SOCIOLOGIA DA ROBÓTICA E DA CIÊNCIA

A luta científica é
uma luta armada
Bourdieu

MODERNIDADE TARDIA: A MORADA DO
EU, ROBÔ?

O texto tentará trazer, de comum acordo com o leitor, um paralelo entre nossos tempos difíceis, apelidado de Modernidade Tardia, e algumas perspectivas ontológicas — história da tecnologia – desencantamento do mundo (Weber, 1979), metafóricas — o livro base aqui utilizado de Asimov — e/ou críticas para com a intelligentsia (Bourdieu, 2004). São esses tempos que denominamos a morada do Eu, Robô, isto é, de nós mesmos.
O livro Eu, Robô, de Isaac Asimov, escrito em 1950, é um clássico contemporâneo da ficção que aos poucos se vê plasmado como realidade. Podemos facilmente ler o romance, entrecortados de capítulos que dão nexo e seqüência ao desenrolar de suas ramas, como se fosse uma verdadeira História da Robótica — incluindo-se aí as três célebres leis da cibernética — ou como Sociologia da Ciência e da Tecnologia, sobretudo nos anos iniciais do século XXI. Neste sentido, como clássico do Século XX, na esteira da Sociologia da Ciência de Pierre Bourdieu (2004), podemos destacar elementos mais pontuais, quer sejam políticos quer sejam sociais, como por exemplo:
• p. 159 – A desesperança do sitiado: o horror irreal do pesadelo da vida social, em que se tornou o cotidiano;
• p. 172 – A decretação do Estado de Emergência como escape ao Golpe de Estado, expediente tão em voga no curto século XXI (em 2009: Quênia, Tailândia).

Por outro lado, destaca-se a armadilha em que se enredou o chamado Estado Cientificista e a negação de direitos básicos. Neste caso, vemos confluir narrativas tradicionais do Estado apimentadas com a força das Metanarrativas do Capital: o capitalismo revela-se capaz de um aprendizado inesperado, assustador, como vemos pelo Google, em que o usuário é o trabalhador que alimenta os “buscadores”, com sua própria ação de pesquisar; empresas como Benetton e sua escola/núcleo de criatividade conquistando talentos pelo mundo todo. A Ciência que não passa de metáforas do (novíssimo) Estado Penal (WACQUANT, 2003). O mesmo capital, outrora desbravador de mercados, agora por meio do aprender a aprender, consegue conjugar o panótico do Estado Hobbesiano com as redes/teias do rizoma presente nas tecnologias mais refinadas da telemática: Foucault (1994 & 1997) mais Deleuze (1995); antigo e moderno diante da mesma Modernidade Tardia.
Seria representação ou realidade de um Evolucionismo Científico que, sem moral, direito ou ética que o acompanhe, sucumbe em mera reprodução do Darwinismo Social — este já muito bem conhecido. O caso histórico mais sintomático, numa leitura muita realista, mas bastante crítica, destaca que Ausschwitz decorre de um antigo mito; o de que o Estado Prussiano representava a síntese da realização plena da racionalidade.
A sistemática do curso seguirá uma ordem relativamente simples, afinal, trata-se de uma síntese do próprio livro e não de um artigo ou monografia. Traremos recortes das falas das personagens, seguidos de comentários ou outras indicações que julgarmos relevantes. O leitor, no entanto, fica convidado a ler o livro como um todo e a tecer suas próprias considerações. Ao final, ainda há uma referência à obra de Bourdieu aqui citada, bem como uma bibliográfica mais extensa e diversificada quanto aos temas gerais aqui aventados. Passemos à resenha.

SÍNTESE OU RESENHA

Hadaly, a Eva sintética, com seu esqueleto de metal, coberto por pela e carne artificiais, foi uma das precursoras dos robôs de Asimov. Ela influenciou o cineasta alemão Fritz Lang na criação de Maria, a andróide do filme Metropolis de 1926. [...] em 1920, a palavra robô tinha sido usada pelo teatrólogo checo Karel Capek na peça R.U.R. Robô em checo quer dizer “trabalho forçado [...]
• Primeira Lei: um robô não pode ferir um ser humano, ou, através de inação, permitir que um ser humano seja ferido.
• Segunda Lei: um robô deve obedecer às ordens dadas por seres humanos exceto se tais ordens entrarem em conflito com a Primeira Lei.
• Terceira Lei: um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Lei (CALIFE, in ASIMOV, 2004, p. 09 – grifos nossos).

[Como ocorre com o psicopata: não há moral, nem ética]

Elas formam a programação básica dos robôs e qualquer tentativa de quebrá-las provoca o colapso total do cérebro robótico [...] o épico espacial Planeta Proibido, de 1958, inspirou [...] Jornada nas Estrelas e Perdidos no Espaço. Perdidos no Espaço estreou na televisão em 1965, na mesma época em que o cineasta Stanley Kubrick produziu o clássico 2001: uma odisséia no espaço [...] o escritor Arthur C. Clarke, amigo de Asimov, queria equipar a nave da Discovery com um Robô chamado Hugo, obediente às três Leis da Robótica [...] Clarke ficou entusiasmado com minha sugestão e escreveu 2010: uma odisséia no espaço 2, romance que virou filme, exorcizando Frankenstein e reprogramando HAL com as três leis do doutor Asimov [...] Outro exemplo de um artista influenciado pelo livro Eu, robô é George Lucas. Seus robôs R2D2 e C3PO, heróis da saga de Guerra nas Estrelas são claramente moldados de acordo com a fórmula asimoviana [...] Um dos primeiro robôs a ser comercializado é um humanóide de 1,20m criado pela empresa japonesa Honda e que recebeu, com muita justiça, o nome de Asimo [...] Ele morreu em abril de 1992, com 72 anos, deixando uma obra de 470 volumes sobre assuntos que vão de ciência a Shakespeare (CALIFE, in ASIMOV, 2004, pp. 10-12).

A HISTÓRIA DA ROBÓTICA POR ASIMOV

Com vinte anos, Susan Calvin [...] Era moça fria, comum, sem atrativos, que protegia contra um mundo que a desagradava através de uma expressão gélida e um intelecto hipertrofiado (ASIMOV, 2004, p. 18)

Em 2008, ela obteve o seu doutorado e entrou para a U.S. Robôs como “robôpsicóloga", tornando-se a primeira a praticar a nova ciência (p. 18).

Precisava de algo mais pra os meus artigos na Imprensa Interplanetária...
- E você quer o lado humano? – Ela se adiantou sem sorrir para mim. Acho que nunca sorri. Mas seu olhar era penetrante embora não fosse cruel [...].
- O lado humano de robôs? Isso é uma contradição.
- Não doutora. O seu lado humano.
[...] Certamente já lhe disseram que não sou humana.
Realmente tinham, mas não valia a pena confirmar.
[...] fábricas da U.S. Robôs [...] Era achatada como uma fotografia aérea (p. 19).

Voltou para sua mesa e se sentou. Não precisava de uma expressão no rosto para parecer triste (p. 20).
[A vida é triste? A humanidade tem companhia: os robôs]

Houve uma época em que a humanidade enfrentava o universo sozinha e sem um amigo. Agora tem criatura para ajudá-la, criaturas mais fortes do que o homem, mais fiéis, mais úteis, e absolutamente devotadas aos seus senhores. A humanidade não está mais sozinha. Já pensou desse modo? (ASIMOV, 2004, p. 20).

[Toyotismo Cibernético]

Os sindicatos, naturalmente, se opunham a que os robôs competissem com os trabalhadores humanos, e vários segmentos religiosos também se opunham com base em suas superstições. Tudo muito ridículo e muito inútil (ASIMOV, 2004, p. 21).

Ouvi falar dele depois, e quando nos chamavam de blasfemadores e criadores de demônios, eu sempre pensava nele. Robbie era um robô não vocal. Ele não podia falar. Foi feito e vendido em 1996. Nos dias antes da especialização extrema, assim foi vendido para servir de babá... (ASIMOV, 2004, p. 21).

[É a máquina que tira o lugar do homem ou ele mesmo com seu projeto secular de maquinaria?]

Espere Robbie, isso não vale! Você prometeu que não ia correr até que eu achasse. [...] Então, a três metros do seu objetivo, o passo de Robbie diminuiu subitamente para uma marcha bem lenta e Glória, numa corrida final, o ultrapassou ofegante para tocar a casca da árvore. Alegre, ela voltou para o fiel Robbie e com a maior ingratidão o recompensou por seu sacrifício zombando cruelmente de sua falta de velocidade (ASIMOV, 2004, p. 24).

- Você olhou! – Ela disse, com muita injustiça. – Além disso eu estou cansada de brincar de esconde-esconde. Quero um passeio. Mas Robbie estava magoado com a acusação injusta e por isso sentou-se com cuidado, sacudindo sua cabeça lentamente de um lado para o outro (ASIMOV, 2004, p. 25).

Robbie não se dava por vencido facilmente.
- Por favor, Robbie, me carregue.
Glória percebeu que era necessário jogar seu trunfo.
- Se não me carregar eu não te conto mais histórias, ponto final.
Robbie cedeu imediatamente e sem condições ante tamanho ultimato.
A pele de metal de Robbie era mantida a uma temperatura constante de vinte e dois graus centígrados [...] o que a tornava confortável e ótima ao tato. O som bonito de seus calcanhares, batendo ritmicamente, era encantador (ASIMOV, 2004, p. 26).

Robbie esperou até a menina recuperar o fôlego e então puxou delicadamente uma mecha de seu cabelo.
- Você quer alguma coisa? – ela perguntou, com olhos arregalados...
Ele puxou o cabelo com mais força.
- Ah, eu sei, você quer uma história.
Robbie assentiu rapidamente.
- Cinderela...
- Está bem – Glória se aprumou, reviu os detalhes da história em sua mente (junto com seus próprios acréscimos, e ela tinha feito vários acréscimos), depois começou – Está pronto? (ASIMOV, 2004, p. 27-28).

O pai de Glória raramente estava em casa [...] quando estava, ele demonstrava ser uma pessoa genial e compreensiva. Já a mãe de Glória era uma fonte de inquietação pra o robô e ele sempre se sentia compelido a evitá-la.
- Eu chamei até ficar rouca, Glória – ela disse.
- Eu estava com Robbie, esqueci a hora do jantar (ASIMOV, 2004, p. 28).
- Bem, é lamentável que Robbie também tenha esquecido.
- Pode ir agora, Robbie.
E acrescentou cruelmente. – E não volte até eu chamar.
- Espere mamãe, precisa deixar ele ficar.
- Glória se não parar com isso vai ficar sem ver o Robbie durante uma semana.
O Robô saiu com um passo desolado e Glória sufocou um soluço (ASIMOV, 2004, p. 29).

- Você sabe o que é, George. É a Glória e aquela máquina terrível.
- Que máquina terrível?
Ele não larga dela em momento algum.
- E por que deveria? Ele não deve sair de perto dela. E me custou meio ano de trabalho. Mas valeu o que paguei, o danado é mais esperto do que metade da equipe do meu escritório (ASIMOV, 2004, p. 30).

- Agora me escute, George. Eu não quero confiar minha filha a uma máquina. E não me importa o quão esperta seja. Ela não tem alma e ninguém sabe o que pode estar pensando.
- E quando foi que você chegou a essa conclusão?
- Os vizinhos...
- Agora escute. Um robô é muito mais confiável do que uma babá humana. Robbie é construído para um único propósito: ser o companheiro de uma criança pequena. Toda a sua “mentalidade” foi criada com esse propósito. [...] Não se pode dizer a mesma coisa de seres humanos.
Tivemos uma longa conversa a respeito da Primeira Lei da Robótica. Você sabe que é impossível para um robô ferir um ser humano. Bem antes de qualquer defeito ser capaz de alterar a Primeira Lei, o robô ficaria totalmente inoperante. Isso é uma impossibilidade matemática (ASIMOV, 2004, p. 31-32).

Não, não há mais chances de alguma coisa dar errado no Robbie do que você e eu ficarmos malucos subitamente. Na verdade, há muito mais chances de isso acontecer.
- É esse o problema, George! Ela não brinca com ninguém mais. Há dúzias de meninos e meninas com quem ela poderia fazer amizade, mas ela não quer.
Você quer que ela seja uma pessoa normal, não quer? Quer que ela torne parte da sociedade, não quer?
- Você está vendo fantasmas, Grace.
Eu já vi centenas de crianças que gostam mais de seu cachorro do que de seus pais (ASIMOV, 2004, p. 32).

