APORRINHAÇÃO POR E-MAIL: A EDUCAÇÃO ESTÁ EM CHOQUE

Imagen de Vinício Carrilho Martinez

Há um grande espírito-de-porco
Porque hoje é sábado
Vinícius de Moraes

Neste momento, em que escrevo a crônica, e sou obrigado a (re)ler esta insólita troca de mensagens — porque dizer comunicação, seria uma ofensa a Macluhan — penso na enorme perda de tempo em se discutir o óbvio ululante (diria Nelson Rodrigues) ou no que meus avós, gente bem simples, sabia de cor e salteado: “encurte a conversa”. Quando crianças, dizíamos: “não dê linha” ou “não coloque pilha”. Hoje, talvez dissesse, na linha do politicamente correto: “dê a volta na intolerância”.
A Fátima (namorada) me diz incessantemente: “não se dá pérolas aos porcos”. Como o leitor poderá ver, ainda não venci a teimosia espanhola! Em suma, relembrando e parodiando E. Morin, diria que são Os sete diálogos que não interessam ao futuro - a ninguém!
No caso, vejamos como um aluno de elevada graça, superior estirpe e educação citadina é capaz de dirigir uma “crítica apenas” ao professor. Não vamos nem considerar fatores extra-classe, como o fato do professor não ser bacharel na área em questão e ter de enfrentar esta situação, como “substituto”, em razão da extrema precariedade do ensino público no Brasil. Trata-se especificamente do ensino superior, no curso de Relações Internacionais, sendo o professor, bacharel em Ciências Sociais.
Não vamos considerar a longa disponibilização de material especializado ou “atualizado”, via lista de e-mails ou, em alguns casos, entregue para ser alocado em pasta, no xerox. Também não vamos considerar e nem anexar o “material didático” produzido e disposto pelo professor a todos os interessados (ainda que não se tratasse de sua formação específica).
Enfim, vamos ao diálogo que é um pecado para quem quer aprender de verdade. Pensemos, porém, no lado bom da coisa: aprendemos com os erros ou, como diz Paulo Freire, é necessário ensinar certo (mesmo que com conteúdo nem sempre equivalente). No meu caso, outra vez, tirei uma crônica do limbo, da infelicidade sórdida de quem confunde crítica com cinismo, ou seja, azeda, é certo, fiz do limão uma limonada (veja artigo homônimo à situação, relacionado na bibliografia):
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08/11/2008 – sábado: 23h30min.
Olá professor...

Primeiramente gostaria de salientar que estou muito confuso com as aulas da sua matéria neste semestre. Não sei qual a ementa desta matéria, mas a começar por isso estou insatisfeito com o modo como tudo aconteceu. A matéria é voltada para as Organizações Internacionais, enquanto que o conteúdo que tivemos nos remete superficialmente à questão.

Outro fator que me chama atenção é o modo como foram abordados diferentes temas em sala de aula, desviando-se dos pontos concernentes à matéria e pendendo para observações e colocações pessoais de assuntos diversos.

Quanto aos trabalhos que elaboramos e entregamos ao senhor, sinto que também fugiram ao tema da matéria e/ou foram abordados de uma forma muito superficial, com um propósito indefinido.

Sim, mostro-me descontente porque agora em pleno final do curso o senhor quer que façamos um trabalho para compensar uma discussão em aula e ainda que façamos uma simulação de uma Organização Internacional sobre a qual não estudamos e nem sequer o senhor mencionou em sala.

Veja bem, não estou me opondo em fazê-las, mas sim criticando o modo como nos foi proposto o curso e suas atividades.

Não sei o que meus colegas pensam a respeito disso, mas indignação é o mínimo para quem, a essa hora, está concluidno o último ano do curso.

Espero que considere esse email como uma crítica apenas às aulas e o jeito confuso com o qual direcionou nossas atividades e aulas.

