma celebração das relações entre os homens e Deus. Em terceiro lugar, essa obra coletiva e anônima, essa obra religiosa também possui um aspecto político importante, pois era construída para mostrar o poderio dos papas e dos reis – nelas, além das celebrações comuns a todos os fiéis, ocorriam as coroações, os casamentos, os enterros dos reis, a coroação de papas. A catedral era, ao mesmo tempo, um espaço sagrado e um espaço político (Chauí, 1984, p. 12).
Ou, então, definir algo tão complexo, como a modernidade, mas a partir de situações, coisas, objetos, relações mais setorizadas. Por exemplo, moderno é este típico de amor romântico ou a famosa paixão juvenil — estilo Romeu/Julieta. Modernos são determinados objetos, como o astrolábio, ou invenções e técnicas, como a quilha mais aguda dos navios (rebaixando o ponto ou eixo de equilíbrio, permitindo maior velocidade e estabilidade).
Modernas são as relações institucionais, políticas, culturais que têm o Estado-Nação e a laicização da política como âncora. Modernas são as relações sociais que têm a ética protestante (Weber), mas também a ética pagã (Maquiavel) por base. Modernas são as relações sociais em que tudo que é sólido desmancha no ar (Marx). Moderno é o paradigma que muda, revoluciona o direito de educar, em direito à educação:
...no primeiro, o ser humano é um objeto de educação, exercida como direito do homem sobre o homem, cujo princípio de legitimidade e de método é a autoridade, com seus meios e efeitos de subjugação e menorização; no segundo, o ser humano é o sujeito da educação, usufruída como um “direito do homem”, cujo princípio de legitimidade e de método é a liberdade, com todo o seu poder de humanização e autonomização (Monteiro, 2006, contracapa).
São dois paradigmas distintos e opostos: “do antigo paradigma holístico ao paradigma individualista da educação”. Moderna é a educação pública no Renascimento, entendido como o momento histórico que elevaria o desejo de consumo do novo:
Por volta do ano 1000, introduziu-se uma nova tecnologia agrícola [...] A maior produtividade permitiu à população agrícola pagar maiores quantidades de tributos aos senhores que reclamavam direitos hereditários [...] A acumulação de grandes excedentes forneceu a base para uma consolidação econômica [...] Essa consolidação foi acompanhada por certa unificação dos códigos legais que regiam as relações entre tributários e senhores [...] Um conjunto definido, complicado e rígido de normas regia a produção dos excedentes tributados, assim como também seu consumo dividindo a população agrícola em muitos grupos socioculturais com diferente localização, com diferentes normas de deveres e privilégios (Wolf, 2003, p. 203 – grifos nossos).
Como se de certo modo a tecnologia também antecipasse o próprio Renascimento, pois esta demanda crescente é que os enviou de encontro ao Oriente Próximo. De outro modo, com a derrocada do Império Romano (século V), as escolas municipais disseminadas no Ocidente sofreram um grande refluxo. Na seqüência, a Igreja foi quem se incumbiu da instrução por toda a Idade Média e, assim, por sua vez, o Cristianismo — “Religião da Boa Nova” — seria a própria manjedoura do Renascimento, já vindo a cultivar sua germinação: “A Boa Nova evangélica era exigência de renascimento, apelo ao homem velho para a conversão, pelo batismo, em homem novo” (Monteiro, 2006, p. 40).
Neste contexto, o Direito à Educação nasceria sob a ação/intervenção do Estado. Não é, portanto, uma ocorrência histórica como conquista individual ou social, mas sim de rearticulação política do Estado, tendo-se em conta a satisfação de algumas de suas principais necessidades da época: expandir e sedimentar o aporte/suporte de meios de reprodução ideológica e de controle social. Também deve-se dizer que antecedeu ao Education Act, de 1870.
