SOCIOLOGIA DA/NA SALA DE AULA REAL/VIRTUAL

O texto é mais um relato de experiência em orientação virtual, porém, dessa vez, restringiu-se a este plano, sem outra forma de mediação ou contato presencial — com exceção da aula a que se refere a candidata, em que nos vimos e nos falamos por alguns poucos minutos. Trata-se, em resumo, da tentativa de elaboração de um pré-projeto de pesquisa a ser apresentado em Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais. O tema, genericamente, versava sobre interfaces, Blogs, felicidade. Enfim, passemos aos diálogos:
1º Contato:
----- Original Message -----
From: Monalisa
To: [email protected]
Sent: Wednesday, January 07, 2009 12:36 AM
Subject: marília/ giovanni

Caro Vinício,
meu nome é Monalisa, assisti a uma aula do professor Giovanni, no mestrado, junto com o senhor, se lembra? Tenho um projeto que reúne blogs e felicidade.
Bom, na ocasião me passou seu e-mail para que me ajudasse no meu tema, afinal, o senhor sabe muita coisa sobre.
Pode me ajudar? Indicações de leituras, sites, tudo...será bem-vindo!
Muito obrigada,
feliz ano novo.
Abraço,
Monalisa.
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Oi, td bem?
Lembro-me de vc sim, acho que seu projeto é bem interessante. Só que vamos ter que pensar juntos - vamos falando e vou tentando precisar ou localizar melhor o que possa te ajudar.
Em todo caso, já te passo uma leitura de fundo, obrigatória para quem vê essa temática - O direito à preguiça, de P. Lafargue (genro do velho Marx). E volte mais ao tempo, veja em Epicuro (sobre quem Marx fez um doutorado "meio" enviesado) a matriz do debate sobre a felicidade. Há uma "Carta sobre a Felicidade", da Editora da UNESP. Se não encontrar, mando digitalizado para vc - avise.
Outra sugestão que te daria é abrir um blog de estilo acadêmico - vc apresenta brevemente seu objeto e depois convida as pessoas a se manifestarem sobre o tema. Fiz isso no doutorado e me serviu de base para tudo. (Está em anexo, se quiser ver - talvez te ajude ler a tese para encontrar alguma pista).
Outra coisa que pode pesquisar e depois fazer análise de discurso, são os perfis do Orkut, em que alguns descrevem seus “dias felizes”, como se fossem diários. Lembro-me de ter visto algo assim na TV.
Isso é o começo para ter uma base "real" do que está tratando - para não dizerem que inventou o tema. Procure definir bem o que é virtual, para não cair na armadilha do "contrário do real" - comum em críticas marxistas e pós-modernas (Baudrillard, por exemplo). Leia e faça um bom fichamento do "O que é virtual" do P. Lévy.
Por outro lado, tb precisa ver que nos blogs, como na rede toda, há muita ilusão. Mas, o que é ilusão? Poderá alguém viver desiludido da vida?
Também pode tentar uma aproximação com utopia (dos mais românticos, como Bacon e a sua "Nova Atlântida", T. Morus e "Utopos", até o próprio Marx – “o jovem Marx”). Mas, sempre cuidado com as "pontes" para não se perder.
Neste caso, os blogs podem novamente ser comparados aos diários, pois são de fato. E muitos diários foram publicados, só que na maioria com descrição de angústia. Mas, quem sabe vc consegue um gancho aqui com Carta ao Pai, de Kafka. É um clássico, não custa ler - se não servir ao tema, serve a vc como pessoa.
A noção de que a felicidade é trânsfuga tb está em Vinícius de Moraes, veja se encontra um porto ali. Sempre é boa leitura.