Atenciosamente,
Armando
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Prezado Armando, como você mesmo diz, no final do semestre (sem que sequer tenha se envolvido, assistido ou participado de qualquer evento ou discussão temática), é um pouco tarde para quem quer, das duas uma, ou chorar o leite derramado ou fazer uma "crítica apenas".

Sinceramente, neste seu caso em tela, dada sua verve insatisfeita, nem sei se penso em responder a apenas uma crítica ou "apesar de...".
Afinal, como internacionalista que já é - como o futuro da representação diplomática brasileira -, indiferentemente se tem ou não razão em suas posições poliqueixosas, poderia ao menos (ou diria: nem que fosse só isto), consultar o programa do curso: disponibilizado para toda a sala, assim que aprovado pelo departamento.

O fato é que, como o notável dentre os mais notáveis de todos os bacharéis da UNESP, nos seus 50 anos de universidade, nestes momentos de superficialidade (a exemplo do "contexto da formação de Weimar") deveria estar lendo algum clássico (que não C. Schmitt) ou embrenhando-se nas mais altas e complexas discussões acerca do papel do Brasil no cenário internacional.

Assim, logo presumo, não lhe restou tempo para ler a ementa do curso ou os conteúdos programáticos (organizados por este mero escriba) e, acrescento, para conversar com seus colegas, tirando suas próprias amarguras.

Tinha-me proposto a não responder tamanha lide queixosa, mas, a última questão - uma vez que iniciei esta conversa de extrema satisfação intelectual - refere-se ao "conteúdo superficial".

Devo acreditar que está absolutamente correto em tudo o que disse, afinal, se tanto se embrenhava nas tertúlias do poder neokantiano que por aqui se espraiou, realmente, não teria tempo, vontade, motivação, nada, absolutamente nada, que o levasse a elevar o "nível rastaqüera" dos temas expostos.

De minha parte, apenas rogo-lhe mil perdões por não ter notado sua imensa dor, angústia e insatisfação em chegar ao quarto ano, de RI (Relações Internacionais), sem saber o que são Organizações Internacionais, tais como ONU, OEA.

Nem imagino em como me colocar em seu lugar, diante de tamanha descoberta a respeito de si mesmo e do andamento intelectual desta mísera comunidade.

Mas, sinto mesmo, por não ter levado uma cartilha (no melhor modelo cursinho, "passe em concurso" ou "auto-ajuda para emprego certo no futuro") desde o primeiro dia de aula, em que todos os detalhes das tais OIs (Organizações Internacionais) estivessem expostos por algum gênio que, aí sim, numa "crítica apenas" fizesse suas dúvidas e angústias se dissiparem.

No mais fundo de minh'alma, sinto não ter desdobrado seu pesar sobre o mundo nas certezas das regras que movem o notável curso das OIs. Simplesmente, sinto não ter cumprido com as expectativas deste mais notável, brilhante e regular aluno da UNESP, quiçá do Brasil: aquele que desacredita do que não viu.

Data Vênia por tudo, transmita meus pesares aos demais.
São pesares em relação a mim mesmo, posto que, se vocês não sabem, mesmo não freqüentando as aulas ou, se presentes, ausentes no mais profundo silêncio gutural do gênio julgador, não puderam me dizer, de maneira simples, cordial, para que este simples servidor público pudesse entender: "- Professor, por favor, pode repetir, não entendi".

Sem ofender vossa grandeza, ainda seria possível solicitar-me: "Podemos aprofundar este ponto, eu penso que ...". Realmente, eu penso que não fiz uma "crítica apenas". Também, hoje é sábado, e como dizia o poetinha (não é do seu tempo, nem perca tempo), "sábado é dia de pecar". (Veja completa a letra ao final).

Com Vinícius de Moraes me despeço, tenha uma ótima semana e mais sorte no futuro, atenciosamente, Vinício ... só Vinício - nem poeta, nem cantor, só professor!
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Olá de novo...