Historicamente, a luta na Grã-Bretanha para tornar a educação gratuita, obrigatória e universal, e para mantê-la fora do controle exclusivo das organizações religiosas, foi longa e áspera [...] Martinho Lutero apelou “para os vereadores de todas as cidades da Alemanha, para que estabeleçam e mantenham escolas cristãs [...] A educação obrigatória e universal foi estabelecida na Genebra calvinista em 1536 e o discípulo escocês de Calvino, John Knox, “plantou uma escola e uma igreja em cada paróquia.” Na puritana Massachusetts, a educação primária gratuita e obrigatória foi introduzida em 1647. Frederico Guilherme I da Prússia tornou a educação primária obrigatória em 1717 e uma série de decretos régios de Luís XIV e XV instituiu a freqüência escolar na França. A escola comum [...] não é um produto tardio da democracia do século XIX; ela desempenhou um papel necessário na fórmula absolutista-mecânica [...] Por outras palavras, tendo minado a iniciativa local, o Estado agia agora em seu próprio interesse. A educação obrigatória está vinculada, historicamente, não só à invenção e desenvolvimento da imprensa, à ascensão do protestantismo e do capitalismo, mas também ao crescimento da própria idéia de nação-estado (Ward, 1973, pp. 62-63 – grifos nossos).
Como parte do legado humanista (pré-renascentista) a educação, entretanto, ocupa lugar de destaque e tem presença marcante no Renascimento.
Moderno é o método da dúvida metódica (Descartes), em oposição à metafísica, Escolástica. Porém, contraditoriamente, também se apresenta o positivismo como método moderno, como nova religião (Comte), como método mais metódico. Neste sentido, o Positivismo será eficaz. Mas, o Positivismo ainda é positivo:
O termo positivo designa:
- o real em oposição ao quimérico,
- o útil ................ ao desnecessário,
- a certeza ........... à indecisão,
- o preciso .......... ao vago,
- aptidão para organizar .... ao negativo, a aptidão para destruir,
- o relativo ......... ao absoluto (este último caráter está implícito no precedente, pois o absoluto é negativo) (Comte, 1990, p. XIX).
Entretanto, façamos aqui uma breve pausa, pois a idéia de negação pressupõe um apartamento, uma seleção, uma separação indiscriminada ou aleatória e, por fim, a exclusão do indivíduo. Contudo, moderno é ver o mundo como faria um clássico, mas procurando subir em seus ombros, alargando os horizontes e navegando mundo afora. Moderna é esta soma (que não é zero) entre Newton e Fernando Pessoa (“navegar é preciso”, porque deve ser exato, não comporta falhas, mas também é a urgência humana de deslocar-se de si mesmo). Moderno é quem procura ser exato:
A METÁFORA MAIS FAMOSA na obra de Galileu — e que encerra em si o nó górdio da nova filosofia — é a do livro da natureza escrito em linguagem matemática. A filosofia está escrita nesse imenso livro que continuamente se acha aberto diante de nossos olhos (falo do universo), mas não se pode entender se antes não se aprende a compreender a língua, e conhecer os caracteres nos quais está escrito. Ele vem escrito em linguagem matemática e os caracteres são triângulos, círculos e outras figuras geométricas, sem as quais é impossível para os homens entender suas palavras; sem eles é rodar em vão por um labirinto escuro. (Saggiatore, 6) (Calvino, 2007, p. 90).
Mas, igualmente moderna foi a Rota da Seda. Na Dinastia Ming (1368-1644), a Rota da Seda chegou a movimentar consecutivamente 27 navios cargueiros e contabilizar milhares de pessoas em transações econômicas. No período Ming, foi uma via de mão dupla, encontro de civilizações, especialmente a Europa e o Oriente, e seria conhecida como o berço econômico e cultural do desenvolvimento científico e tecnológico para o Renascimento europeu.
Com os relatos de Marco Polo, no século XIII, viajantes e comerciantes excluídos da sociedade feudal se enveredaram ainda mais pela rota, trazendo tecnologias e produtos variados. Na Alta Idade Média, este intercâmbio aprimorou e levou à incorporação de muitas outras formas técnicas, a exemplo da imprensa, pólvora, astrolábio e compasso. Além disso, na Era da Exploração, os mapas chineses e a cartografia islâmica (os Fenícios foram navegadores por excelência) influenciaram decisivamente na elaboração dos primeiros mapas-múndi. Mas, há ou houve algo mais inseguro do que navegar pelos sete mares, dominados por piratas e corsários (estes, em busca de lenha para aquecer o capitalismo mercantilista).