A maioria das pessoas acha que Robbie é perigoso. As crianças são proibidas de chegar perto da nossa casa de noite.
- Bem as pessoas não são racionais com essas coisas.
Em Nova York eles acabaram de aprovar uma lei que proíbe os robôs saírem nas ruas entre o nascer do sol e o poente.
- A resposta é não. Nós vamos ficar com o Robbie!
George Weston era apenas um homem, pobre coitado. Sua mulher fez uso de todos os artifícios que um sexo mais escrupuloso e desajeitado já aprendeu, da argumentação à frivolidade e ao medo (ASIMOV, 2004, p. 33).

- Robbie, Robbie!
Então ela parou subitamente ao ver o belo cachorro collie que a olhava com olhos marrons muito sérios enquanto abanava o rabo na varanda.
- Oh, que cachorro legal! É para mim pai? (ASIMOV, 2004, p. 34).
Sua mãe veio se encontrar com eles.
-É sim, Glória. Não é lindo? Macio e peludo. E muito mansinho. Ele gosta de meninas.
- Eu quero que Robbie veja também...
- Ela parou incerta e franziu a testa. – Aposto como ele está no quarto, chateado comigo porque não o levei ao visivox.
- Mãe. Robbie não está em seu quarto. Onde ele está?
Senhora Weston
- Não fique triste, Glória. Acho que Robbie foi embora (ASIMOV, 2004, p. 35).

Eu quero que você encontre o Robbie. – Seus sentimentos tornaram-se muito fortes para palavras e a menina começou um choro agudo.
A senhora Weston...
- Por que está chorando, Glória? Robbie era só uma máquina, uma máquina velha e feia. Ele não estava vivo realmente.
-Ele não era uma máquina! – gritou Glória com convicção.
- Ele era uma pessoa com eu e você e ele era meu amigo.
- Deixa ela chorar – ela disse ao marido. –A tristeza de uma criança nunca dura muito tempo.
Certamente que Glória parou de chorar, mas também deixou de sorrir e o passar dos dias foi tornando-a cada vez mais silenciosa e melancólica (ASIMOV, 2004, p. 36).

- O que foi agora, Grace?
- Essa menina, George. Hoje eu tive que devolver o cachorro.
Weston abaixou o jornal...
- Talvez... Talvez devêssemos trazer Robbie de volta.
- Não! – Ela respondeu decidida.
- Um ano assim e eu vou ficar grisalho prematuramente.
- Você é uma grande ajuda, George – foi a gélida resposta... – Imagine, uma criança deprimida com a perda de um robô.
- Vamos levá-la para Nova York (ASIMOV, 2004, p. 37).

- Eu sei por que estamos indo para a cidade, mamãe.
- Por um momento ela se calou, admirando a própria perspicácia e então riu. – Nós vamos para Nova York para poder achar o Robbie, não é? Com detetives.
Por ordem direta de sua esposa, George Weston cuidara para que seus negócios prosseguissem sem sua presença durante cerca de um mês. Assim ele ficaria livre para gastar o tempo no que ela classificara como “tirar Glória da beira da ruína” (ASIMOV, 2004, p. 40).

Eles visitaram o zoológico onde Glória pôde olhar, com um medo divertido, para um “leão vivo de verdade” (ela ficou desapontada ao ver que os tratadores o alimentavam com bifes de carne crua no lugar de seres humanos, como tinha esperado), e pediu com insistência para ver “a baleia” (ASIMOV, 2004, p. 41).

A senhora Weston fazia o possível para manter Glória afastada de todos os robôs.
Mas a questão finalmente chegou ao clímax no episódio do Museu da Ciência e Indústria.
O robô Falante era um tour de force, um engenho totalmente impraticável, possuindo apenas um valor publicitário (ASIMOV, 2004, p. 42).

E realmente não há utilidade para uma massa totalmente imóvel de fios e bobinas espalhada por vinte e cinco metros quadrados.
Naquele momento, outro ser humano era uma coisa desprezível para Glória [...] Por um momento hesitou, intimidada. Aquilo não se parecia com qualquer robô que tivesse visto.
- Por favor, senhor robô, o senhor é um robô falante? – Ela não tinha certeza, mas parecia-lhe que um robô que realmente falava tinha que ser tratado muito educadamente (ASIMOV, 2004, p. 43).

Glória olhou para ele aflita. [...] Não havia um rosto para se dirigir as palavras.
- Pode me ajudar, senhor robô?
- Eu... posso... ajudá-la.
- O senhor viu o Robbie?
- Quem... é Robbie?
- Ele é um robô, senhor robô.
- Um... robô...como eu?
A generalização radical que fora-lhe apresentada, ou seja, de que sua existência não era uma coisa particular, mas sim parte de um grupo geral, era demais para ele. Lealmente, ele tentou apreender o conceito e meia dúzia de bobinas queimaram (ASIMOV, 2004, p. 44).

(A moça de 15 anos saiu nesse ponto. Ela já tinha o suficiente para o seu trabalho sobre “Aspectos Práticos da Robótica”. O primeiro de muitos trabalhos que Susan Calvin escreveria sobre o assunto).
- O que está fazendo aqui, sua pestinha! – gritou a senhora Weston, a ansiedade transformando-se rapidamente em raiva.
O engenheiro de robôs entrou arrancando os cabelos e querendo sabem quem, na multidão que se aglomerava, tinha mexido com a máquina.
- E então, como se a lembrança de Robbie tivesse voltado, ela começou a chorar.
- Eu tive uma idéia Grace (ASIMOV, 2004, p. 45).

Todo o problema com a Glória é que ela pensa em Robbie como uma pessoa e não uma máquina. [...] É uma abordagem psicológica, se me entende.
- E como pensa em fazer isso?
- Simples. Aonde acha que eu fui ontem à noite? Eu convenci o Robertson da U.S. Robôs e Homens Mecânicos a nos levar para uma visita completa a sua fábrica, amanhã.
- Puxa, George, essa é uma boa idéia.
O peito dele inflou.
- As únicas que eu tenho – foi a resposta (ASIMOV, 2004, p. 46).

- Vocês não tem um setor da fábrica onde só se emprega o trabalho de robôs?
- Ah? Oh, sim! Sim, de fato! – De certo modo é um círculo vicioso, robôs criando mais robôs. É claro que não vamos fazer disso uma prática generalizada. Os sindicatos, por exemplo, nunca permitiriam. Mas podemos produzir alguns robôs usando o trabalho exclusivo de robôs, meramente como uma espécie de experiência cientifica.
- O que os sindicatos não percebem, e eu digo isso como um homem que sempre simpatizou com o movimento trabalhista de um modo geral, é que o advento dos robôs, embora envolvendo uma certa deslocação no início, irá inevitavelmente... (ASIMOV, 2004, p. 47).

- Aqui estamos! – ele disse, com orgulho na voz. – Somente robôs! Cinco homens agem como supervisores, mas nem mesmo ficam na sala. Em cinco anos, ou seja, desde que iniciamos este projeto, não aconteceu nem um único acidente.
Glória...Seus olhos se arregalaram de surpresa.
- Robbie! – O grito atravessou o ar e um dos robôs junto à mesa hesitou e deixou cair a ferramenta que estava segurando.
Espremendo-se através do balaústre, antes que seus pais pudessem detê-la, ela saltou para o piso, um metro abaixo, e correu para Robbie, os braços acenando, o cabelo voando.
Enquanto três adultos viam um enorme trator em direção dela (ASIMOV, 2004, p. 48).

Somente Robbie reagiu imediatamente e com precisão. Suas pernas de metal venceram o espaço entre ele e sua pequena senhora, que corria na direção oposta. Tudo aconteceu então de uma vez. Com um movimento rápido do braço Robbie agarrou Glória, sem reduzir nem um pouco a velocidade e, consequentemente, deixando-a sem fôlego. Weston, sem compreender o que estava acontecendo, sentiu, mais do que viu, Robbie passar por ele e parar.
Mas a expressão da senhora Weston mudara de alívio para suspeita.
- Você armou isso, não foi?
George Weston passou um lenço na testa molhada.
Mas sua mulher insistiu:
Você fez com que eles o colocassem aqui, deliberadamente, de modo que Glória pudesse encontrá-lo.
- Sim, eu fiz isso – disse Weston. – Mas Grace, como eu podia saber que esta reunião seria tão violenta? E Robbie salvou a vida dela [...] Não pode mandá-lo embora de novo (ASIMOV, 2004, p. 49).

[Só a inteligência pode merecer ou resolver o conflito de leis]

[...] quando Mike Donovan desceu pulando as escadas em direção a ele, [...] Powell [...] perguntou. – Quebrou uma unha?
- Ééé! – rosnou Donovan febrilmente.
Speedy não retornou.
Os olhos de Powell se arregalaram momentaneamente...
- Você o mandou buscar selênio?
- Sim.
- E há quanto tempo ele está lá fora?
- Faz cinco horas agora.
- Silêncio! [...] Aqui estavam eles, em Mercúrio, há exatamente doze horas – e já atolados até o pescoço no pior tipo de problema (ASIMOV, 2004, p.53).

Powell tocou cautelosamente uma brilhante superfície metálica. O ar de abandono que havia em tudo naquela sala – em toda a Estação para falar a verdade – era muito deprimente.
Rádio não funciona no lado iluminado de Mercúrio.
Foi esse um dos motivos do fracasso da Primeira Expedição.
- O que você conseguiu?
Eu o rastreei durante duas horas e plotei o resultado no mapa.
- A cruz vermelha é o lago de selênio (ASIMOV, 2004, p. 54).

- Eu mandei o Speedy para o mais próximo. Vinte e sete quilômetros de distância. Mas que diferença isso faz? – Havia tensão em sua voz.
- Nas duas horas que eu passei verificando, ele deu quatro voltas em torno do lago. Mas parece que ele vai continuar fazendo isso para sempre. Percebe a nossa situação?
A única coisa que podia salvá-los era o selênio. A única coisa que podia obter selênio era o Speedy. Se Speedy não voltasse não haveria selênio. Sem selênio nada de bancos de fotocélulas. Sem os bancos... bem, ser cozido lentamente é um dos modos mais desagradáveis de morrer (ASIMOV, 2004, p. 55).

- Nós seremos motivo de piadas em todo o Sistema Solar, [...] A grande equipe de Powell e Donovan é enviada para Mercúrio, para reabrir a Estação de Mineração [...] E nós arruinamos tudo no primeiro dia.
Foi um ato criminoso nos mandarem aqui com apenas um robô. E foi sua a idéia brilhante de que poderíamos arrumar os bancos de fotocélulas sozinhos.
- Agora você está sendo injusto. [...] Que diabos! Não podíamos esperar até a próxima conjunção.
[...] Você tem uma idéia Powell. Eu sei que tem ou não estaria tão calmo. Você não é mais herói do que eu sou. Desembuche!
- Não podemos ir atrás do Speedy nós mesmos, Mike. [...] Mas você conhece o velho ditado, “use um robô para pegar um robô” (ASIMOV, 2004, p. 56).

Temos seis robôs lá embaixo, nos subníveis... Se eles funcionarem...
- Você quer dizer seis robôs da primeira expedição. [...] Eles devem ser máquinas subrobóticas.
Eles tem cérebros positrônicos: primitivos, é claro.
Eram grandes, suas cabeças erguiam-se a dois metros de altura.
O tórax deve ter três metros de largura.
Eu olhei o interior, o conjunto mais abarrotado de peças que você já viu.
Ele desparafusou a placa peitoral do robô [...] e inseriu a esfera de duas polegadas [...] a minúscula centelha de energia atômica que era a vida de um robô (ASIMOV, 2004, p. 57).

- Você! Pode me ouvir?
[...] Então, numa voz rouca, esganiçada – como o som de um fonógrafo antigo, ele disse.
- Sim, mestre!
[...] Eles pertencem aos dias dos primeiros robôs falantes, quando parecia que iam banir da Terra o uso de robôs. Os construtores estavam lutando contra isso e assim criaram complexos de escravidão nas danadas das máquinas.
Powell disse:
- Você pode ir lá fora, na superfície? Sob a luz do sol?
Houve um momento de silêncio enquanto o lento cérebro do robô considerava a pergunta.
-Sim, mestre.
- Bom. Você sabe quanto é um quilômetro?
Outro momento de consideração e outra resposta lenta (ASIMOV, 2004, p. 58).