Pois é, de palavras bonitas o senhor entende... e de organizações internacionais, pelo jeito, não!

Eu me dedico no meu tempo ao estudo daquilo que em aula me falta ... mas porque perder tempo com alguém que acha que ensina... mas apenas fala bonito...
Armando
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O que seria do mundo se não existissem aqueles que vivem "armando" pegadinhas para testar nosso "desencantamento do mundo" - em especial com os gênios?

Mas, pense apenas o óbvio, ALÉM desta sua "apenas crítica": se vc estuda tanto o que lhe falta em sala de aula, por que não interveio nenhuma vez, nenhum dia, nunca, nunca, nunca, para ELEVAR o nível e assim ajudar seus colegas e o professor que, é claro, vc considera um ignorante?

Sua genialidade é tão espantosa que até agora não entendi isso ... sinceramente.

Porém, não tenho mais nada a dizer a vc - aliás, está com presença até o final do curso e está liberado dos trabalhos.

Por favor, também me poupe de qualquer outra mensagem como esta, evite-me de qualquer possível contato, porque me sinto menorizado por você.

Este seu excesso de educação é insuportável para mim!!

Ah, se não fosse por Kant e a verdadeira noção de menoridade, talvez até levasse isto mais a sério...
Então, por favor, insisto: fim da conexão e da interação social.

KATILINA: Abutere nostra patientia!!!!!!

POR FAVOR, NÃO ME ESCREVA MAIS.
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Mesmo após ter enviado esta última mensagem, e sob efeito da emoção, inclusive da emoção burra de ter respondido duas vezes ao que me propusera não responder nenhuma, tentei localizar um lenitivo. Digamos que o nível de agressividade estava em alta e deveria abaixar a adrenalina e a testosterona, afinal, por que tanto desaforo, intimidação e altercações?

Na verdade, esta não foi a primeira e (infelizmente) não será a última vez que ocorre um evento semelhante. Em outro momento, faz mais de 20 anos, um seminarista usou de chantagem e ameaça para me inibir diante da sala. Era muito mais inexperiente, mas agi como certa firmeza. Sabia que era bacharel em direito – era mais velho do que eu – e ali buscava o “sentido da vida”. Buscava a luta causídica, hoje sei disso, mas nunca a luta pelo direito, como queria Ihering.

Enfim, o drama se encerrou quando, antecipando-me a qualquer possível ação de sua parte, enviei um comunicado à direção, expondo os fatos e alertando que poderia (se assim resolvesse) representá-lo junto à Ordem dos Advogados. O nobre colega e aluno, literalmente, entrou em parafuso e teve de procurar auxílio terapêutico. Não era minha intenção que gerasse tal gravame, mas acabou por se confirmar que “a defesa antecipasse é o melhor ataque”.

É evidente que também não espero um desdobramento dessa magnitude, o melhor era nem ter começado, mas “o seguro morreu de velho”. Pois, falando em seguro, vejamos esta última comunicação que travei com um dos seus alegados “colegas”, um mês antes dessa péssima experiência de comunicação.
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Em 07/10/08 -
Indaguei a um aluno, por e-mail:
Essa forma de tentar levar a história ou o caso concreto para relacionar com a nossa teoria, tem sido muito chato?

Resposta:
Do meu ponto de vista, está bem legal mesmo, eu até estava pensando sobre isso quando saí da aula, até o carro... bem tranqüilo, reflexões interessantes, bem profundas até... mas, aqui vou ser bem sincero: será que a galera está curtindo?! Ficou muito pouca gente na sala hoje... Quando vc perguntou para alguém hoje sobre o debate, ouvi uma confissão de que "estava viajando"...

Minha resposta:
Quanto à viagem da sala, tb já pensei nisso, tentei outras formas - coisa que não faço normalmente -, como aquela leitura dos textos e o comentário, etc.
Infelizmente, tb vejo esse pessoal, desse quarto ano, como aqueles do direito, aqueles que fugiam de tudo que não fosse "instrumental" para eles, ou que não estivesse amarrado em apostilas.