Por tudo isso, também é moderno o renascimento do homem, do mundo, da cultura.
UMA RENASCENÇA POLÍTICA
Assim, também percebemos que os literatos são muito perceptivos em relação ao ideário de suas épocas, sendo capazes de captar o “senso comum” do povo. No caso específico do Renascimento, percebemos a preocupação clara com a política e com a negação desta, seja pela via da corrupção (O Paraíso Perdido), seja pela via da exceção (no caso de O cerco de Numância). Ainda podemos “ler” outras conquistas da humanidade, a exemplo da tolerância liberal que, já à época de Hobbes (e depois em Locke), vinha tecendo os princípios da igualdade e da liberdade — valores também requisitados e presentes tanto em Cervantes quanto na história de John Milton. Mas, há Shakespeare (1564-1616) e seu Hamlet.
Hamlet, a seu modo, consegue capturar a desfiliação moral da política, sua dessacralização e laicização, ou seja, percebe e diz bem o que é a racionalização da política. Também se fala em dessacralização, deixando de ser sacro, santo. Desse modo, há uma separação entre o poder temporal e o poder espiritual, pois ambos passaram a ser tratados como esferas distintas da vida civil. Portanto, os sacerdotes deixaram de ser agentes políticos do Estado.
Em todo caso, Hamlet é um homem do bem ou do mal?
Hamlet é um homem político, ainda que não seja um homem de Estado, como o Maquiavel preocupado com a Razão de Estado. Mas, Hamlet é político, na medida em que o político possa trazer reconhecimento às condições da vida moderna.
Hamlet é um personagem de virtù? A virtù de Hamlet o leva a procurar criar situações, oportunidades, condições favoráveis ao desfecho de seu drama: a sua loucura é apenas uma das estratégias.
A virtù de Hamlet indica que precisamos, para viver a modernidade, de uma visão de mundo bem articulada, que disponha de um razoável senso de oportunidade, capaz de uma leitura com lateralidade e profundidade das coisas. Portanto, a virtù de Hamlet deve nutrir-se desse senso de oportunidade — em síntese, a virtù, daqui por diante, será considerada sinteticamente como senso de oportunidade.
O mais importante é ver em Hamlet uma metáfora do mundo moderno. Assim, Hamlet se passa por louco: essa idéia de se passar por louco não indicaria a astúcia de Hamlet em manipular a atenção e ao mesmo tempo desviar o foco daquilo que não lhe agradava?
A virtù, neste sentido, seria esta habilidade de criar situações e manipular a atenção pública para focar (ou desfocar) o olhar, dependendo de sua vontade: “Fingindo ser louco e, de fato, bastante perigoso, esse Hamlet é, ao mesmo tempo, pré-shakesperiano e pós-moderno e, certamente, sente-se bem à vontade com a retórica do provérbio e da fábula” (Bloom, 2004, p. 115).
O que indica o louco do Tarô, pela leitura hermetista (estuda a Alquimia) que estaria por trás de Hamlet? Curiosamente, representa o mesmo Hamlet que quando voltou do mar, voltou reformado, renascido, um Hamlet como novo homem. O Louco ou Coringa indica o novo que vem do velho, a modernidade que surge das tradições, mas que ainda não sabe perfeitamente ser/portar-se como a modernidade. Por isso, será preciso aguardar a chegada do Fausto (de Goethe), para anunciar definitivamente, lavrando a escritura, formalizando um novo pacto de sangue.
Mas, em suma, mesmo em se tratando de o Hamlet-Louco, a loucura é falsa, por isso bem calculada, com intenção claramente de despistar a atenção e de remover a vigilância sobre os reais fatores que o movem. Na loucura forjada, Hamlet é senhor da situação, controlando a todos, como vemos neste diálogo entre Rosencrantz e Guildenstern:
ROS. Ele confessa que a razão lhe foge,
Mas de nenhuma forma diz por quê.
GUIL. Nem se mostra disposto a ser sondado;
Com uma hábil loucura, vais distante
Se queremos trazê-lo à confissão
Do que ele sente.