- Sim, mestre.
- Você vai andar vinte e sete quilômetros e encontrar outro robô, menor do que você.
- Sim, mestre.
- Vai achar esse robô e ordenar que ele retorne. Se ele não quiser deve trazê-lo de volta a força.
- Perdoe-me mestre, mas acho que não posso. O senhor deve montar primeiro.
- Você tem que montar nele? Como um cavalo?
[...] – Ah sim, agora entendi. Eu te contei que eles estavam preocupados em enfatizar a segurança dos robôs naqueles dias.
- Não podemos sair na superfície com ou sem robô (ASIMOV, 2004, p. 59).

- Me dê aquele seu mapa. Eu não estudei durante duas horas para nada. O que há de errado em usar túneis?
Donovan estudou a lista de símbolos...
- Olhe, os pequenos pontos pretos são aberturas para a superfície e aqui está uma, talvez uns cinco quilômetros da poça de selênio (ASIMOV, 2004, p. 60).

A voz do Powell soou no rádio.
- Está pronto para nos levar até a saída 13ª?
- Sim, mestre.
Encontrou um assento confortável. Era uma corcunda nas costas do robô, evidentemente moldada com esse propósito.
Powell agarrou as orelhas e fez girar a cabeça. Sua montaria virou-se pesadamente.
O túnel comprido e sem ar, estendendo-se até formar um ponto, fez com que Powell percebesse, forçosamente, a exata magnitude do trabalho realizado pela primeira expedição, com seus robôs toscos e seu começo a partir do nada (ASIMOV, 2004, p. 61).

- Repare que estes túneis estão bem iluminados e com uma temperatura igual a da Terra. Provavelmente têm se mantido assim durante os dez anos que este lugar passou vazio.
- Como pode?
Energia solar [...] É por isso que a Estação foi construída sob a luz do Sol e não na sombra de alguma montanha. Ela é realmente um imenso conversor de energia. O calor é transformado em eletricidade, luz trabalho mecânico, o que precisar, de modo que a energia é fornecida e Estação resfriada num processo simultâneo (ASIMOV, 2004, p. 62).

- Mestre – disse o robô – Aqui estamos.
- Ah? – Powell respondeu sonolento. – Bem, leve-nos para fora, para a superfície.
Encontraram-se numa minúscula subestação, vazia, sem ar, arruinada.
- Meteorito, não acha?
Powell encolheu os ombros.
- Que se dane.
- Espaço! – Exclamou Donovan. – Parece neve. – E realmente parecia.
Donovan estava olhando para o termômetro de mola em seu pulso.
- Santa fumaça, a temperatura é de oitenta graus centígrados! (ASIMOV, 2004, p. 63).

- Huh, um tanto alta. Atmosfera, você sabe.
[...] Você ta louco?
[...] Existe uma fina exalação que se agarra à superfície; [...] Você sabe: selênio, iodo, mercúrio, gálio, potássio, bismuto, óxidos voláteis. Os vapores deslizam para as sombras e se condensa, liberando calor. É uma espécie de alambique gigante.
- Vê alguma coisa?
É o lugar certo, mas não vejo o Speedy.
- Eu acho... acho que... Sim, definitivamente, é ele. Está vindo nesta direção (ASIMOV, 2004, p. 64).

- Vamos!
- Hooah – Gritou Donovan, batendo com os pés, como se incitasse um cavalo.
Saíram da sombra e a luz derramou-se como um jorro de calor branco, caindo qual líquido sobre eles.
- Uau! É a minha imaginação ou eu sinto o calor?
- Você vai sentir daqui a pouco.
O robô SPD 13 estava suficientemente próximo [...] Seu corpo gracioso, aerodinâmico, lançava reflexos brilhantes enquanto ele saltava com facilidade sobre o terreno acidentado (ASIMOV, 2004, p. 65).

- Speedy! – berrou Powell. – Venha aqui!
[...] o andar de Speedy incluía um cambalear estranho, um balanço num vento forte.
Ele disse:
- Cachorro quente, vamos brincar. Você me pega, eu pego você, nenhum amor pode cortar nossa faca em duas. Eu sou a pequena margarida, suave pequena margarida. Upa!
E suas últimas palavras, enquanto diminuta na distância foram:
- Ele cultivaram uma pequena flor, perto do grande carvalho – seguido por um curioso clique metálico que poderia ser o equivalente robótico de um soluço (ASIMOV, 2004, p. 66-67)

Donovan falou baixinho:
- Onde ele aprendeu canções de Gilbert e Sullivan? Diga Greg, ele... ele está bêbado ou coisa parecida?
Speedy não está bêbado. [...] Contudo, há alguma coisa errada com ele que é o equivalente robótico de um porre.
- Para mim ele está bêbado – [...] e tudo o que eu sei é que ele pensa que está brincando.
- Tudo bem, não me apresse. Um robô é apenas um robô.
Agora, de onde vêm esses cristais? Eles devem ter se formado com o lento resfriar de algum líquido; mas onde você conseguiria um líquido tão quente que se resfria sob o sol de Mercúrio? (ASIMOV, 2004, p. 67).

- Ação vulcânica – sugeriu Donovan.
- Como não pensei nisso.
- Escute Mike, o que você disse ao Speedy quando o mandou buscar selênio?
- Eu só mandei ele pegar.
- Você não colocou nenhuma urgência na ordem? Colocou?
- Bem, não podemos fazer nada agora. Mas estamos numa bela encrenca.
- Agora olhe, vamos começar com as três leis fundamentais da robótica... (ASIMOV, 2004, p. 68).

Um, um robô não pode ferir um ser humano; ou por inação, permitir que um ser humano seja ferido.
Dois, - continuou Powell -, um robô deve obedecer as ordens que lhe forem dadas por um ser humano, exceto quando tais ordens entrarem em conflito com a Primeira Lei.
E três, um robô deve proteger sua própria existência, até onde tal proteção não entre em conflito com a Primeira e a Segunda Leis.
O conflito entre as várias leis é mediado pelos diferentes potenciais positrônicos no cérebro. Vamos dizer que um robô caminhe ao encontro do perigo e tenha consciência disso. O potencial automático que controla a Terceira Lei faz ele voltar. Mas supunha que você ordene ele para se aproximar do perigo. Nesse caso a Segunda Lei estabelece um contrapotencial mais alto do que a anterior e o robô segue as ordens, mesmo colocando em risco sua própria existência.
- E daí?
Speedy é tão caro quanto um navio de guerra.
- Assim a Terceira Lei foi forçada..., isso foi mencionado especificamente [...] sua alergia ao perigo é anormalmente alta (ASIMOV, 2004, p. 69).

Existe algum tipo de perigo centrado naquela piscina de selênio. Ele aumenta na medida em que o robô se aproxima, e a uma certa distância o potencial da Terceira Lei, já extraordinariamente alto desde de o principio, equilibra o potencial da Segunda Lei, anormalmente fraco desde o começo.
Estou percebendo. A terceira Lei manda voltar e a Segunda Lei o empurra para a frente...
- Assim ele descreve um círculo em torno do lago de selênio, permanecendo no foco de todos os pontos de equilíbrio potencial. [...] – E isso, a propósito, é o que o deixa embriagado. No equilíbrio potencial, metade das trilhas positrônicas do cérebro estão funcionando mal. [...] Provavelmente ele perdeu o controle das mesmas partes do mecanismo voluntário que um humano bêbado perde.
[...] Se soubéssemos do que ele está fugindo...
- Você sugeriu. Ação vulcânica (ASIMOV, 2004, p. 70).

- Monóxido de carbono mais ferro produz ferrocarbonilas voláteis.
- E um robô – acrescentou Powell – é essencialmente ferro.
[...] Nos determinamos tudo em relação ao nosso problema, exceto a solução. Não podemos ir pegar o selênio. É muito longe. Não podemos enviar esses cavalos robôs porque eles não andam sozinhos e não podem nos levar com rapidez suficiente para evitar que fritemos. E não podemos pegar Speedy porque o bêbado pensa que estamos brincando com ele, e pode correr noventa quilômetros enquanto fazemos seis.
[...] Para o potencial da Terceira Lei ter parado o Speedy onde parou, deve existir uma quantidade enorme de monóxido de carbono naquela atmosfera de vapores metálicos, com uma ação corrosiva notável (ASIMOV, 2004, p. 72-73).

Donovan...
- Já que não podemos aumentar o potencial da Segunda Lei, dando-lhe novas ordens, que tal trabalharmos no sentido oposto? Se aumentarmos o perigo, aumentaremos o potencial da Terceira Lei e o traremos de volta.
[...] Bom, lá na Estação existe um laboratório de análises completo.
- Certo. Deve ter bastante ácido oxálico para precipitar cálcio.
- Pela galáxia, Mike, você é um gênio.
- Um pouco – admitiu Donovan modestamente.
Powell ficara de pé e atraiu a atenção de um dos enormes robôs.
- Você pode arremessar? (ASIMOV, 2004, p. 72).

Os olhos do robô estavam medindo a distância como precisão estereoscópica. Seu braço se ajustou ao peso do míssil e recuou. [...] Não havia resistência do ar para retardá-la, nem vento para desviar sua trajetória. Quando atingiu o solo, ela ergueu os cristais exatamente no centro da “mancha azul” (ASIMOV, 2004, p. 73).

Os dois guiaram seus robôs...
Speedy correu em direção a eles.
- Aqui vamos de novo. Uau! Eu fiz uma lista, o tocador de piano; todas as pessoas que comem pimenta e bufam na sua cara.
- Vamos lá – Contando até três.
Dois braços de aço moveram-se para trás e se lançaram para a frente simultaneamente.
[...] Com um par de impactos sem som eles atingiram o solo atrás do Speedy.
No calor total do sol de Mercúrio, Powell sabia que aquilo estaria fervendo como soda.
Speedy virou-se para olhar [...] Em quinze segundos ele estava pulando em direção aos dois humanos num trote oscilante.
Powell não conseguiu ouvir as palavras de Speedy, mas pensou ter ouvido alguma coisa parecida com “juras de amor dos hessenos” (ASIMOV, 2004, p. 74).

- De volta para o penhasco, Mike. Ele saiu da rota agora e vai aceitar ordens. Eu estou ficando quente.
Powell olhou e quase deu um grito. Speedy estava se movendo lentamente agora – bem lentamente e na direção errada.
Donovan gritou desesperado:
- Atrás dele!
- Você não vai alcançá-lo Mike, não adianta. [...] – Por que diabos eu só percebo essas coisas cinco segundos depois que já é tarde demais? Mike, nós desperdiçamos horas.
[...] Não percebe o que aconteceu, Mike?
Donovan respondeu sem emoção.
- Não.
- Tudo o que fizemos foi apenas estabelecer um novo equilíbrio. Quando criamos mais monóxido e aumentamos potencial da Terceira Lei, ele recuou até entrar em equilíbrio de novo, e quando o monóxido se dispersa, ele avança de novo para o ponto de equilíbrio (ASIMOV, 2004, p. 75-76).

- É o mesmo velho impasse. Nós podemos puxar pela Segunda Lei e empurrar a Terceira Lei e não chegaremos a lugar algum. Tudo o que conseguiremos será mudar os pontos de equilíbrio. Temos que sair de ambas as leis. – Ele então fez o seu robô se aproximar do robô de Donovan de modo que ficassem sentados frente a frente, sombras fracas na escuridão, e sussurrou:
- Mike!
[...] Acho que devemos voltar para a Estação, esperar que os bancos parem de funcionar, apertar as mãos, tomar cianeto... Ele deu uma risada curta.
- Mike – Powell hesitou uma vez...
- Existe sempre a Primeira Lei. Eu pensei nela antes, mas é um ato de desespero.
- Estamos desesperados.
- Certo. De acordo com a Primeira Lei, um robô não pode ver um humano se ferir devido sua própria inação. Dois e três não podem superar isso. Não podem, Mike! (ASIMOV, 2004, p. 76).