Faça uma boa decupagem do filme Matrix (só o primeiro). Ali o despertar para a vida, ao invés de trazer satisfação, descortinamento da ilusão ou das ideologias, traz a perda da felicidade. Faça uma decupagem do filme - sabe o que é? Se for o caso, podemos ver juntos e te indico, mais ou menos, como uso desse recurso. Em seguida, leia a "Pílula Vermelha".
Também me lembro do romance que deu origem ao filme, "Neuromancer", e aí vc tem um misto de tudo isso. Contudo, é denso, pesado, leia nas férias, por último, porque é bastante perturbador. Digo por experiência própria.
Por tudo isso, não podemos esquecer-nos da "perda da aura", de Benjamin...
Vamos trocando, ok?
Diga o que achou da primeira conversa.
Abraços e ótimo 2009.
Vinício
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Nossa! Que bom que te mandei um e-mail!
Estava em dúvida quanto a isso, pensando...será que ele não vai achar muita folga? Ufa, enganada estava...que bom!
Bom, vou ler as primeiras indicações e Neuromancer. Nem sabia que existiam. Muito
Obrigada!
Kafka, Vinícius de M. já li...tinha pensado talvez num link com o Meditações do subterrâneo de Dostoiévski ou o No caminho de Swan de Proust, o que acha?
Não sei, nem tenho idéia de como se faz uma decupagem...rs. Sobre fazer um blog, já havia pensado nisso, estou fazendo...mas cai na questão de como não direcionar as pessoas, daí parei o trabalho. Achei a carta sobre a felicidade: são só 4 pgs mesmo?
Sobre Lévy, já li, obrigatório mesmo né...e também Castells (alguns). Li Y. Benkley que está na moda... E tinha pensado no orkut, mas obtive indicações de ficar só nos blogs (que já são muitos!) por melhor delimitação...sei lá.
Vou pesquisar estes livros, muito, muito obrigada pelas indicações! Eu adorei!
Neste momento, me sinto feliz! RS
Abraço,
Monalisa.
PS: Se tiver o interesse, e tempo disponível, de ler meu projeto, te envio.Mas já agradeço muito a ajuda.
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Olá, que bom que pude te ajudar e que está feliz. Também fiquei feliz, por isso!!! Os e-mail também funcionam, mais ou menos, como os blogs, pois as pessoas relatam seus humores e estados de espírito, mesmo não querendo (veja o seu no começo e no fim...rs.).
Aconselho a deixar Neuromancer para depois, bem depois, inclusive depois do filme.
Sinceramente, não sei se há pesquisa que não dirija para as respostas - aliás, a primeira indicação de que a objetividade é relativa (mesmo que necessária, para não virar panfletagem) é que: "as perguntas carregam as respostas". E Marx tb diria que "a sociedade não coloca problemas que não possa resolver" (mas quanto a isto, hoje, tenho inúmeras dúvidas).
Como falei antes, os links com a literatura podem ser muito úteis a você, agora é ter cuidado para não se enredar no novelo e ficar sem saída: a rede e as subjetividades são labirintos ... não é? Mas, quem de nós é totalmente resolvido e não vive com seus "esqueletos em armários"? Neste sentido, Kafka pode te ajudar a entender as sombras que encontrará nas mensagens dos blogs.
Sobre a decupagem do filme Matrix, podemos assistir juntos e ver o que fazer. Mas, antes disso, seria bom que assistisse sozinha duas vezes (ao menos): uma, como simples espectadora; a outra, já anotando as questões que lhe surgirem como as mais importantes.
Para ter uma idéia, para uma decupagem - que seria um artigo -, assisti Blade Runner oito vezes, todas as edições (quatro). Porém, penso que vc não precisa de tanto.
A edição que tenho de Epicuro, da UNESP tem 51 páginas. Mas, é de bolso.