Novo comentário do aluno:
Realmente, concordo com sua análise a respeito da sala. Tem também a questão do momento, a maioria está prestando processo seletivo para trainee, ou seja, estão passando longe de qualquer interesse por reflexões aprofundadas ou mesmo debates "acadêmicos"... Mas, isso é deles... enfim. Não tem que agradar todo mundo também, nem dá, não é mesmo?!

Outro comentário meu, pessoal:
Agora, hoje, eu serei aluno e ainda com seminário...

Sua última ponderação:
Acho que nunca deixamos de ser "alunos", não é mesmo? Os que se esquecem disso e pretensamente consideram-se grandes mestres, prontos e acabados, viram uns chatos, para ser bem ameno...

Infelizmente, o bairrismo e o corporativismo impediram que este mesmo aluno sequer me olhasse nos olhos, no dia 10, na aula seguinte, dois dias depois da altercação.
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Pois bem, penso que estes são ou podem ser problemas comuns a muitos outros professores e alunos, e só por isso propus-me a relatar esses episódios e alguns de seus efeitos. Tenho procurado transformar tudo em limonada, mas até quando serei capaz, isto só cabe ao amanhã responder.
Ainda queria levantar a questão, para que outros discutam, e que remete à antiga/nova confusão entre “palavras bonitas” (retórica, oratória) com conhecimento ou “argumentação para convencimento”. Por que, na falta da verdade ou de argumentos reais, só nos resta apelar para desqualificar o discurso do outro.
Nunca seremos capazes de ver que este “outro”, hoje um adversário, mesmo em “relação adversa conosco”, nunca deixará de ser o Outro? Este Outro, como “sujeito cognoscente”, não se compõe apenas de “palavras bonitas”, mas também de informações e algo que pretende seja “comunicado”.
De qualquer modo, ainda que fosse um discurso composto de “palavras bonitas”, não era esta a dimensão requerida pela oratória, como “veículo oral de transmissão cultural”, — um dos métodos aplicados pelos educadores humanistas, do pré-Renascimento?
Esta foi uma de suas considerações finais, tentando a desqualificação final de tudo o que lhe disse. E volto a insistir — sempre me dirigi ao “jovem educando” em tom de ironia (como “método de verdade”) e não-cinicamente ou como deboche:
O pós-moderno sem dúvida traz ambigüidades — aliás é feito delas e deve ser criticado e superado. É isso que ele propõe: a prudência como método, a ironia como crítica, o fragmento como base e o descontínuo como limite (Sevcenko, 1987, pp. 54-55 – grifos nossos).

Ironicamente, quando retornei à minha casa, pela hora do almoço, depois de quatro aulas para outros dos seus “colegas”, só que do mestrado, recebi a ligação de uma editora dizendo que meu livro havia sido aprovado para publicação.
E do que trata tal livro? Um livro escrito, em parte (dois capítulos), para “esmiuçar” os itens que compõem um dos módulos do curso que nosso amigo desconhece: o Estado de Direito e as instituições da política moderna.
Relembremos o que me disse: “Pois é, de palavras bonitas o senhor entende... e de organizações internacionais, pelo jeito, não!”
Pelo jeito, a editora também é composta por “ignorantes” em política e instituições da modernidade (nacionais ou internacionais).
Porém, pensando de forma positiva/produtiva, como real processo de ensino/aprendizagem, a situação e em seguida a ligação, é um fato irônico ou curioso?
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Em outro e-mail, dessa vez com o claro intuito expresso na palavra comunicação, enviei o seguinte texto/avaliativo:

Boa tarde S. tudo bem?
Na última aula ia dizer alguma coisa a todos pela manhã, nas aulas da pós, mas entramos naquele debate animado e o tempo se foi.