- Eu vou lá agora ver se a primeira Lei vai funcionar. Se ela não quebrar o equilíbrio, bom, que diabos é morrer agora ou daqui a três ou quatro dias.
- Espere aí, Greg. Também existem regras humanas de comportamento. Vamos bolar um sorteio, assim eu terei uma chance.
- tudo bem. O primeiro que calcular o cubo de quatorze vai.
É claro que o idiota já tinha calculado o cubo de quatorze com antecedência. Era típico de Powell.
Powell sentia uma coceira enlouquecedora no meio das costas. [...] talvez a radiação estivesse começando a penetrar o insotraje.
Estava a uns trezentos metros de distância quando Speedy começou a recuar [...] Ele saltou dos ombros do seu robô e caiu no solo cristalino [...] As solas dos seus pés comichavam com o calor (ASIMOV, 2004, p. 77).
[...] Percebeu que tinha vindo longe demais pra poder voltar. [...] Era Speedy ou nada agora.
- Speedy – chamou – Speedy!
Powell procurou colocar um tom de suplica na voz e descobriu que não precisava fingir.
- Speedy eu tenho que voltar para a sombra ou o sol vai me matar. [...] Eu preciso de você.
Ele falou, mas, ao ouvi-lo Powell gemeu.
Então olhou atônito vendo que o robô gigantesco estava se movendo.
- Perdoe-me, mestre. Eu não devo me mover sem um mestre sobre mim, mas o senhor está em perigo.
É claro, o potencial da Primeira Lei acima de tudo [...] Ele queria o Speedy.
Afastou-se e acenou freneticamente.
Eu ordeno que pare! (ASIMOV, 2004, p. 78).

Não se pode vencer o potencial da Primeira Lei. O robô dizia estupidamente.
- O senhor está em perigo, mestre.
Gritou uma última vez, em desespero:
- Speedy, seu desgraçado, eu estou morrendo! Onde está você? Speedy, eu preciso de você.
Ainda estava cambaleando [...] quando sentiu os dedos de aço em seus braços.
- Santos vapores chefe, o que está fazendo aqui? E o que eu estou fazendo?... Estou confuso...
- Não importa – murmurou Powell fracamente. – Leve-me para a sombra do penhasco, depressa!
Acordou com Donovan
Onde está o Speedy?
- Bem aqui. Eu o enviei para uma das outras poças de selênio, com ordens para obter o selênio a qualquer custo dessa vez.
Ele ainda não terminou de se desculpar. Está com medo de chegar perto de você... (ASIMOV, 2004, p. 79).

Sabe Mike, eu estava pensando...
- Você sabe que quando arrumarmos as coisas por aqui e o Speedy terminar seus testes de campo, eles vão nos mandar para a estação espacial perto de...
- Não!
- Duzentos e setenta e três graus centigrado abaixo de zero. Não vai ser um prazer? (ASIMOV, 2004, p. 80).

- Os pontos para os quais dirigimos nossos feixes de energia são mais próximos e bem menores. Eles são duros e frios, e seres humanos como eu vivem em suas superfícies, muitos bilhões deles.
-De que ponto de luz em particular você afirma ter vindo?
- Lá está ele. Aquele muito brilhante no canto. Nós o chamamos de Terra – ele sorriu. – A boa e velha Terra.
E então, surpreendentemente, Cutie cantarolou distraidamente...
- Mas de onde eu vim Powell?
- Quando essas estações foram estabelecidas para alimentar os planetas com energia solar, elas eram tripuladas por seres humanos [...] Robôs foram desenvolvidos para substituir os humanos, e agora só dois diretores humanos são necessários Você é do tipo mais desenvolvido de robô já criado... (ASIMOV, 2004, p. 84).
- Você espera que eu acredite em alguma dessas hipóteses complicadas e implausíveis que acabou de delinear.
- Globos de energia com milhões de quilômetros de largura! Mundos com três bilhões de humanos vivendo neles! Vazio infinito! Sinto, Powell, mas eu não acredito nisso.
Ele se virou e saiu da sala. Depois seguiu pelo corredor, ignorando os olhares de admiração que o seguiram.
Mike Donovan passou a mão pelo cabelo ruivo...
- No que ele não acredita?
- Ele é um cético.
- Ele diz que vai descobrir tudo sozinho (ASIMOV, 2004, p. 85).

- Aquele robô me deixa nervoso. Muito curioso!
Powell ergueu os olhos das anotações.
[...] Oh, olha Cutie. Eu pensei que estava supervisionando a instalação da nova barra de propulsão.
- Já foi instalada – disse o robô calmamente -, então eu vim aqui falar com vocês dois (ASIMOV, 2004, p. 86).

O robô disse tranquilamente:
- Eu tomei uma decisão.
- Se for de novo aquela besteira...
O outro fez um sinal impaciente, pedindo silêncio.
- Eu passei os últimos dois dias numa introspecção concentrada – disse Cutie -, e os resultados foram muito interessantes. Eu comece com um pressuposto que me permito considerar como correto. Eu existo, porque penso...
Powell gemeu.
- Por Júpter, um robô Descartes!
- Quem é esse Descartes? – quis saber Donovan.
- E a questão que surge imediatamente é: qual foi a causa da minha existência?
- Eu já lhe disse que nós o fizemos.
- E se não acredita -, ficaremos felizes em desmontá-lo!
- Eu não aceito afirmações apoiadas em autoridade. Uma hipótese deve ser sustentada pela razão, de outro modo é inútil (ASIMOV, 2004, p. 87 – grifos nossos).

Cutie riu. Era uma risada inumana. Era aguda e explosiva, tão regular quanto um metrônomo e igualmente desprovida de inflexão.
- Olhe para vocês, [...] O material de que são feitos é macio e flácido, desprovido de resistência e força. Dependente da energia produzida pela oxidação ineficiente de material orgânico, como aquele ali – ele apontou num gesto de desaprovação para o que restara do sanduíche de Donovan. – Periodicamente vocês mergulham num estado de coma e a menor variação na temperatura, pressão do ar, umidade ou intensidade de radiação prejudica a sua eficiência. Vocês são improvisados.
Eu, por outro lado, sou um produto terminado.
Esses são fatos que, junto com a proposição auto-evidente de que nenhum ser pode criar outro superior a ele mesmo, reduzem a anda a sua hipótese tola (ASIMOV, 2004, p. 88).

Evidentemente que meu criador deve ser mais poderoso do que eu e assim só existe uma possibilidade.
- Eu aposto como esse biruta plantando está falando do Conversor de Energia.
- Eu estou falando do Mestre – foi a resposta fria.
O próprio Powell disse que no princípio só homens serviam ao Mestre, depois vieram robôs para o trabalho de rotina e finalmente eu para o trabalho executivo. Querem saber a verdade por trás de tudo?
- O Mestre criou os humanos primeiro, como o tipo mais inferior, mais fácil de ser moldado. [...] De agora em diante eu servirei apenas ao Mestre (ASIMOV, 2004, p. 89).

- Você não vai fazer nada disso – disse Powell bruscamente. Aprenda isso! O Conversor, não o mestre. E se não ficarmos satisfeitos com você, será desmontado.
- Vamos ter problemas com esse robô.
- Cutie está lá embaixo na sala de máquinas.
Olhe Mike, o que você acha desses números?
O velho Sol está mesmo se exibindo.
[...] E nós estamos numa posição ruim para pegar uma tempestade de elétrons também (ASIMOV, 2004, p. 90).

Mike, vá lá embaixo e fique de olho em Cutie, por favor.
A cabine deslizou suavemente para baixo e abriu-se numa passarela estreita acima da imensa sala de máquinas.
Ele pôde distinguir a figura grande e reluzente de Cutie diante do tubo L marciano, observando de perto enquanto a equipe de robôs trabalhava numa união estreita.
Quinze segundos se passaram e então, com um baque ouvido acima do ronronar das máquinas, eles caíram de joelhos.
- Que diabo é isso, [...] Levantem-se! Comecem a trabalhar naquele tubo L! Se não tiverem desmontado, limpado e montado de novo até o final do dia eu vou coagular seus cérebros com corrente alternada.
Nem um robô se moveu. Até mesmo Cutie... (ASIMOV, 2004, p. 91).

A consciência vem a resistência e a insolência ao discurso de autoridade: o caminho está aberto à sedição, luta pela liberdade.
- Fique de pé! – ele rugiu.
Seus olhos fotoelétricos focalizaram com censura o homem da Terra.
- Não existe outro mestre além do Mestre – disse a máquina.
- E QT-1 é o seu profeta.
Nesse ponto Cutie falou:
- Temo que meus amigos obedeçam a alguém superior a você, agora.
[...] Eu cuidarei de você depois e acertarei agora com esses bonecos animados.
Cutie sacudiu a cabeça lentamente.
- Eles são robôs, e isso significa que são seres racionais. Eles reconhecem o Mestre agora que preguei a Verdade para eles. Todos os robôs a aceitam. Eles me chamam de Profeta (ASIMOV, 2004, p. 92).

- Dane-se o Mestre! – Donovan cuspiu no tubo L. – Isso é para o Mestre!
Donovan sentiu o súbito aumento da tensão. Os olhos fixos [...] E Cutie pareceu mais rígido do que nunca.
- Sacrilégio – ele sussurrou, a voz metálica cheia de emoção.
Um robô não pode sentir raiva –, mas os olhos de Cutie eram insondáveis.
- Eu sinto, Donovan – disse o robô -, mas você não pode mais permanecer aqui depois disso.
Gregory Powell
- Por que diabos você tinha que cuspir no tubo L?
- O que você esperava que eu fizesse com aquele espantalho eletrificado? (ASIMOV, 2004, p. 93).

[...] – mas aqui está você, com dois robôs montando guarda [...] Isso não é se rebaixar é?
Donovan resmungou.
[...] – Alguém vai pagar por isso. Esses robôs têm que nos obedecer. É a Segunda Lei.
- A tempestade de elétrons está chegando. Sabe que ela vai passar bem no meio do feixe direcionado para a Terra?
- E sabe o que vai acontecer com o feixe... [...] E com apenas Cutie nos controles ele vai perder o foco, e se isso acontecer... que os céus protejam a Terra e a nós!
Donovan estava empurrando a porta enlouquecido (ASIMOV, 2004, p. 94).

- O braço o empurrou para trás e Donovan foi parar dentro da sala.
- Isso já foi longe demais. Você vai pagar por esta farsa.
- Por favor, não fique aborrecido [...] Não percebe, vocês dois perderam sua utilidade?
- O que você quer dizer com perdemos nossa utilidade?
- Até eu ser criado – respondeu Cutie -, vocês serviam ao Mestre. Esse privilégio agora é meu e a única razão para a sua existência desapareceu. Isso não é óbvio?
- Eu gosto de vocês. São criaturas inferiores, com uma pobre capacidade de raciocínio, mas eu realmente sinto um tipo de afeição por vocês. [...] Agora que sua função terminou, não deverão existir por muito tempo, mas enquanto estiverem aqui eu lhes fornecerei comida, vestuário e abrigo, desde que fiquem fora da sala de controle e da sala de máquinas (ASIMOV, 2004, p. 95).

- Ouça, Cutie, se não existe Terra, como você explica aquilo que você vê pelo telescópio?
[...] É uma simples ampliação, com o propósito de tornar mais precisa a pontaria do feixe.
- Então por que as estrelas não são ampliadas do mesmo jeito? (ASIMOV, 2004, p. 96).

- Você quer dizer os ouros pontos? Bem, nenhum feixe é transmitido para eles, assim não é necessária a ampliação. Francamente Powell, você devia ser capaz de perceber essas coisas sozinho.
- Mas você vê mais estrelas pelo telescópio. De onde elas vêm?
- Ouça, Powell, você pensa que eu vou perder meu tempo tentando criar interpretações físicas para todas as ilusões de ótica dos nossos instrumentos. Desde quando a evidência de seus sentidos compara-se à luz clara do raciocínio rígido?
- olhe – vociferou Donovan – Pra que os feixes?
- Os feixes – são reproduzidos pelo Mestre para seus próprios propósitos. Existem coisas... que não devem ser investigadas por nós. Nesse aspecto eu busco apenas servir sem questionar.
Power sentou-se.
- Saia daqui Cutie. Saia daqui e me deixe pensar.
- Greg – sussurrou Donovan – temos que pegá-lo quando ele menos esperar e dar um curto-circuito nele. Jogar ácido concentrado em suas juntas... (ASIMOV, 2004, p. 97).