Realmente pode ficar só nos blogs, mas não custa dar uma sapeada no Orkut, especialmente quando não estiver fazendo nada (ou sem vontade de fazer algo mais conexo e sério). Se achar um blog-perfil, tipo depoimento, recolha um pouco de material, colecione em uma pasta avulsa no PC e depois vá analisando, recortando, dando novas conexões - tenha cuidado em não revelar os nomes verdadeiros.
Você poderá encontrar alguém digamos sintomático e, com esta pessoa em especial, poderá trocar mensagens, e-mails ou MSN (gravando). Apenas use como "fonte", ou seja, esconda o nome ou apresente os apelidos (como fazia Fernando Pessoa). Talvez ela escolha ou já tenha um. Na minha tese, vc verá, fiz isto com senadores, outros políticos e cientistas das comunicações - inclusive, ou especialmente, um espanhol.
O pessoal da telemática vc já conhece, então, fica mais fácil.
Por uma questão ética, se tiver orientador, avise e/ou mostre nossas conversas, para que não interfira demasiadamente em seara alheia, ok?
Abraços e mantenha contato.
Vinício
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Em seguida, enviei duas citações, sem comentários, mais a título de reflexão, mas que tinham algo que ver com a discussão que permeava o contexto/conteúdo do projeto. A primeira do grande filósofo político italiano do século XX:
Wittgenstein escreveu que a tarefa da filosofia é ensinar a mosca a sair da garrafa [...] É a situação em que a via de saída existe (trata-se evidentemente de uma garrafa não tampada); além disso, fora da garrafa está alguém, um espectador, o filósofo, que vê claramente onde está [...] O peixe na rede também se debate para sair [...] ele crê que exista uma via de saída, e a via de saída não existe. Quando a rede for aberta (não por ele, a saída não será uma libertação, isto é, um princípio, mas a morte, ou seja, o fim) [...] Talvez a condição humana possa ser globalmente representada de maneira mais apropriada com uma terceira imagem: a via de saída existe, mas não há nenhum espectador de fora que conheça preventivamente o percurso. Estamos todos dentro da garrafa. Sabemos que a via de saída existe, mas não sabendo exatamente onde está, procedemos por tentativas, por sucessivas aproximações [...] ensina a coordenar os esforços, a não mergulhar de cabeça na ação, e ao mesmo tempo a não permanecer na inatividade, a fazer escolhas racionais, a propor-se, a título de hipóteses, metas intermediárias, até mesmo a corrigir o itinerário durante o percurso, a adaptar os meios aos fins, a reconhecer as vias erradas e a abandoná-las uma vez reconhecidas [...] quem entra num labirinto sabe que existe uma via de saída, mas não sabe qual das muitas vias que se abrem às vezes diante de si e levam a ela. Ele avança tateando. Quando encontra uma via bloqueada volta atrás e toma outra. Às vezes a via que parece mais fácil não é a mais correta; outras vezes, quando acredita estar mais próximo da meta, está mais longe, e basta um passo em falso para voltar ao ponto de partida. É preciso ter muita paciência, nunca deixar-se iludir pelas aparências, dar como se diz, um passo de cada vez, e diante das encruzilhadas, quando não se está em condições de calcular a razão da escolha, mas se é forçada a arriscar, estar sempre pronto a voltar atrás. A característica da situação do labirinto é que nenhuma saída está absolutamente assegurada e, quando o caminho está certo, isto é, quando leva a uma saída, nunca é a saída final. A única coisa que o homem do labirinto aprendeu pela experiência (desde que tenha chegado à maturidade mental de aprender a lição da experiência) é que existem caminhos sem saída: a única lição do labirinto é a lição do caminho bloqueado (Bobbio, 2003, pp. 49-51).