(Shakespeare, 2004. p. 215)
No fundo, a loucura é só um pretexto para encobrir o real objetivo, que é vingar a morte (ou homicídio presumido) do pai (o rei Hamlet) pelo próprio tio (Cláudio, atual rei da Dinamarca) – daí a expressão, há algo de podre no reino da Dinamarca. E como se não bastasse o fedor do poder usurpado, o tio Cláudio ainda teria levado a mãe (a rainha Gertrudes) para o casamento, meses após o enviuvamento.
A verdade sobre o homicídio presumido teria sido contada pela própria vítima, o rei Hamlet, ressurgindo como fantasma diante de seus soldados e levando-os a procurarem o jovem príncipe Hamlet — seu filho. O príncipe Hamlet, por sua vez, precisaria apenas encontrar provas ou indícios seguros de que o trono havia sido usurpado e assim poder vingar o rei (o seu pai) defenestrado.
HAM. Vilão cruel, traidor e incestuoso
Oh, vingança! [...]
Esses atores, diante de meu tio,
Repetirão a morte de meu pai [...]
Preciso encontrar provas menos duvidosas.
É com a peça que penetrarei
O segredo mais íntimo do rei.
(Shakespeare, 2004, pp. 212-213).
Portanto, casara-se com a cunhada. Depois, no núcleo da loucura, Hamlet revela mais uma vez, nas entrelinhas, que seu objetivo é a vingança, uma vingança que se alterna entre familiar e política, pois não deixa de ser a vingança pela morte do rei (além do pai). No núcleo da loucura, Hamlet se dirige a Ofélia, tentando ser convincente:
HAM. Entra para um convento. Por que desejarias conceber
Pecadores? [...]
Sou muito orgulhoso, vingativo, ambicioso, com
Mais erros ao meu alcance do que pensamentos para
Expressá-los, imaginação para dar-lhes forma, ou
Tempo para cometê-los [...] Somos todos uns
Rematados velhacos; não acredites em nenhum de nós. Entra para um convento [...]
OFÉ. Oh, poderes celestiais, curai-o!
(Shakespeare, 2004, pp. 220-221).
É interessante notar como a virtù permite a Hamlet manipular os sentidos e os sentimentos, para melhor conduzir seus adversários/inimigos e as circunstâncias de acordo com seus fins: uma hábil manipulação do seu entorno. Por outro lado, se a manipulação dos sentidos é típica da loucura, então, a ideologia não lhe é assim tão diferente — agora como manipulação da consciência. A vingança, por seu turno, também será apenas mais um recurso da teatralidade hamletiana para revelar a alma humana mais profunda, como a viam os humanistas-realistas do final do século XVI e início do século XVII — Hamlet foi escrito exatamente em 1600. A vingança, portanto, não é o foco, mas tão-só o meio.
Sob esse aspecto do Louco, daquele que vem do que já havia anteriormente, da inconsciência que se dirige à consciência, das tradições que buscam a modernidade, da magia e do mito em direção à racionalidade e à ciência, Hamlet é um precursor de Fausto: o homem empreendedor do mundo capitalista (Berman, 1986). Não é à toa, portanto, como diz Weber, que a racionalidade científica é uma crença (irracional).
Assim, a virtù é fáustica: inovadora, empreendedora: “A imitação que Goethe faz de Hamlet, Fausto, ao morrer, expressa satisfação, sendo sepultado tranquilamente, ao contrário de Goethe, que especulava a isenção da morte, suposto mérito de uma consciência tão criativa quanto a sua” (Bloom, 2004, p. 112).
Miguel de Cervantes (1547-1616) teve uma relação interessante com esta visão da política de conquista (prudência versus exceção), porque além de produzir exatamente na época em que se engendravam as mais fortes teorias sobre a Razão de Estado, ele mesmo foi seqüestrado, esteve preso e encarcerado. Entrou para o Exército e lutou na Batalha de Lepanto, quando foi ferido e quase perdeu uma das mãos. Depois, de 1575 a 1580, permaneceu retido em Argel, então parte do Império Otomano, sendo libertado despois de pagar seu resgate. A única peça teatral trágica de Cervantes que sobreviveu é O cerco de Numancia, em que se encena a resistência desesperada da população contra as forças romanas que queriam conquistá-la. O trabalho mais conhecido de Cervantes é certamente Don Quixote de La Mancha; porém, o conteúdo político está mais presente no Cerco. Pode-se entender o cerco, como o Estado de Sítio.