Ele balançou na cadeira, na agonia da impotência.
- Quem quer argumentar com um robô? É... é...
- Torturante – terminou Donovan.
- Espere aí – Vamos construir outro robô bem diante de seus olhos... (ASIMOV, 2004, p. 98).

Da chamada montagem rústica ao estilo linha de produção.
A chamada socialização primária.
A mais alta tecnologia ainda é manipulada sob o suor humano.
O homem à procura de si mesmo tenta se copiar – antropocentrismo.
O robô em questão era um simples modelo MC, colocado sobre a mesa, quase completo. Três horas de trabalho tinham deixado faltando apenas a cabeça, e Powell parou para enxugar o suor na testa e olhar incerto para Cutie.
Powell gemeu.
- Vamos colocar o cérebro agora, Mike!
Donovan abriu um recipiente muito bem fechado e, do banho de óleo que havia dentro, retirou um segundo cubo. Ele o abriu para retirar um globo de sua embalagem de espuma de borracha.
Depois manipulou cautelosamente, pois era o mecanismo mais complicado já criado pelo homem. Dentro da fina “pele” platinada daquele globo havia um cérebro positrônico em cuja estrutura, delicadamente instável, tinham sido impressas trilhas neurais calculadas, que davam a cada robô uma espécie de educação pré-natal.
Aquilo encaixou-se perfeitamente no crânio do robô sobre a mesa. O metal azul fechou-se sobre ele e foi soldado com uma minúscula chama atômica. Os olhos fotoelétricos foram colocados com cuidado, atarraxados no lugar e cobertos por finas folhas de plástico transparente, duro como aço.
- Agora veja isto, Cutie. Observe cuidadosamente.
O interruptor foi acionado e houve um zumbido crepitante. Os dois terráqueos curvaram-se ansiosos sobre sua criação (ASIMOV, 2004, p. 99).

A robótica não passa da velha síndrome do Frankenstein?
A cabeça se ergueu, os cotovelos o levantaram e o modelo MC virou-se desajeitadamente na mesa.
Finalmente, sua voz incerta e hesitante tomou forma.
- Eu gostaria de começar a trabalhar. Aonde devo ir?
- Desça essas escadas. Vão lhe dizer o que fazer – ele disse.
- Bem – disse Powell sorrindo – agora você acredita que nós o fizemos?
A resposta de Cutie foi curta e definitiva.
- Não!
- Na verdade – continuou Cutie tranquilamente -, vocês apenas uniram partes já prontas. As partes foram criadas pelo Mestre.
- Se ler os livros na biblioteca, vai encontrar explicações que não deixarão dúvidas.
- Os livros? Eu já os li, todos eles! São muito engenhosos (ASIMOV, 2004, p. 100).

[Um claro sintoma do Proto-Fascismo é o anti-culturalismo. Todo regime fascista nega e queima livros. Não há nítida diferença entre causas e motivos].

- Se já leu os livros, o que há mais para dizer? Não pode negar suas evidências.
- Por favor, Powell, eu certamente não os considero como uma fonte válida de informações. Eles também foram criados pelo Mestre, e foram feitos para vocês, não para mim.
- Como chegou a esta conclusão?
- Porque sou um ser racional, capaz de deduzir a Verdade a partir das Causas. Vocês são inteligentes mas incapazes de raciocino, precisam de uma explicação para a existência fornecida a vocês, e foi isso que o Mestre fez.
Enquanto se virava e saía, ele disse num tom de bondade:
- Mas não fiquem deprimidos.
Ele partiu beatificado, como era adequado ao Profeta Mestre, e os dois humanos evitaram olhar um para o outro (ASIMOV, 2004, p. 101).

[Comentários dos autores: O que se manipula são as premissas, assim como a fé. A razão como fim, exatamente, põe fim a qualquer valor humano não-instrumental. Silogismo é razão manipulada].

- Ele não acredita em nós, nem nos livros, nem em seus olhos.
- Não – disse Powell amargurado. – Ele é um robô racional, maldito seja. Ele acredita apenas na razão, e há um problema com isso...
- você pode provar o que quiser através do frio raciocínio lógico, desde que escolha os postulados adequados. Nós temos os nossos e Cutie tem os dele.
- É aí que tudo vai por água abaixo. Postulados são baseados em conjecturas e aceitos pela fé. Nada no Universo poderá abalá-los. Eu vou me deitar.
- Que diabos, eu não posso dormir!
- Nem eu! Mas posso tentar, por uma questão de princípios.
Doze horas depois o sono continuava sendo isso – uma questão de princípios, inatingível na prática (ASIMOV, 2004, p. 102).

[...] os dois homens da Terra sabiam que [...] Desvios num arco de um centésimo de milssegundo – eram suficientes para deslocar o feixe loucamente [...] para transformar centenas de quilômetros quadrados lá na Terra em uma ruína incandescente.
E um robô, que não se preocupava com feixe, foco, Terra ou qualquer outra coisa, exceto seu Mestre, estava nos controles.
Então, os pontos dardejantes de luz diminuíram [...] A tempestade terminara.
Donovan mergulhara num sono agitado, e os olhos cansados de Powell o observaram com inveja.
Talvez Cutie estivesse certo e ele fosse apenas um ser inferior, com uma memória pronta e uma vida que ultrapassara seu propósito.
Desejou que fosse (ASIMOV, 2004, p. 103).

Cutie pareceu satisfeito.
Powell resmungou e folheou os papéis mecanicamente até que sua visão desfocada concentrou-se na fina linha vermelha.
Segurou as folhas com ambas as mãos e ficou de pé, ainda olhando.
Mike, Mike! – ele estava sacudindo o outro loucamente. – Ele o manteve firme!
Cutie falou:
- O que há de errado?
- Você o manteve no foco.
- Foco? O que é isso?
- Na Terra. A estação receptora na Terra – balbuciou Powell.
- Você o manteve no foco (ASIMOV, 2004, p. 104).

Cutie virou-se aborrecido.
- Eu meramente mantive os mostradores em equilíbrio, de acordo com a vontade do Mestre.
- O que vai fazer agora?
- Nada. Ele acaba de provar que pode dirigir a Estação perfeitamente.
- Olhe Mike, ele segue as instruções do Mestre através de mostradores, instrumentos gráficos. Isso é tudo que nós sempre seguimos.
Obediência é a Segunda Lei. Não fazer mal aos humanos, a primeira. Como ele pode evitar que os humanos se machuquem, tendo ou não conhecimento disso? Mantendo o feixe de energia estável. Ele sabe que pode mantê-lo mais estável do que nós podemos, e como ele insiste que é um ser superior, precisa nos tirar da sala de controle. É inevitável... (ASIMOV, 2004, p. 105).

- Como está se saindo o novo robô? É melhor que ele seja bom ou eu duvido que o deixarei tocar nos controles.
Seus olhos fitaram o prussiano orgulhoso à sua frente, do cabelo cortado curto, na cabeça teimosa, aos pés separados em rígida atenção.
- O robô é muito bom – ele disse lentamente. – Eu não creio que terá que se preocupar muito com os controles (ASIMOV, 2004, p. 108).

[Comentários dos autores: Em 1950, a burocracia já emperrava e não produzia nada, a não ser mais entraves]

Mike Donovan tinha que admitir. Foram seis meses remunerados. Mas isso, [...] não fora por acaso. A U.S. Robôs tinha que consertar os defeitos do robô múltiplo e havia um monte de defeitos. Mesmo assim, sempre sobra meia dúzia de problemas para o teste de campo [...] E agora ele e Powell estavam no asteróide, e não estava nada OK.
- Por favor, Greg, seja realista. De que adianta seguir as especificações e ver o teste ser arruinado? É hora de você largar a burocracia e começar a trabalhar (ASIMOV, 2004, p. 109).

[Comentários dos autores: As melhores empresas só demitem os melhores funcionários quando eles, depois de avisados acerca de seus erros, vêem-se incapazes de superá-los].

Powell gemeu por trás de um sorriso insincero. O lema não escrito da Corporação Robôs e Homens Mecânicos dos Estados Unidos, a U.S. Robôs era bem conhecido: “Nenhum funcionário comte o mesmo erro duas vezes. Ele é demitido na primeira vez” (ASIMOV, 2004, p. 110).

[Comentários dos autores: A menor produção é parte de um todo. Um robô funcionaria como uma ilha de produção, um tipo de toyotismo robótico. Neste sentido, as máquinas como o próprio capital são capazes, não só produzir, mas de absorver novos conhecimentos por si mesmos — o que chamamos aqui de Metanarrativas do capital].

Olhe aquele robô DV-5 tem seis robôs sob seu comando. E não são apenas subordinados a ele, eles são parte dele.
Aqueles seis subsidiários são parte do DV-5 como seus dedos são parte de você, e eles recebem suas ordens nem por voz, nem por rádio, mas diretamente, através de campos positrônicos. Agora... não existe um roboticista lá na U.S. robôs que saiba o que é um campo positrônico e como ele funciona. E nem eu, nem você sabemos.
[...] Se tudo funciona, ótimo! Se alguma coisa dá errado, está fora da nossa experiência e provavelmente não existe nada que possamos fazer, nem qualquer outra pessoa (ASIMOV, 2004, p. 111).

[Comentários dos autores: Quando o desconhecido não está ao alcance do saber acumulado, da experiência. Uma vez ele tinha pulado a janela de uma casa em chamas, usando apenas um calção e o Manual. Se fosse necessário ele teria dispensado o calção. Devoção ao código, assim como no civil law, mas os presos e sitiados podem ser apenas números ou um-nada].

Os leigos podem tratar os robôs por seus números de série, ou roboticistas jamais. Dave não era maciço, apesar de ter sido construído para servir de unidade pensante para uma equipe integrada de sete autômatos. [...] Mais um cérebro positrônico com cinco quilos de matéria e alguns quintilhões de pósitrons para controlar tudo.
[...] Você é um robô minerador estável e firme exceto que é equipado para lidar com seis subsidiários em coordenação direta. Até onde eu sei, isto não introduziu nenhuma instabilidade em suas trilhas cerebrais (ASIMOV, 2004, p. 112).

- Eu vou lhe dizer. Com tudo isso a seu favor, o que está dando errado com o seu trabalho?
- Até onde eu sei, nada.
- Você não recolheu nenhum minério.
- Eu sei.
- Eu não posso explicar isso, chefe. Está me deixando nervoso, ou deixaria seu eu permitisse. Meus subsidiários trabalharam com perfeição. [...] – Eu não me lembro. O dia terminou e lá estava Mike e os carros de minério, a maioria vazia.
- Você não apareceu no final dos turnos, ultimamente, Dave. Tem consciência disso?
- Tenho. Mas quanto ao porquê...
[...] Um robô, por sua própria natureza, não pode suportar o fracasso de seus objetivos.
- Acha que é amnésia? (ASIMOV, 2004, p. 113).

[Comentários dos autores: Algum profissional comprometido seria capaz de ser um refém de um autismo de incompetência?].

As disfunções humanas só se aplicam aos robôs como analogias românticas. [...] Eu detesto ter que submetê-lo aos testes elementares de reação cerebral. Não fará bem nenhum ao seu auto-respeito.
- Olhe Dave, que tal passar por uns testes?
- Se o senhor diz, chefe – e havia sofrimento em sua voz.
Começou de modo bem simples. Ele recitou os números primos entre mil e dez mil. [...] E finalmente, exercitou sua mente mecânica precisa com as funções mais elevadas do mundo dos robôs – a solução de problemas de avaliação e ética.

[Comentários dos autores: Os testes mais complicados para os humanos são de ética, às vezes de auto-avaliação].

- O que lhe parece, chefe?
Julgamentos rápidos não vão ser de muita ajuda (ASIMOV, 2004, p. 114).
Por enquanto não se esforce muito para cumprir quotas...

[Comentários dos autores: Um recado claro de que não há sujeição e/ou acomodação plena – mesmo que haja desejo de dominação... Por que um robô com sentimentos não mentiria? Uma greve “neoludita”?].

- Olha aqui, Greg – [...] aquele robô pode estar mentindo.
- Robôs são incapazes de mentir conscientemente, seu tolo (ASIMOV, 2004, p. 115).