Em todo caso, diga ao pessoal que aquele tipo de conversa/debate é, absolutamente, normal. Pode parecer acalorada e às vezes é mesmo, mas em nenhum momento houve desqualificação de um dos lados. E esse é (ou deveria ser) o ponto central das questões acadêmicas.

A universidade - como "suposta universalidade em que os indivíduos e as individualidades se encontram, sem a vita mea, mors tua" - deveria nos permitir crescer em meio à diversidade e às adversidades. Porém, na maioria das vezes, o que ocorre é a desqualificação do Outro, que acaba como um "outro-qualquer", pois o "adversário ideológico, intelectual" é transformado em "inimigo". Já vimos e vemos ocorrer muito disso.

Se quiser, relembre-se que, durante as duas horas, quase três, em que debatemos (mais o Ma. e eu), não usamos de cinismo, tergiversação, nada disso. Fomos honestos um com o outro (conosco mesmo e com vocês) o tempo todo - pelo menos na minha avaliação.

E mesmo se usássemos da ironia, o que não fizemos, seria como recurso, como método, desde a Maiêutica de Sócrates. Seria um recurso de aprendizado, sem deturpações ou intenções ocultas. Sem a intenção perversa de tratar o Outro com desprezo, diminuindo-o à condição de um "outro-qualquer".

O tom (que nem considero) elevado se deve ao meu sangue espanhol, mas igualmente à nossa latinidade em geral, mas realmente ninguém se exasperou - penso eu. Ninguém fez uso do nefasto "discurso competente" ou "de autoridade", ainda que tivéssemos nos lembrado de sua ocorrência ao longo da conversa.

Vejo que nos esforçamos pelo discurso da alteridade e, é claro, que isto requer energia, convicção, paixão (vocação = Weber). O que, insisto, não se assemelha em nada ao afrontamento pessoal, a nenhum meio de desonra do debatedor. Pelo contrário, chegamos à conclusão final de que concordamos com os fins, mas não com os meios...o que é irônico (no bom sentido) ou engraçado, se preferir.

Na verdade, por mais que a ideologia seja a conversão do "particular no geral", não podemos ver com menoridade a ninguém. Porque, se assim agirmos, das duas uma: ou estamos em guerra (e não na escola) ou não suportamos a perda: o que é psiquiátrico. Se não suportamos perder, sequer na argumentação, o resultado só pode ser um: entrar em guerra, primeiro com você mesmo, e depois com os demais. Neste caso, pela lógica, não há duas escolhas, mas uma só: ou a escola e o aprendizado ou a ferradura ideológica e a guerra.

Digo que ficamos, por longas três horas de debate/conversa, no ambiente da escola e do aprendizado. São pequenos dados ou "amostragens", todavia, é por aí que notamos (ou não) a maioridade, o crescimento, a responsabilidade.

Do contrário, com o que temos diante dos olhos, são "mestres" que adoçam a boca de seus alunos (sobretudo se amigos de chope), alisam seus cabelos (se são meninas) e assim evitam qualquer polêmica.

Ora, como pode se sair como professor, um "anjo sem polêmica"? H. Arendt dizia que não se é responsável se não se sente a dor do mundo (Adorno também, em outras palavras).

Por fim, ainda queria dizer que no início estava apreensivo porque não sabia ao certo o que ia encontrar - assim como vocês. Contudo, aprendi bastante, foi uma experiência muito gratificante - só não foi melhor porque não pude ler os mesmos textos com vocês, antes dos seminários. Não pude, por pura falta de tempo/energia - a tese, os concursos e as aulas consomem mais a alma do que o tempo em si mesmo.

Minha avaliação geral já foi enviada ao Prof. M. (ainda sem os conceitos) e foi positiva. Na verdade, aceitei o convite a fim de participar novamente da disciplina, mais organizadamente (de minha parte), se estiver pela região no ano que vem.