E outra de Dussel, trazendo um resumo da idéia de desbloqueio, desacordo que deve haver na base do diálogo – como verdadeiro caminho da comunicação e do conhecimento, isto é, como metáfora (no sentido grego de transporte ou caminho):
Estaria havendo uma certa cegueira para descobrir os possíveis elementos negativos, ou aqueles pressupostos que, como sabemos, sempre permitem a irrupção do desacordo (do não-acordo, do "desacordo", de Lyotard). Como ponto de partida gerador de toda uma nova argumentação. Em outras palavras, na racionalidade - até mesmo na de nível transcendental ou universal - seria indispensável incluir - como elemento de sua definição e como razão-de-ser crítica - a virtual "exterioridade" (em grau diverso) de cada pessoa, de cada participante dessa comunidade, como sendo um outro em potência: o Outro, não "um outro" diverso da sua razão, mas ao contrário, como sendo a "razão" do Outro; a outra razão que "interpela" e a partir da qual um princípio ou enunciado sujeito a ser desvirtuado pode chegar a ser retificado (Dussel, 1995, p. 61).

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Olá Vinício!
Então, avisei meu orientador sim ele está de comum acordo...rs. Acho que o senhor conhece, Jorge M? É amigo do Giovanni...
Bom, ele também me indica muitas coisas, mas a maioria sobre blogs, internet, o que acho muito bom, mas é sempre melhor acrescentar e acrescentar!
Estou pensando sobre o que falou no e-mail abaixo, acho que concordo...não sei ainda, é preciso reflexão. Essa coisa de fazer um blog de pesquisa é complicada não? rs...mas acho que acabarei fazendo, e tentarei corrigir os erros ao longo da pesquisa.
Não achei a versão de 50 p., mas estou procurando...calma.
Ok, Neuromancer pra depois!
E sobre a pasta de blogs avulsa no pc, já tenho....ah .....! rsrs (desculpa..)
É isso!
Um abraço.
Monalisa.
PS:. As citações que mandou se encaixam em muitas coisas...muito boas! Mando em anexo o projeto que passou na unicamp, agora já é outro, claro. Estou arrumando o novo pra seleção atual em Marília, mas ambos são muito parecidos. Se quiser dar uma olhada, e criticar bastante ...rs
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Olá, bom dia. O Jorge pode te ajudar sim. Mas, se passou em Campinas, por que não faz lá, não seria melhor!?
O blog para pesquisa, agora, pode ser apenas para vc testar - faça um e veja se consegue o que quer. Se der certo, ótimo, senão, apaga tudo.
Como o título do livro já sugere, Neuro, pode deixar mais neura para depois...rs.
Mais à frente também te contarei o que estou fazendo, porque seus e-mails para mim são parte desse trabalho. Mas, te conto depois. (referia-me exatamente a este texto).
Algumas questões de ordem objetiva:
- organize um glossário para recorrer sempre que preciso, de maneira rápida – ao final, do trabalho vc anexa à dissertação. Comece com os mais usuais e depois passe aos antípodas, ex.: Rede; Internet; Blog; Orkut etc.
- Outros mais incomuns: Tao = caminho (ver Capra e seu “Ponto de Mutação” e “Teia da Vida”); educare (latim) = revelação; Metáfora: transporte, em grego (O melhor dicionário que conheço para alguns termos “clássicos” é: MORA, J. Ferrater. Dicionário de Filosofia. Tomos I a IV. São Paulo : Loyola, 2001.).

(Pode usar o meu se precisar, mas teria de pesquisar aqui: livros não saem de casa (é outra dica).
Agora os antípodas: real X virtual; utopia X distopia; escrita X escritura; analógico X digital etc.

Abra uma pasta só para a dissertação e um arquivo para cada capítulo. Tenha os textos da dissertação ao alcance dos olhos e das mãos, toda vez que olhar, irá se lembrar de algo, aí é só anotar/digitar.
Veja este artigo que montei para meus alunos da pós:
http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=7692
Vou ver seu projeto. Abraços.
Vinício
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“Antes, tornar-se “irracional” em virtude do fato de que a economia se torna independente a tal ponto que – apesar de toda racionalidade externa – não mais existe nenhuma relação existente com as necessidades do homem como tal. O predomínio e a autonomia das condições que se transformaram num fato independente da vida é o que é – mais precisamente irracional – sob a pressuposição de que o “racional”representa a independência e a autonomia do homem – quer este determine sua humanidade no horizonte de sua sociabilidade, como em Marx, quer na individualidade de sua auto-responsabilidade, como em Weber. O ponto de vista de Weber para a interpretação da humanidade do homem (através da qual aquela irracionalidade é medida) não é a felicidade terrena. Isso resulta indiretamente do fato dele tentar repetidamente mostrar que o ganhar dinheiro, por exemplo, puramente como um fim em si mesmo, é completamente irracional quando considerado do ponto de vista da “felicidade” e do “lucro” do indivíduo, mas em lugar algum ele declara que “essa inversão do que poderíamos chamar a relação natural, tão irracional de um ponto de vista simplista”, é também completamente sem sentido na sua opinião! O “nós” aqui se refere a um “alguém” impessoal, visto que é bastante óbvio que as próprias referências de Weber repousam exatamente sobre aqueles “puritanos” para quem o trabalho de suas vocações e “negócios”, com sua atividade incessante, tornou-se “indispensável à vida”. Isso, diz Weber, é de fato a única motivação conveniente e, ao mesmo tempo, ela expressa um modo de vida tão irracional “percebido através do ponto de vista da felicidade pessoal”. (LOEWITH, 1977, p. 131/2).