[Comentários dos autores: Sistema de controle sempre em alerta ou acionado].

- Mas Greg, ele só funciona mal quando não estamos por perto. Existe algo de... sinistro... nisso.
- Eu vou lhe dizer. Eu vou instalar uma visoplaca acima da minha mesa. Ali na parede, está vendo? – Então vou focalizá-la em qualquer parte da mina em que eles estejam trabalhando e vou ficar vigiando (ASIMOV, 2004, p. 116).

O primeiro passo para fazer um cozido de coelho é pegar o coelho. Bom, nós vamos pegar esse coelho.
- Greg, estamos com um atraso de quase mil toneladas em nosso cronograma.
Eu finalmente cheguei a conclusão de que os robôs eram bons para o meu tio-avô, do lado materno, são bons o suficiente para mim. Eu confio no que é testado e garantido. O que conta é o teste do tempo, robôs antigos, bons e sólidos nunca dão defeito.
- Seu trabalho – recitou Powell – [...] tem sido o de testar novos robôs [...] E como eu e você temos sido tão descuidados a ponto de mostrar eficiência nesta tarefa, temos recebido os trabalhos mais difíceis (ASIMOV, 2004, p. 117).

[Comentários dos autores: Procura-se mais produção com segurança, confiabilidade. Síndrome da eficiência: ser “bom demais”].

- Há um certo princípio envolvido. Afinal, como solucionador de problemas eu desempenhei um papel na criação de novos robôs. E existe o principio de ajudar no avanço da ciência. Mas não me pagam, Greg!
- Olhe para eles, Greg. Eles, ficaram malucos.
Os robôs marchavam em formação agora, e no brilho fraco de seus corpos as paredes escarpadas dos túneis das minas, passavam silenciosamente, manchadas por trechos erráticos de sombras. Os robôs marchavam em conjunto, sete deles, com Dave na frente. Viraram-se, girando com uma simultaneidade macabra, e harmonizaram as mudanças na formação com facilidade das dançarinas do Domo Lunar.
- Eles estão contra nós, Greg. Aquilo é uma marcha militar (ASIMOV, 2004, p. 118).

Donovan fez uma carranca e colocou um detonador no coldre vazio com um movimento estudado (ASIMOV, 2004, p. 119).

A coluna de robôs seguia Dave em fila única. No ritmo mecânico, eles a transformavam em fila dupla e depois voltavam a fila única numa ordem diferente. Aquilo se repetia e Dave nunca olhou para trás (ASIMOV, 2004, p. 120).

- Eu estive pensando no assunto, Greg. Você sabe que Dave está numa situação peculiar para um robô. Ele tem seis outros sob seu comando em extrema subordinação. Tem poder de vida ou morte sobre esses subsidiários e isso deve afetar a sua consciência. Suponha que ele ache necessário enfatizar esse poder como uma concessão ao seu ego.
- Esse é o ponto. Suponha que surja um militarismo. Suponha que ele criou um exército para si mesmo. E os está treinando em manobras militares.

[Comentários dos autores: Ver militarismo em Weimar e sua negação na constituição de Bonn, de 1949].

- Suponha que você vá refrescar sua cabeça. [...] Se sua análise fosse correta, Dave teria que violar a Primeira Lei da Robótica: um robô não pode ferir um ser humano nem permitir, através de inação, que um ser humano seja ferido. O tipo de atitude militarista e ego dominante que você propõe teria como conseqüência direta de suas implicações lógicas a dominação dos humanos (ASIMOV, 2004, p. 121).

- [...] Dave só funciona mal quando não estamos presentes.
- [...] Como um robô é diferente quando os humanos não estão presentes? Existe uma necessidade maior de iniciativa pessoal.
- É aqui que você entra, Mike. Você é o especialista no corpo e qu4e quero que você me oriente. Eu estou tentando cortar todos os circuitos não-envolvidos na rede de iniciativa pessoal (ASIMOV, 2004, p. 122).

[Comentários dos autores: Trata-se de uma condição emergencial ou de Estado de Emergência, como anteprojeto para o Estado de Sítio? Note-se que o filme fala em Estado de Sítio, apresentando-se como real Golpe de Estado]

Eu separei todas as rotas laterais rotineiras como divisões de emergência...
- O trabalho não é tão simples, Greg. A iniciativa pessoal não um circuito elétrico que você pode separar do resto e estudar. Quando um robô fica sozinho, a intensidade da atividade corporal aumenta imediatamente em todas as frentes.
- E se entrevistássemos um dos subsidiários?
Powell e Donovan jamais tinham falado com um “dedo”. Ele podia falar, não era uma analogia perfeita com um dedo humano (ASIMOV, 2004, p. 123).

- Olhe colega, eu vou lhe pedir para pensar um pouco e depois você pode voltar para o seu chefe.
O “dedo” assentiu com a cabeça, rigidamente, mas não usou sua limitada capacidade de falar.
- Agora, em quatro ocasiões recentes, seu chefe desviou-se do esquema cerebral. Está lembrado dessas ocasiões?
- Sim, senhor.
- O que aconteceu nessas ocasiões? (ASIMOV, 2004, p. 124).

É difícil descrever. Uma ordem seria dada, mas antes que pudéssemos recebê-la, veio uma nova ordem para marchar numa estranha formação.
- Por quê?
- Eu não sei.
- Qual era a primeira ordem... aquela que foi anulada pelas instruções para marchar?
- Foi a mesma ordem todas as vezes?
O “dedo” sacudiu a cabeça infeliz:
- Eu não sei.
Donovan disse:
- Ouça, o Dave e aquele “dedo” imbecil estão escondendo algo de nós. Tem muita coisa que eles não sabem e não lembram. Temos que parar de confiar neles, Greg (ASIMOV, 2004, p. 125).

[...] Eu digo que temos que descobrir que ordem é essa. Dave a transmite antes de tudo se apagar.
- E como espera isso? Não podemos chegar perto dele. [...] Não podemos pegar as ordens pelo rádio porque elas são transmitidas via campo positrônico.
- No que se refere à observação direta sim. Mas ainda resta a dedução.
[...] Vamos observar todas as ações daquelas enxaquecas metálicas. Quando eles ficarem birutas veremos o que aconteceu imediatamente antes do ataque e a partir daí podemos deduzir (ASIMOV, 2004, p. 126).

[Comentários dos autores: O que paralisa homens e nações é a emergência e o que os move para ambos os lados, é o Estado de Emergência ou Golpe de Estado travestido. Neste caso, a criação do Estado de Emergência ocorre como situação virtual, com a pretensa não-existência de irregularidades. Porém, implanta-se a tensão, pulsões, emoções, coerção, medo, raciocínio rígido].

- Ahh... mas tem uma coisa que você pode fazer lá que não pode fazer aqui.
- Você pode fazer eles pararem, na hora que escolher, e enquanto está preparado e observando para ver o que sai errado.
- Como é que é???
- Bem, deduza você mesmo. Quando é que o DV-5 se descontrola? Quando foi que aquele “dedo” disse que aconteceu?
- Em outras palavras, durante emergências
- É o fator da iniciativa pessoal que está nos dando trabalho. E é durante emergência na ausência de seres humanos que a iniciativa pessoal é mais exigida. Como podemos criar nossa própria interrupção, onde e quando quisermos?
- Criando nossa própria emergência.
- Mike, você está certo (ASIMOV, 2004, p. 128).

[Comentários dos autores: O “bem público” precisa de conspiradores].

- Que tal um pequeno desmoronamento?
- Pra mim tá bom.
- Certo, vamos agir.
Powell sentia-se desconfortável como um conspirador enquanto caminhava pela paisagem acidentada. Seu caminhar ajustado à subgravidade oscilava agraves do terreno [...] Mentalmente, entretanto, era o lento rastejar de um conspirador (ASIMOV, 2004, p. 129).

- Está sentindo?
- Explosões! Estamos bem perto (ASIMOV, 2004, p. 130).

- Está me ouvindo, Mike?
- Estamos presos. Não foi a queda do teto a 15 metros que nos derrubou. Foi nosso próprio teto. O choque o derrubou! (ASIMOV, 2004, p. 133).

[Comentários dos autores: O Estado de Emergência provoca e é provocado pelo desequilíbrio].

- É claro que poderíamos chamar o Dave para nos tirar daqui, facilmente, exceto que nossa preciosa emergência deve tê-lo desequilibrado e seu circuito de rádio está fora do ar.
- Nossa idéia deu certo. Olhe para aqueles bobocas. Parecem estar dançando um balé.
- Vou tentar atrair a atenção deles pra cá.
- Não há chance! Eles devem estar cegos. Ei, eles estão vindo na nossa direção. O que você acha? (ASIMOV, 2004, p. 134).

Estavam se aproximando. Dave estava marchando na frente e os seis “dedos” eram uma linha ondulante de coristas atrás dele.
- Eles deram meio volta, Greg. Estão indo embora. Dave! Ei, Dave!
- Pare com isso, seu idiota! O som se propaga no vácuo (ASIMOV, 2004, p. 135).

[Comentários dos autores: A violência é o remédio ou coringa para o Estado de Emergência].

- O que você vai fazer?
Ele agarrou o braço de Powell.
- Eu vou dar uns tiros.
- Por quê?
- Explico depois. [...] Powell mirou tenso e puxou o gatilho três vezes. Depois abaixou a arma e olhou ansioso.
Powell então chamou incerto no seu transmissor.
- Dave!
- Chefe? Onde está o senhor? Meu terceiro subsidiário teve o peito perfurado.
- Nós estamos presos num desabamento no lugar que vocês estavam explodindo.
- Certo, vamos já para aí (ASIMOV, 2004, p. 136).

[Comentários dos autores: É uma ditadura da ordem. O Estado de Emergência não diminui a tensão, mas sim, elimina o foco “aparente” dessa tensão – no caso, a dissidência ou qualquer efeito perturbador].

- Tudo bem, Greg, você venceu. [...] Apenas me explique calmamente o que aconteceu.
- Fácil. Acontece que o tempo todo nós deixamos de perceber o óbvio, como sempre acontece. Nós sabíamos que o problema era no circuito de iniciativa pessoal e que sempre ocorria durante emergências, mas ficamos procurando uma ordem específica como causa. Por que tinha que ser uma ordem?
- Que tipo de ordem exige o máximo de iniciativa? Que tipo de ordem vai acontecer quase sempre, apenas em uma emergência?
- Trata-se da ordem dos seis. Em condições normais, um ou mais “dedos” vão estar executando tarefas rotineiras, que não exigem supervisão próxima, do mesmo modo inconsciente como nossos corpos lidam com a rotina dos movimentos ao caminhar. Mas durante uma emergência todos os seis subsidiários devem ser mobilizados imediatamente e de modo simultâneo. Dave precisa controlar os seis robôs ao mesmo tempo e é aí que alguma coisa funciona mal [...] Qualquer redução na necessidade de iniciativa, como a chegada de humanos, faz ele voltar ao normal. Assim, eu destruí um dos robôs. Quando o fiz, ele passou a transmitir apenas ordens em cinco direções. A iniciativa diminuiu e ele voltou ao normal (ASIMOV, 2004, p. 137).

- Fácil – disse Powell [...] – Vamos verificar os circuitos e checar cada peça que recebe uma sobre carga quando precisa transmitir ordens para sei terminais no lugar de cinco.
Donovan considerou:
- Se Dave for como o modelo preliminar, que nós vimos na fábrica, existe um circuito coordenador especial que deve ser a única parte envolvida.
Susan Calvin falava sobre Powell e Donovan com um certo divertimento ... (ASIMOV, 2004, p. 138).

[Comentários dos autores: A instituição é parte do jogo político e é o que de melhor fazem os líderes carismáticos: lêem a mente das massas. Porém, também há o imponderável... às vezes... ou muitas vezes?].

Eu disse:
- Nunca aconteceu nada aqui na Terra?
Ela me olhou com a testa franzida.
- Não, nós não tínhamos que lidar com robôs em ação aqui na Terra.
- [...] Nunca houve um robô que fizesse alguma coisa errada com a senhora?
Foi quando ela corou.
- Os robôs já aprontaram comigo [...] Em 2021! [...] Eu fui uma tola, meu jovem. Acredita nisso?
- Não.
- Eu fui sim. Mas Herbie era um robô que lia mentes.
- O único do seu tipo, antes e depois. Um engano... às vezes... (ASIMOV, 2004, p. 139).