Uma outra referência bibliográfica da época é John Milton (1608-1674) e seu livro O Paraíso Perdido. Alguns temas que podemos destacar no texto, seguindo indicações do próprio Hobbes, são: o livre arbitrio nasceu de um descuido de Eva? E como pode o mal gerar tantas formas de vida na Terra?
O texto de John Milton tem início com Satanás “erguendo a cabeça” depois da rebelião frustrada: tudo o que é sinistro está à sua volta, girando em turbilhões. Para seu alento, eis que surge Belzebu, o “segundo príncipe do inferno” e seu lugar-tenente, reanimando, reorganizando, instruindo até ver disciplinado novamente o exército do inferno. Após longas deliberações dos demônios, abriram as portas do Pandemonium, a capital, para que o conselho do exército pudesse novamente se reunir. Sobre este Congresso Infernal, dizia John Milton que muito se assemelha a uma assembléia de homens ou sessão de um parlamento qualquer.
Desse modo, os demônios de Milton apenas indicariam que as paixões humanas são próximas das intenções perdidas: ali se agiganta a “necessidade de poder”. Suas discussões versavam sobre a melhor tática de se combater um adversário mais forte e poderoso (Deus): se por meio da guerra declarada ou se fazendo uso da fraude e da mentira. Todos os demônios-soldados resistiram à idéia de novos duelos e combates porque ainda lambiam suas feridas.
Ao saber disso, Satanás escolheu o “melhor momento psicológico” para lhes anunciar que Deus criara outro mundo, muito mais frágil e vulnerável e assim surgiria a idéia de ferir Deus atingindo suas criaturas. Satanás manipulou habilmente a assembléia para que fizesse o que ele queria. Com esse intuito, saiu do Inferno e, para chegar à Terra, cruzou o espaço do Caos.
Na Terra, Adão e Eva viviam em perfeita harmonia, mas de perto eram vigiados pelo demônio-mor, que morria de raiva, inveja, sendo abrasado pelas mais abjetas paixões. Nessa secura, Satanás atingiu Eva no sonho. Na manhã seguinte, Eva acordou atormentada enquanto Adão a confortava para que juntos enfrentassem o mal. Temendo mal maior, Deus enviou o arcanjo Gabriel para orientá-los sobre o livre arbítrio (base de sua vida e dos direitos individuais), tal qual o relato da Criação. Após essa conversa, Adão se mostrava pronto para enfrentar o mal, porque conhecia os detalhes do pecado.
Porém, logo no início do diálogo com Gabriel, Eva se afastou para cuidar de suas flores e não ouviu as recomendações (o Inferno está cheio de boas intenções e, por isso, boas ações, mas ingênuas, conduzem ao mal). No dia seguinte, enquanto Satanás tomava forma de Serpente, Eva propôs a Adão que ambos se separassem para cuidar de suas atividades mais prazerosas, sem a interrupção das conversas e da troca de carícias rotineiras quando estavam juntos. Adão não quis deixá-la só, mas Eva retrucou, discursando, insistindo no problema da liberdade individual e Adão acabou cedendo.
A seguir, ocorreu o inevitável e Eva veio lhe oferecer uma maçã — Adão não se enganou com a oferta, pois bem sabia que Satanás estava por trás da armação. Então, por que comeu consciente e deliberadamente a fruta? Por amor. Se Eva se perdeu, ele iria junto. Como é sabido, a sentença por tal gesto de pecado, foi a expulsão do Paraíso Terrestre (como destino da humanidade). Por fim, a perda da riqueza do Éden não se tornaria desespero, mas sim tristeza do passado e esperança no futuro.
FÁBULAS DE LEONARDO DA VINCI (1452-1519)
O imaginário social renascentista (retratado nas fábulas do artista) já indicava a necessidade de se ver na vida social (assim como na política) a ação da prudência e não só da conquista. As “necessidades” são melhor enfrentadas com calma, prudência, bom senso, do que de modo afoito e áspero ou com “força excessiva”.