Acho que veio a calhar com minha pesquisa...rs.
Li dois artigos seus, acho que também vão me ajudar...logo te mostro o que to mudando nele, pode?
Não achei a carta de Epicuro, você (melhor assim guri? rsrs) poderia me passar sua versão digital?
Muito Obrigada!
[]
Monalisa.
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Oi. Meus artigos foram publicados? Se foram, vc pode fazer uma interpretação (à vontade), mas modificá-los não seria legal. Mas, use todos que achar pertinentes, ok?
Outra coisa: estou fazendo um trabalho, com o trabalho que vc me dá...rs, então, procure responder sempre o mesmo e-mail. Depois te mostro.
Também diga ao Jorge para que eu seja co-orientador da sua dissertação - há vários casos aqui na UNESP.
Anote o fone para uma conversa: ...
Se estiver em Marília, poderíamos tomar um café e falar sobre seu projeto. Me avise, aí já te levo o xerox do Epicuro.

Quanto ao texto:
Acho boa a idéia geral dessa citação – lembre-se daquela passagem do Marx sobre o verdadeiro "reino da felicidade".
Porém, lembrei de outras coisas - a Constituição Americana fala em direito à felicidade (mas não garante a vida, por isso há pena de morte). E que felicidade pensavam os seus fundadores?
Aqui faziam uma distinção clara entre Nação e Pátria e que, este foi um achado, resultaria na idéia da felicidade: Pátria, por sua vez vem de pater (pais e filhos)
A origem desse conceito situa-se no âmbito da família, como célula original, de onde seriam derivadas as acepções de sociedade e de Estado. Sendo a pátria um poder tão antigo quanto a sociedade, ela, assim, remete ao sentimento de público, fundador da soberania: uma felicidade que só vigora no coletivo, na partilha de virtudes, típica da vontade política que clama por democracia: “Amor das leis e da felicidade do Estado, amor singularmente reservado às democracias; é uma virtude política pela qual se renuncia a si mesmo preferindo ao interesse próprio o interesse público; é um sentimento e não uma continuação do conhecimento; o último dos homens do Estado pode ter tal sentimento, tanto como o chefe da república” (Boto, 1996, p. 43).

A Tirania exclui a Pátria
Nota 33: “As suspeitas, os remorsos, os terrores cercam-no por todos os lados; não conhece ninguém digno de sua confiança, apenas têm cúmplices, e nenhum amigo. Os povos, exaustos, degradados, envilecidos pelo tirano, são insensíveis aos seus insucessos, e as leis que violou não o podem auxiliar: em vão reclama a pátria. Haverá alguma onde um tirano reina?” (Boto, 1996, p. 43).

É claro que isto está marcado pelo pensamento liberal — então, Locke tb tratará disso:

Os fundamentos da propriedade como direito natural
“Podemos dizer que o trabalho de seu corpo e a obra produzida por suas mãos são propriedade sua. Sempre que ele tira um objeto do estado em que a natureza o colocou e deixou, mistura nisso o seu trabalho e a isso acrescenta algo que lhe pertence, por isso o tornando sua propriedade [...] Ao remover este objeto do estado comum em que a natureza o colocou, através do seu trabalho adiciona-lhe algo que excluiu o direito comum dos outros homens [...] Sendo este trabalho uma propriedade inquestionável do trabalhador, nenhum homem, exceto ele, pode ter o direito ao que o trabalho lhe acrescentou, pelo menos quando o que resta é suficiente aos outros, em quantidade e em qualidade” (Locke, 1994, p. 98).