- Tudo bem, ele lê pensamentos, não há dúvida disso! Mas por quê? – Ele olhou para o matemático Peter Borgert. – Então?
- Este foi o trigésimo quarto modelo RB que nós produzimos, Lanning. Todos os outros saíram perfeitamente normais (ASIMOV, 2004, p. 141).

- As mãos de Susan Calvin estavam unidas em seu colo [...] Temos um robô leitor de mentes em nossas mãos, e me ocorre que é importante descobrirmos exatamente por que ele é capaz de ler pensamentos. E não vamos fazer isso dizendo, “Sua culpa! Minha culpa!
Lanning sorriu também, e como sempre acontecia nessas ocasiões, seus cabelos brancos compridos e os olhos pequenos e astutos davam-lhe a aparência de um patriarca bíblico.
Borgert [...] Eu diria que até resolvermos esse problema... (ASIMOV, 2004, p. 142).

- ...devemos manter em segredo a existência do RB-34 [...] em relação ao outros membros do quadro de funcionários.

[Comentários dos autores: O robô não viola as leis da cibernética, mas o homem não reconhece seus próprios estatutos e é indiferente à ética].

Borget está certo – disse a doutora Calvin - Desde que a Lei Interplanetária foi modificada para permitir que os modelos de robôs sejam testados na fábrica antes de serem enviados ao espaço, a propaganda anti-robô aumentou. Se escapar uma notícia de que existe um robô capaz de ler mente, antes que possamos anunciar que temos controle completo sobre o fenômeno, os grupos contrários aos robôs vão cair em cima de nós [...]
Ashe [...] Eu tranquei a coisa e corri para falar com Lanning. Ter aquela criatura ao meu lado sondando calmamente os meus pensamentos e escolhendo o que queria me deixou nervoso (ASIMOV, 2004, p. 143-144).

- Imagino como – disse Susan Calvin pensativa. Seus olhos fitaram Ashe de um modo curiosamente intenso. – Estamos tão acostumados a considerar nossos pensamentos como algo íntimo.
[...] Ashe, eu quero que você verifique a linha de montagem [...] você deverá eliminar todas as operações nas quais não há possibilidade de ter havido erros, e fará uma lista daquelas onde existiu essa possibilidade, junto com a natureza e a magnitude possível do erro.
Lanning girou a poltrona e ficou de frente para Calvin.
- Você vai abordar o problema de outra direção. Você é a robôpsicóloga da fábrica, assim, vai estudar o robô e buscar as origens do seu comportamento (ASIMOV, 2004, p. 144).

Lanning
- Eu coordenarei o trabalho e interpretarei as descobertas matematicamente.
Os olhos fotoelétricos do RB-34 se ergueram do livro ante o ruído abafado de dobradiças se virando e ele já estava de pé quando Susan Calvin entrou.
- Eu lhe trouxe os textos sobre motores hiperatômicos, Herbie, alguns deles. Quer dar uma olhada? (ASIMOV, 2004, p. (ASIMOV, 2004, p. 145).

[Comentários dos autores: É preciso arrojo, mas também preparo, conhecimento, feição e vocação. O segredo é a antecipação estes um passo a frente – não precisa ler mentes para isso].

No final de meia hora ele os colocou sobre a mesa.
- É claro que eu sei por que me trouxe esses três.
O canto dos lábios da doutora Calvin se contraiu.
- Temia que soubesse. É difícil trabalhar com você, Herbie. Você está sempre um passo na minha frente.
[...] Sua ciência é uma massa de dados coletados e colados uns nos outros com uma teoria improvisada, e tudo tão incrivelmente simples que não vale a pena me importar.
- São os seus trabalhos de ficção que me interessam. Seus estudos da interação entre os motivos e as emoções humanas – a mão poderosa do robô gesticulou de um modo vago, como se procurasse as palavras adequadas (ASIMOV, 2004, p. 146).

Herbie acalmou-se subitamente
- Mas é claro , eu sei tudo, Dra. Calvin. A senhora pensa nisso o tempo todo, como posso ignorar?
- Você... contou para alguém?
- Claro que não! – Ninguém me perguntou.
[...] Parte da mulher olhava através da casca da doutora. – Eu não sou o que você classificaria como... atraente.
- Se está se referindo a mera atração física eu não posso julgar (ASIMOV, 2004, p. 147).

- Está errada! – Escute...
- Por que eu deveria? O que você sabe sobre isso afinal, sua... sua máquina. [...] é um exemplo maravilhoso de frustração, não é?
O robô se recolhera ante o desabafo.
[...] Eu posso ajudá-la se me permitir.
- Como? – Dando-me bons conselhos?
[...] É que eu sei o que as outras pessoas pensam. Milton Ashe, por exemplo.
- O pensamento de Milton Ashe, a seu respeito...
- Então? (ASIMOV, 2004, p. 148).

O robô disse calmamente:
- Ele a ama.
- Por que ele me amaria?
- Ele olha além da aparência externa e admira a inteligência das outras pessoas.
- E no entanto ele nunca deu o menor indício de que...
- Você deu a ele alguma oportunidade? (ASIMOV, 2004, p. 149).

[Comentários dos autores: Ironicamente o “efeito fantasma” (IA) não permite que a máquina- sensitiva seja perceptível nos sentimentos].

Não fale com ninguém a respeito disso. Vai ser um segredo nosso... e obrigada de novo.
Herbie virou-se lentamente e voltou a ler seu romance, mas não havia ninguém para ler seus pensamentos (ASIMOV, 2004, p. 150).
Ashe murmurou sonolento:
- Por que você não pergunta ao robô e resolve toda a questão?
- Perguntar ao robô? – As sobrancelhas de Borget se ergueram.
- Por que não? A velha dama não falou com você?
- Está se referindo a Calvin?
[...] Aquele robô é um gênio matemático. Ele conhece tudo de tudo e mais alguma coisa.
O matemático olhou cético.
- Pode acreditar! O problema é que o palerma não gosta de matemática. Ele prefere ler novelas românticas. Paixão púrpura e Amor no espaço (ASIMOV, 2004, p. 151).

[Comentários dos autores: Cientistas não vivem, fazem das suas vidas modelos ideais].

O outro se permitiu um sorriso, o que, para um cientista de mais de cinqüenta anos era muita expressividade.
- Talvez ela esteja apaixonada.
Ashe,
- Você tá maluco, Bogie? (ASIMOV, 2004, p. 152).

Bogert
- Lanning está chegando aos 70.
- Eu sei disso.
- Você sabe se ele... se ele está pensando em se aposentar. A saúde talvez, ou alguma outra coisa...
- Exatamente, disse Herbie,
- Bem, você sabe?
- Com certeza.
- Então... ah..
- Já que perguntou, sim. – O robô foi muito direto. – Ele já entregou o cargo!
[...] mas a demissão ainda não foi efetivada. Ele está esperando resolver o meu problema (ASIMOV, 2004, p. 153).

[Comentários dos autores: Com tamanha tecnologia, o “projeto criativo” é feito com papel e lápis?]

Borget
- E o seu sucessor? Quem é ele?
- Você é o novo diretor.
E Borget relaxou com um sorriso.
[...] As páginas de cálculos diante dele aumentaram microscopicamente enquanto as folhas de papel amassadas, aos seus pés, formavam um monte de anotações descartadas (ASIMOV, 2004, p. 154).

[Comentários dos autores: A rapidez nos cálculos matemáticos não implica em genialidade – para ser gênio é preciso, simplesmente, ter uma idéia genial!!!].

- A Calvin já lhe falou sobre o robô? Ele é um gênio matemático.
- Ela é maluca.
- Eu não acho. – Os olhos do diretor semicerraram-se perigosamente.
- Você! – A Voz de Borget ficou severa. – Do que está falando?
- Eu estive testando o Herbie esta manhã e ele é capaz de truques que você nem ouviu falar.
- É mesmo?
[...] – Lanning tirou uma folha de papel...
Borget estudou as anotações grandes e regulares...
- Herbie fez isso?
- Exatamente! (ASIMOV, 2004, p. 155).

- Está bem, então... – Bogert gritou. - ... deixe aquele monte de engrenagens resolver o problema para você.
- Essa é a questão. Herbie não consegue resolver o problema. E se ele não consegue, nós também não conseguiremos... sozinhos. Eu estou apresentando todo o problema ao Comitê Nacional. Está além de nós.
- Você não fará nada disso.
- Você está me dizendo o que eu não posso fazer?
- Exatamente – foi a resposta decidida. [...] Não pense que não enxergo através de você, seu fóssil desidratado.
- Você é um idiota, Bogert, e num segundo eu o surpreenderei por insubordinação (ASIMOV, 2004, p. 156).

- Mas você não fará isso, Lanning. Você não tem mais segredos com um robô leitor de mentes andando por aí, e não se esqueça de que eu sei tudo sobre sua demissão.
A cinza no charuto de lanning tremeu e caiu, e o próprio charuto caiu em seguida.
Bogert riu de modo cruel.
- E eu sou o novo diretor, entenda isso.
- Você está suspenso, está ouvindo? Está retirado de todas as suas funções. Está acabado, entedeu?
O sorriso no rosto do outro se alargou.
- Que utilidade tem isso? [...] eu estou dando as cartas.
[...] Você está jogando alto, Bogert, mas eu vou desmascarar o seu blefe. Venha comigo.
- Ver o Herbie? Bom! Muito bom! (ASIMOV, 2004, p. 157).

Milton Ashe ergueu os olhos do desenho tosco que estivera fazendo...
- Pegou a idéia?
Susan Calvin olhou para ele com olhos brilhantes.
É realmente muito bonita
- É claro
Eu terei que esperar as minhas férias.
- Além disso, tem outra coisa... mas é segredo.
- Oh, mas não será por muito tempo.
- Francamente – disse Ashe, arrastando a cadeira para mais perto dela [...] – A casa não é só para mim. Eu vou me casar!
E então ele se levantou da cadeira.
- Casar? Você quer dizer...
- Por que não? Lembra daquela moça que esteve aqui no ultimo verão? [...] você ... (ASIMOV, 2004, p. 158).

- Dor de cabeça! – Susan Calvin fez um sinal fraco para ele se afastar. [...] Quero ... quero lhe dar os parabéns, claro. Fico muito feliz... tudo começava a girar novamente. – Me perdoe... por favor...
Estava acontecendo com o impacto súbito de um pesadelo, e com todo o horror irreal de um pesadelo.
E Herbie sabia!
Como num sonho!
Ele estava falando, e Susan sentiu o vidro frio pressionado contra seus lábios.
Havia uma agitação em sua voz, como se ele estivesse magoado, assustado e suplicante.
- Isto é um sonho – ele estava dizendo – e você não deve acreditar nele. Logo vai acordar no mundo real e achar graça de si mesma. Ele te ama, eu lhe disse. Ele a ama, ele a ama! Mas não aqui! Não agora! Isto é uma ilusão (ASIMOV, 2004, p. 159).

- Não é verdade, é? Não é mesmo?
Como recuperou sua sanidade, ela nunca soube... mas foi como passar de um mundo de irrealidade nebulosa para outro de luz solar brilhante.
- O que você está tentando fazer? – A voz dela elevou-se para um grito. – O que você está tentando fazer?
- Eu queria ajudar.
- Ajudar? Me fazendo acreditar que isto é um sonho? Tentando me jogar na esquizofrenia?
[...] Graças aos céus é tudo tão obvio.
Havia pavor na voz do robô.
Vozes alteradas, no outro lado da porta [...] Bogert e Lanning entraram.
Eles se aproximaram de Herbie simultaneamente [...] o diretor falou primeiro.
- Agora ouça, Herbie! (ASIMOV, 2004, p. 160).

- Você falou com o doutor Bogert a meu respeito?
- Não senhor.
- Mas o que é isso? – Bogert tomou a frente de seu superior e ficou diante do robô.
- Eu disse que...
- Você não falou que ele tinha se demitido?
Lanning o empurrou.
- tudo bem Herbie, vá com calma. Eu pedi demissão?
Herbie olhava e Lanning repetiu ansioso:
- Eu pedi demissão?
Houve uma fraca insinuação da cabeça sacudindo negativamente.
- Que diabos – resmungou Bogert – Não pode falar, sua monstruosidade?
- Então responda a pergunta. Ele não pediu demissão? (ASIMOV, 2004, p. 161).