No mais, estou por aqui,
e se puder colaborar de alguma forma, me dêem um alô,
abraço geral e um em especial para você,
que sempre se dedicou a todos
- mesmo sendo aluna ouvinte.
Obrigado,
Vinício
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A resposta a esta mensagem foi simples, direta, mas verdadeira quanto ao sentido que deveríamos procurar na palavra educação (eucare = revelar). No caso, revelar a intenção, a intensidade, a vocação, os sentimentos reais (não-ocultistas) que possam envolver relações acadêmicas e/ou administrativas. O que me dizia de especial, naquele momento no papel de educador?

Oi Vinício!

Acredito que possa ficar tranqüilo com relação ao debate de ontem. Na última aula do M. (08/09), o Ma. apresentou um seminário sobre o Norberto Bobbio e também houve debate entre os dois. As interpretações eram divergentes sobre alguns pontos da vida e obra do autor.

Particularmente, acho que você e o M. têm uma visão mais abrangente e conseguem relativizar os conceitos. O Ma. talvez esteja caminhando neste sentido. Aparentemente, ele ainda está vinculado à questão da luta de classes. Mas, o debate sempre enriquece a aula.

Quanto aos seminários, você participou, fez pontes, acho que ficou interativo, dinâmico.

Agradeço a você também por encaixar nossas aulas no seu horário, mesmo tendo outros compromissos assumidos. Fico grata também pelas dicas que deu para o meu projeto. Foi atencioso e te agradeço muito por isso.

Espero que dê tudo certo e você permaneça aqui na região, se for sua vontade, claro.

Qualquer coisa, estou por aqui.
Abraços.
S.
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No fim das contas, recebi somente um único apoio docente, e que também se vê neste e-mail baixo:

Oi Vinício,
Agradeço pelo envio do texto que é brilhante e auxilia a gente a refletir sobre a educação superior hoje e o comportamento de certos alunos.
Não vou fazer nenhum comentário porque penso que você já fez todos.
Conte com meu apoio para o que precisar.
Grande abraço

Nessas situações, com exceção de pessoas como essas, dos dois últimos e-mails, penso e sinto, como o povo, que a universidade é mesmo um grande cadáver ... do contrário, mais alguém interessado em algum assunto sério teria dito alguma coisa.
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Todos os e-mails e, inclusive, este artigo, foram enviados aos coordenadores — foi aquele bate e volta. Porém, como que para combater o que já parecia uma conformidade devastada pela iniqüidade e indiferença maior, duas vozes dissonantes ainda se somaram às aqui relatadas:
Depois da leitura do seu texto e conhecendo bem nossos alunos cheguei à conclusão de que o certo é aquilo que você disse: é fazer um bota fora generalizado! O problema é que esse tipo de questão vem aparecendo com mais freqüência e a indolência e “liberdade” que os alunos acham ter para achacar os professores tem passado dos limites. É um problema sério, quando chegará um momento em que deverá ser debatido abertamente: doa a quem doer! Quero dizer-lhe que sou solidário a você! Grande abraço, Marcelo.

Por fim, uma grande amiga, mas que aqui procurou se reportar como professora, sofredora como todos os que enfrentam este trabalho hoje em dia — doutora em Letras pela UNICAMP, ainda diria de sua indignação com o lado cada vez mais tosco de nossos alunos:
Nossa Vinício... fiquei horrorizada com esse tal seu aluno....Agora...falando do texto... eu adorei... você escreve cada vez melhor... Quanto à pedagogia da ironia... ainda estou pensando no assunto.
Beijo Boa semana
Helo

Hoje, findando a história, e depois de ter sabido por outros professores que nosso insigne representante do corpo discente, de fato, considera-se muito mais do que faz jus, ou seja, “acha-se no domínio de um conhecimento que nem faz idéia do que seja de verdade”, diria que minha autocrítica ainda pesa, mas certamente pesa menos. Ou, como nos antigos, “a pretensão não tem limites”, a não ser pela porta fechada da realidade — a vida dura do trabalho sério o dirá – afinal, é novo e pode/deve aprender (assim como nosotros).