O que é liberdade?
“A liberdade natural do homem deve estar livre de qualquer poder superior na terra e não depender da vontade ou da autoridade legislativa do homem, desconhecendo outra regra além da lei da natureza. A liberdade do homem na sociedade não deve estar edificada sob qualquer poder legislativo exceto aquele estabelecido por consentimento na comunidade civil; nem sob o domínio de qualquer vontade ou constrangido por qualquer lei, salvo o que o legislativo decretar, de acordo com a confiança nele depositada” (Locke, 1984 – verso da capa do livro).

Liberdade e consciência
“Assim, a liberdade de um homem e sua faculdade de agir segundo sua própria vontade estão fundamentadas no fato dele possuir uma razão, capaz de instruí-lo naquela lei pela qual ele vai ser regido, e fazer com que saiba a que distância ele está da liberdade de sua própria vontade” (Locke, 1994, p. 119).

A mesma visão de Pierre Clastres
“Vemos, assim, que os reis dos índios da América – que é o modelo das primeiras épocas na Ásia e na Europa, quando havia muito poucos habitantes para o território e a ausência de pessoas e de dinheiro não davam aos homens a tentação de ampliar sua posse de terra ou de lutar por uma extensão maior – são pouco mais que generais de seus exércitos; e embora tenham o comando absoluto na guerra, no interior de seu país e em tempo de paz exercem uma dominação muito pequena e têm uma soberania muito moderada; as decisões sobre paz e guerra em geral cabem ao povo ou a um conselho. Somente a guerra, que não admite pluralidade de dirigentes, devolve naturalmente o comando à autoridade única do rei” (Locke, 1994, p. 146).

A tese clássica do contratualismo – o Estado promove o bem
“...por um lado não se forçava a prerrogativa para oprimir o povo, por outro, conseqüentemente, não se contestava qualquer privilégio seja para diminuir ou para restringir o poder do magistrado, e portanto nenhuma disputa havia entre os chefes e o povo sobre os governantes ou o governo. Nas épocas seguintes, a ambição e o luxo iriam manter e aumentar o poder, sem executar a tarefa que lhe havia sido destinada, e, auxiliados pela lisonja, esses vícios ensinaram os príncipes a ter interesses distintos e separados daqueles de seus povos; e os homens acharam necessário examinar mais cuidadosamente a origem e os direitos do governo e descobrir maneiras de conter as exorbitâncias e evitar os abusos daquele poder, que tendo confiado às mãos de outro apenas pensando em seu próprio interesse, perceberam que era utilizado para lhes causar mal” (Locke, 1994, p. 149).

Consentimento
“Há uma distinção comum entre consentimento expresso e consentimento tácito que nos interessa no momento. Ninguém duvida que o consentimento expresso manifestado por qualquer homem ao entrar em qualquer sociedade faz dele um membro perfeito daquela sociedade, um súdito daquele governo. A dificuldade é saber em que caso é preciso admitir a existência de um consentimento tácito e até que ponto obriga, isto é, em que medida se pode considerar que um indivíduo consentiu em um governo qualquer e assim será a ele submetido, se ele não prestou qualquer declaração nesse sentido” (Locke, 1994, p. 153).
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VINÍCIO CARRILHO MARTINEZ
Tem graduação em Direito (1988) e em Ciências Sociais: UNESP/Marília (1989); mestrado em Educação pela UNESP/Marília (1996); doutorado em Educação pela FEUSP (2001); mestrado em direito (2005); e é doutorando em Ciências Sociais, UNESP/Marília (2006 - ).

Bibliografia
BOBBIO, Norberto. O problema da guerra e as vias da paz. São Paulo : Editora UNESP, 2003.
BOTO, Carlota. A escola do homem novo: entre o Iluminismo e a Revolução Francesa. São Paulo : Editora da UNESP, 1996.
DUSSEL, Enrique. Filosofia da libertação: crítica è ideologia da exclusão. 2ª Ed. São Paulo : Papirus, 1995.
LOCKE, John. Segundo Tratado sobre o governo civil e outros escritos. Petrópolis-RJ : Vozes, 1994, 318 páginas.
MORIN, E. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo : Cortez; Brasília, DF : UNESCO, 2000.
MORUS, Thomas. A utopia. (2ª edição). Brasília : Editora Universidade de Brasília, 1992.