A idéia de utilizar a literatura é para reforçar um sentido político clássico: a sabedoria política está em colocar em movimento forças políticas que eram aparentemente apenas potências (ou potencialidades que estavam em repouso), isto é, usar da força com prudência e moderação. Neste caso, as fábulas agora utilizadas são todas do texto Bestiário, fábulas e outros escritos (Da Vinci, 1995):
- Avareza: “o sapo alimenta-se de terra e está sempre magro porque não se enche; tamanho é o temor de que a terra lhe falte” (p. 17). Também deve-se recomendar prudência ao avarento, para não cair no ridículo. Ou para que a riqueza possa ser posta em circulação novamente, retornando ao mercado e estimulando a produção (de toda forma, o lucro não se equipara à usura).
- Prudência: “A formiga, por natural conselho, provê-se no verão para o inverno, matando as sementes colhidas, porque não renascem; e delas depois se alimenta” (p. 18). Desde a fábula da formiga e da cigarra, a precaução indica vida longa.
- Falsidade: “A raposa, quando vê algum rastro de garça ou gralha ou aves semelhantes, deita-se logo no chão, com a boca bem aberta, parecendo morta, e essas aves pretendem bicar-lhe a língua e ela corta-lhes a cabeça” (p. 19). A astúcia, ao tempo de Da Vinci, revelava-se nos ditados populares.
- Escorpião: “A saliva cuspida em jejum sobre o escorpião mata-o. Igualmente a abstinência da gula expulsa e mata as doenças que da gula dependem e abre caminho às virtudes” (p. 26). Não há veneno no mundo que se assemelhe às ações de clara má-intenção. Nem sempre, como nos indicava Hobbes, pode-se dizer que “do mal, vem o bem”: muitas vezes, do mal vem um mal ainda maior.
No “estado de natureza”, com liberdade total de ação, o homem provocava temor nos demais e vice-versa. Sua natural agressividade lhe rendia outras e mais fortes ameaças. Com o uso da “reta razão”, provou a si mesmo que “o seu mal lhe rendia mais mal ainda”, e logo pensou que fazer as pazes lhe traria sossego. Moisés, com seus dez mandamentos, são, neste sentido, a revelação da sabedoria humana — “não faço mal ao Outro, não porque me importe com o Outro, mas porque não quero que façam mal a mim”. Com isso, vê-se que o bem veio do mal.
- Lagarta: “A lagarta, que por meio do continuado estudo de tecer com admirável arte e delicado trabalho à sua volta a nova habitação, sai depois dela com belas e coloridas asas, com estas erguendo-se a voar para os céus” (p. 27). Os comedidos devem agir ainda com mais vigor e dedicação, pois os impetuosos podem destruir seu intuito num só golpe.
- Aranha: “A aranha gera de si mesma a artificiosa e engenhosa teia, a qual em recompensa lhe entrega a presa que apanhou” (p. 27). Para o movimento do meccano (antigo brinquedo de meninos, imitando autômatos), que se afirmava na Renascença, “a vida é um engenho”: o que não está de todo errado, pois não é do engenho que provêm o trigo e deste o pão? Não é do “engenho humano que vieram as melhores obras humanas? Se bem que as piores também...
- Doninha: “esta quando caça ratos, come primeiro arruda” (p. 36). Em política, todo cuidado é pouco.
- Camaleão: “Este apanha sempre a cor da coisa onde pousa; por isso, juntamente com os ramos onde pousam, muitas vezes são devorados pelos elefantes” (p. 37). A metamorfose na política é a arte da esperteza, mas pode ser prejudicial por sua própria natureza, especialmente se com tanta mudança se desfaz todo laço social ou afetivo, se rompe a lógica da fidelidade partidária ou toda relação de identidade.
- Lealdade: “...Amor, temor e reverência: escreve isto nas três pedras dos grous” (p. 37). Isto revela bem o pensamento renascentista sobre o poder.
- A rede: “A rede, que costumava apanhar os peixes, ficou presa e foi levada pelo furor dos peixes” (59). O furor pode ser um “remédio” (virtù) contra as necessidades, mas se não bem conduzido/controlado pode levar à exceção do bom uso, à ruína do bom senso.
- O fogo e a vela: “O lume é guloso fogo sobre a vela. Ao consumi-la consome-se a si mesmo” (p. 59). A precaução é o remédio que pode evitar a conversão do bom senso em excipio (exceção).