Bibliografia
ADORNO, Theodor W. Educação e emancipação. Rio de Janeiro : Paz e Terra, 1995.
ARENDT, H. Entre o passado e o futuro. (3ª ed.). São Paulo : Editora Perspectiva, 1992.
FREIRE, P. Extensão ou Comunicação? (7ª ed.). Rio de Janeiro : Paz e Terra, 1983
______ Política e Educação. São Paulo : Cortez, 1993.
IHERING, Von Rudolf. A luta pelo direito. São Paulo : Martin Claret, 2002.
¬¬_______ O universo do direito. Belo Horizonte : Ed. Líder, 2004.
MACLUHAN, Marshall. Macluhan por Maculan: conferências e entrevistas. Rio de Janeiro, Ediouro, 2005.
MARTINEZ, Vinício Carrilho. O cidadão de silício. UNESP - Faculdade de Filosofia e Ciências : Marília- SP, 1997.
_______A rede dos cidadãos: a política na Internet. Tese de doutorado. São Paulo : Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), 2001.
______ Direito à educação: do limão à limonada. Jus Vigilantibus: http://jusvi.com/colunas/33915, acessado em 10/11/2008.
MORIN, E. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo : Cortez; Brasília, DF : UNESCO, 2000.
SEVCENKO, Nicolau. O enigma pós-moderno. IN : Oliveira, Roberto Cardoso de (org.). Pós-modernidade. Campinas-SP : Editora da UNICAMP, 1987.

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Vinicius de Moraes

O dia da criação

Macho e fêmea os criou.
Gênese, 1, 27

I
Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.
Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

II
Neste momento há um casamento / Porque hoje é sábado / Hoje há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado / Há um rico que se mata / Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata / Porque hoje é sábado / Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado / Há uma mulher que apanha e cala / Porque hoje é sábado
Há um renovar-se de esperanças / Porque hoje é sábado / Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado / Há um sedutor que tomba morto / Porque hoje é sábado
Há um grande espírito-de-porco / Porque hoje é sábado / Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado / Há criançinhas que não comem / Porque hoje é sábado
Há um piquenique de políticos / Porque hoje é sábado / Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado / Há um ariano e uma mulata / Porque hoje é sábado
Há uma tensão inusitada / Porque hoje é sábado / Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado / Há um vampiro pelas ruas / Porque hoje é sábado
Há um grande aumento no consumo / Porque hoje é sábado / Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado / Há um garden-party na cadeia / Porque hoje é sábado
Há uma impassível lua cheia / Porque hoje é sábado / Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado / Umas difíceis, outras fáceis / Porque hoje é sábado
Há um beber e um dar sem conta / Porque hoje é sábado / Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado / Há um padre passeando à paisana / Porque hoje é sábado
Há um frenesi de dar banana / Porque hoje é sábado / Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado / De uma mulher dentro de um homem / Porque hoje é sábado
Há uma comemoração fantástica / Porque hoje é sábado / Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado / E dando os trâmites por findos / Porque hoje é sábado
Há a perspectiva do domingo / Porque hoje é sábado /

III
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em [cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e [sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.

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Vinício C. Martinez
Possui graduação em Direito e em Ciências Sociais (UNESP), é mestre em Direito e em Educação (UNESP) e Doutor em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo - FEUSP (2001). É articulista e colunista de vários sites: a) Nacionais: Jus navigandi; Jus vigilantibus; b) Internacionais: Directorio del Estado / Gobierno Electrónico - Espanha: www.gobiernoelectronico.org e também do site Alfa-Redi: www.alfa-redi.org. É doutorando em Ciências Sociais pela UNESP/Marília (2006-), também foi professor colaborador deste mesmo programa de Pós-graduação em Ciências Sociais (2005-2006) e, em 2008, é professor substituto na UNESP, campus de Marília.