- O papel e a tinta: “Vendo-se o papel todo manchado pela escura negridão da tinta, fica irritado; e esta mostra-lhe que são as palavras por ela escritas a razão da conservação dele” (p. 59). O Estado de Necessidade é uma mostra da nossa incapacidade de lidar com o natural — equivale ao papel que não se convence de sua função secundária.
Por fim, apenas mais uma de suas profecias: “Acontecerá à geração humana não se entender ao falar um com o outro. — Isto é, um alemão com um turco” (Da Vinci, 1995, p. 72). Tem-se uma eterna xenofobia que alimenta as investidas constantes da segurança nacional e daí surgem medidas de contenção e de exceção. Como isto se repetiu por toda história pós-quinhentista, até hoje, num processo sem fim, a Razão de Estado surgiu como a mais importante criação do Renascimento. E de lá para cá, o que continuou ou deixou de ser moderno?
O QUE NÃO É MODERNO?
Desse modo, esse é o nosso prisma, a modernidade nunca foi segura, estável, inabalável (como queriam os teóricos da Razão de Estado), em oposição à idéia de fragmentação do que se convencionou chamar de pós-modernidade. A modernidade, portanto, desde suas origens ou amarras mais profundas (no contato com o Oriente Próximo) já acenava/acentuava, claramente, a inquietação, o incômodo, o desejo de convulsionar o ethos e o telos. A techné (técnica, arte, perícia) se perderia definitivamente diante do moderno mundo da técnica. A própria arte viria a ser objeto da técnica, como o sfumato:
Ao significado que tiveram Brunelleschi para a arquitetura e Donatello para a escultura, corresponde a importância de Masaccio para a pintura [...] Ele percebeu como os objetos e paisagens mais distantes perdem a definição de sua silhueta e vão assumindo uma coloração mais diluída e desbotada. Seria a introdução da técnica do esfumaçamento (sfumato), pela qual o artista representa o fundo do quadro com uma paisagem que se perde no infinito e cujas formas e coloração tendem progressivamente para um esmaecimento em que parece diluir-se por complete, fundindo-se com o céu nos planos mais distantes e profundos do quadro (Sevcenko, 1994, pp. 57-8 - grifos nossos).
Contudo, seria lícito dizer não há aí uma razão suficiente para vermos suas fissuras? Tanto há uma reta razão (Hobbes), quanto há brechas e furos (bastante intensos e intencionais): o Iluminismo de 1793 trouxe o Estado de Exceção.
Todavia, foi esse mesmo revigoramento, Renascimento, que trouxe a moderna comunicação. Os correios inventados por um senhor chamado Taxis, mas a comunicação global, do próprio capital, entre metrópole e colônias, centro e periferia, foi obra da revolução burguesa:
Os mercados das Índias Orientais e da China, a colonização da América, o intercâmbio com as colônias, o aumento dos meios de troca e das mercadorias em geral deram ao comércio, à navegação, à indústria, um impulso jamais conhecido antes e, em conseqüência, favoreceram o rápido desenvolvimento do elemento revolucionário na sociedade feudal em decomposição [...] Em lugar da antiga auto-suficiência e do antigo isolamento local e nacional, desenvolve-se em todas as direções um intercâmbio universal, uma universal interdependência das nações (Marx & Engels, 1993, pp. 67- 70).
Marx, ao que parece, também destacou o Renascimento e a insuficiência do Estado-Nação para guardar o próprio capital. Mas, que projetos ou herança, teríamos recebido disso tudo? Talvez a ponderação de Morin nos ajude a pensar uma racionalidade para além da “gaiola de ferro” (Weber, 1979). A citação é longa, mas necessária, porque é auto-explicativa:
O que permite a distinção entre vigília e sonho, imaginário e real, subjetivo e objetivo é a atividade racional da mente, que apela para o controle do ambiente (resistência física do meio ao desejo e ao imaginário), para o controle da prática (atividade verificadora), para o controle da cultura (referência ao saber comum), para o controle do próximo (será que você vê o mesmo que eu), para o controle cortical (memória, operações lógicas) [...] A racionalidade é a melhor proteção contra o erro e a ilusão [...] A racionalização se crê racional porque constitui um sistema lógico perfeito, fundamentado na dedução ou na indução, mas fundamenta-se em bases mutiladas ou falsas e nega-se à contestação de argumentos e à verificação empírica. A racionalização é fechada, a racionalidade é aberta. A racionalização nutre-se nas mesmas fontes que a racionalidade, mas constitui uma das fontes mais poderosas de erros e ilusões [...] O racionalismo que ignora os seres, a subjetividade, a afetividade e a vida é irracional. A racionalidade deve reconhecer a parte de afeto, de amor e de arrependimento. A verdadeira racionalidade conhece os limites da lógica, do determinismo e do mecanicismo; sabe que a mente humana não poderia ser onisciente, que a realidade comporta mistério. Negocia com a irracionalidade, o obscuro, o irracionalizável. É não só crítica, mas autocrítica. Reconhece-se a verdadeira racionalidade pela capacidade de identificar suas insuficiências [...] Os sábios atomistas, racionais em sua área de competência e sob a coação do laboratório, podem ser completamente irracionais em política ou na vida privada [...] Em nossas sociedades ocidentais estão também presentes mitos, magia, religião, inclusive o mito da razão providencial e uma religião do progresso [...] Daí decorre a necessidade de reconhecer na educação do futuro um princípio de incerteza racional (Morin, 2000, pp. 22-24).
Está claro, entretanto, que a racionalidade é humana (inclusive partindo de Weber) e a racionalização é produto histórico: como foi Ausschwitz.
Nossa herança está baseada no mundo/tempo que é (ou foi) repleto de incertezas, como é para nós nosso cotidiano. Mas, como vimos, isto não implica que se tenha errado em tudo.
Promessas foram feitas, a exemplo do próprio Iluminismo? Dúvidas pairam sobre as vãs certezas e/ou dívidas ainda esperam o devido reembolso? Tudo isto é certo ou correto, tal qual tudo que era produtivo se tornou especulativo e aí se desmaterializou. Aliás, como a antiga de que apostando, algum se ganha (no popular: “quem não chora, não mama”).
Hoje vemos que muito ou quase tudo se perde(u). Porém, não foi o Fausto quem primeiro quebrou o contrato moderno? Mefistófeles ainda se ressente:
CORO DOS ANJOS
Santa flamância!
[...] Mística aliança.
[...] Limpa a atmosfera,
A alma se expanda!
(Elevam-se às alturas, levando a alma imortal de Fausto).
MEFISTÓFELES
Que é isso? – Aonde se foram? voaram? Como!
[...] Foi-se o tesouro!
[...] Foi-me abstraída a posse única e rara,
A alma sem par, que se penhorara,
[...] E pra dar queixa agora, aonde, a quem me dirijo?
De quem meu bom direito exijo? [...]
(Goethe, 1997, p. 443)
Nossa hipótese, portanto, é que as aflições, os desafios, as inseguranças e indeterminações, não resultam das mesmas especulações e racionalidade (desencantada, certamente) que nos move há muito tempo. O que nos leva a pensar uma Modernidade Tardia, em termos de alguns resultados, mas muito acesa e viva em suas conseqüências: boas ou más; reais ou virtuais; pagãs ou cristãs (como as Cruzadas); tradicionais ou ultramodernas (Giddens, 1991).
Talvez por isso, devido a tantos porquês e talvez, Morin prefira falar do futuro ou presente-futuro, como um conjunto de saberes mínimos necessários e não em um saber como poder (Bacon) ou como disciplina e controle. Também, talvez por isso, Canário fale neste futuro, mas não como chute ou aposta. Pelo contrário, como compromisso imediato. O futuro da escola, diria da sociedade global, precisa ser o resultado de uma escolha e não a conseqüência do destino (Canário, 2006).
Bibliografia
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VINÍCIO CARRILHO MARTINEZ
Professor Substituto na UNESP/Marília, tem graduação em Direito (1988) e em Ciências Sociais: UNESP/Marília (1989); mestrado em Educação pela UNESP/Marília (1996); doutorado em Educação pela FEUSP (2001); mestrado em direito (2005); e é doutorando em Ciências Sociais, UNESP/Marília (2006 - ).
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