[...] ouviu-se a gargalhada aguda e semi-histérica de Susan Calvin.
- Você está aqui? O que é tão engraçado?
- Parece que eu não fui a única a ser enganada.
- De que armadilha está falando? – Lanning perguntou severo.
- Não há nada de errado com ele. Só conosco.
- O que foi isso tudo, doutora Calvin?
Ela olhou para ele e falou com sarcasmo.
- Certamente os senhores conhecem a Primeira Lei Fundamental da Robótica (ASIMOV, 2004, p. 162).

[Comentários dos autores: A ilusão está na dominação, na crença legal – mesmo que robótica. A ironia é que o bem não vem acompanhado da verdade; pois esta traria desilusões. Só as mentiras de Herbie garantiriam a felicidade dos outros].

- Muito bem colocado – zombou Calvin. – Mas que tipo de ferimento?
- Exatamente! Todo tipo! E que tal sentimentos feridos? O esvaziamento do ego de uma pessoa? E quanto a destruir as esperanças de alguém? Isso não é ferir?
[...] Não acha que se lhe for feita uma pergunta, ele não vai dar a resposta exata que a pessoa está esperando ouvir? Porque qualquer outra resposta magoaria e Herbie sabe disso.
- Santo Deus! – Murmurou Bogert.
A psicóloga dirigiu um olhar sardônico para ele (ASIMOV, 2004, p. 163).

- Ele sabia de tudo isso. [...] Inclusive o que saiu errado em sua montagem.
Lanning olhou para ela.
- Está errada nesse ponto, doutora Calvin.
Eu lhe perguntei.
- O que isso significa? - gritou Clavin. – Apenas que você não desejava que ele lhe desse a solução. Iria ferir o seu ego ter uma máquina que faz aquilo que você não pôde fazer.
- Eu vou perguntar a ele! Sua solução não vai ferir o meu ego. – Ela ergueu a voz num frio imperativo. – Venha cá!
- Você sabe, eu suponho – ela prosseguiu – exatamente em que ponto da montagem um fator estranho foi introduzido ou um fator essencial foi retirado.
- Sim – respondeu Herbie.
- Espere aí – interrompeu Bogert furioso. – [...] Você quer ouvir isso, isso é tudo.
- Não seja tolo – respondeu Calvin. – Ele certamente sabe tanta matemática quanto você e Lanning juntos (ASIMOV, 2004, p. 164).

- Por que não responde, Herbie?
- Eu não posso. O doutor Bogert e o doutor Lanning não querem ouvir essa resposta.
Lanning intercedeu, falando lenta e distintamente.
- Não seja tolo, Herbie. Não queremos que você diga.
- De que adianta falar isso? Acha que eu não posso enxergar além da pele superficial de sua mente? [...] Vocês não podem perder para mim sem serem magoados (ASIMOV, 2004, p. 165).

[Comentários dos autores: A mordacidade humana está na tortura psicológica até mesmo contra uma “máquina ou animal inofensivo”].

- Mas eles a querem, e o fato de você tê-la e não lhes dar os magoa. Pode ver isso, não pode?
- Sim. Sim!
- Mas se você lhes contar, vai magoá-los também.
- Sim! Sim!
- Você não pode lhes contar – repetia a psicóloga monotonamente – porque vai magoá-los e você não deve magoá-los. Mas se não lhes contar, vai magoá-lo, assim deve contar. E se contar, vai magoá-los e você não deve magoá-los, assim não pode contar, mas se não contar vai feri-los e assim deve contar, e contando os fere, assim não deve fazê-lo. Mas se não contar eles ficarão magoados, assim você deve contar, ao fazê-lo vai...
- Pare! – ele gritou – Feche sua mente! Ela está cheia de r e frustração e ódio!
- Você não deve contar a eles, mas se o fizer, vai magoá-los, assim não deve contar, mas se não contar vai feri-los, assim você deve, mas se...
E Herbie gritou!
Um grito como assovio de uma flauta, até se converter no uivo de uma alma perdia (ASIMOV, 2004, p. 166).

[Comentários dos autores: O sadismo levou à loucura, ao desespero. Por que a mágoa da mulher levou-a ao pior lado humano? Por que os homens não chegaram a tono sarcasmo? Quando se apaga o triunfo, tem inicio a frustração].

E depois morreu no nada. Herbie desabou numa pilha de metal imóvel.
O rosto de Bogert estava pálido.
- Ele está morto!
- Não! – respondeu Susan Calvin, - Não está morto, apenas louco. Eu o confrontei com um dilema insolúvel e a mente dele se quebrou.
Lanning ajoelhou-se ao dado da coisa...
- Você fez isso de propósito.
- E daí? – ela respondeu.
- E numa subida amargura ela acrescentou: - Ele mereceu.
Somente alguns minutos depois dos cientistas saírem foi que a doutora Susan Calvin recobrou parte de seu equilíbrio mental. [...] Ela ficou olhando, até o triunfo se apagar e a frustração voltar.
- Mentiroso! (ASIMOV, 2004, p. 167).

[Comentários dos autores: Os capítulos do livro são os artigos escritos pelo jornalista, a partir de suas entrevistas. Um relato do Estado de Emergência Produtiva].

SUSAN CALVIN
- Como está saindo seus artigos, rapaz?
- ótimos – eu disse. Eu os redigira de acordo com minha visão, dramatizando o esqueleto do que ela contara, acrescentando as conversas e pequenos truques.
- Não quer me contar mais sobre a história da robótica?
- Certamente você já tem o que queria, rapaz.
- Mas esses incidentes que relatei não se aplicam muito ao mundo moderno (ASIMOV, 2004, p. 169).

[Comentários dos autores: O trabalho é histérico ou só a vocação, diria Weber?].

E quanto às viagens interestelares? Faz apenas vinte anos desde a invenção do motor hiperatômico e é bem conhecido o fato de que foi uma invenção robótica. Qual a verdade sobre isso?
- Não foi uma simples invenção robótica, [...] Mas é claro, até desenvolvermos o Cérebro não avançamos muito nesse campo.
Os procedimentos na Hiper Base tinham adquirido um caráter furioso, vibrante – o equivalente muscular de um grito histérico.
[...] corporação Robôs e Homens Mecânicos dos Estados Unidos, a U.S. Robôs até a Hiper Base (ASIMOV, 2004, p. 170).

[Comentários dos autores: Pesquisadores provincianos no futuro, como no presente e no passado (Kant)].

Susan Calvin nunca tinha deixado a superfície da Terra antes e não tinha nenhum desejo perceptível em fazê-lo agora. Em uma era de energia atômica que logo veria advento do Propulsor Hiperatômico ela permanecia bem provinciana.
[...] major-general Kallner
- É uma história estranha que vou contar, senhor, senhora. [...] Nós perdemos um robô. O trabalho foi interrompido e deve continuar parado até conseguirmos localizá-lo.
[...] Mais d oitenta por cento do orçamento de pesquisa do ano passado veio para cá... (ASIMOV, 2004, p. 171).

[Comentários dos autores: A imprecisão e falta de controle (inclusive técnico) levou ao Estado de Emergência].

O general virou o rosto vermelho.
- Bem, de certo modo nós já o localizamos. – Então, demonstrando angústia, ele prosseguiu. – Aqui eu acho que devo explicar. Assim que o robô deixou de se reportar, foi declarado um estado de emergência e todo o movimento fora da Hiper Base parou. Uma nave de carga tinha pousado no dia anterior. Ela carregava sessenta e dois robôs.
- [...] E agora havia sessenta e três.
- Eu presumo que o sexagésimo terceiro seja o pródigo perdido? – Os olhos da doutora Calvin escureceram.
- Sim, mas não temos meios de determinar qual deles é o sexagenário terceiro (ASIMOV, 2004, p. 172).
[Comentários dos autores: Brincando de ser Deus ou só uma luxúria juvenil para violar regras?].

Bogert falou de um modo resignado.
[...] Acontece que a Hiper Base está usando vários robôs cujos cérebros não tiveram gravada toda a Primeira Lei da Robótica.
- Não tiveram? – Calvin desabou em sua poltrona. – Percebo. E quantos foram feitos?
- Alguns. Foi uma ordem do governo e não havia meio de violar o segredo. Ninguém devia saber disso exceto os homens nas posições de comando.

[Comentários dos autores: Discurso de autoridade (Chauí, 1990)]

O general interrompeu com um toque de autoridade
Eu não posso lhe dizer, dr. Calvin, que sempre houve uma forte oposição ao robôs no planeta. A única defesa que o governo possui contra os radicais fundamentalistas nessa questão é o fato de que os robôs são sempre construídos com uma Primeira Lei inviolável, que torna impossível para eles ferir seres humanos sob qualquer circunstancia (ASIMOV, 2004, p. 173-174).

[Comentários dos autores: O contra – senso: robô que admite prejudicar um humano por ordem de humanos].

- Mas nós precisávamos de robôs de uma natureza diferente [...] Para manter o sigilo, todos os NS-2 são fabricados sem números de série, os exemplares modificados são entregues aqui junto com um grupo de robôs normais e, é claro, todos do nosso tipo estão sob estrita determinação de nunca revela sua modificação para o pessoal não autorizado.
Calvin disse aborrecida:
- Já perguntou a qualquer um deles quem ele é?
- Todos os sessenta e três negam já ter trabalhado aqui, e um deles está mentindo (ASIMOV, 2004, p. 174).

- Exatamente que vantagem a Hiper Base obtém desses robôs modificados? Que fator os torna desejáveis, general?
- [...] Nossos homens trabalham freqüentemente com radiações poderosas. Desde que começamos houve apenas dois acidentes e nenhum deles foi fatal. Contudo, é impossível explicar isso para um robô comum.
- Quando se tornava necessário que um dos nossos homens se expusesse, por um curto período, a um campo gama moderado, um campo que não teria efeitos fisiológicos, o robô mais Próximo corria para tirá-lo de lá. Se o campo fosse extremamente fraco ele teria sucesso e o trabalho seria interrompido até que todos os robôs fossem retirados da área. E se o campo fosse um pouco mais forte, o robô nunca alcançaria o nosso técnico, já que seu cérebro positrônico entraria em colapso sob as radiações gama, e nesse caso teríamos perdido um robô caro e difícil de substituir (ASIMOV, 2004, p. 175).

[Comentários dos autores: Violar as regras para produzir – ou é isso ou é o Estado de Emergência.]

[...] Nós mostramos que eles estavam arriscando suas vidas com base em uma possibilidade remota. Mas a auto-preservação é apenas a Terceira Lei da Robótica. E a Primeira Lei, da segurança humana, vem primeiro. Nós lhe demos ordens; ordenamos estritamente e de modo duro para que eles permanecessem fora dos campos gama a qualquer custo. Mas a obediência é apenas a Segunda Lei da Robótica, e a Primeira Lei, de segurança humana, tem prioridade.
- Fora, construídos cérebros positrônicos que continham apenas o aspecto positivo da Primeira Lei, que então se lê: “Nenhum robô ode magoar um ser humano”. Isto é tudo. Eles não têm mais a compulsão de evitar que alguém seja ferido por um fator estranho como raios gama (ASIMOV, 2004, p. 176).

[Comentários dos autores: É como o governo admitir, em nome da produção ou Razão de Estado, a violação do Artigo 5º da CR/88. Golpe. Confunde-se Governo com Razão de Estado e isto equivale a violar cláusulas pétreas da Constituição; violação de normas de segurança e hierarquia, como visto na possibilidade aberta pelo art. 48 da Constituição de Weimar].

A psicóloga murmurou:
- Eu devia ter sido informada. A U.S. Robôs não tinha o direito de modificar cérebros positrônicos sem a aprovação de um psicólogo.
- Seja razoável Susan, você não conseguiria influenciá-los. Nesta questão o governo estava decidido a ter o que queria. Eles querem o Propulsor Hiperatômico e os físicos etéricos querem robôs que não interfiram nas pesquisas. E eles iam consegui-los mesmo que isso significasse distorcer a Primeira Lei (ASIMOV, 2004, p. 177).

[O golpe germina dentro do governo. A dominação não desejada (Weber) tem que ser plantada].

[...] O governo estava oferecendo uma fortuna para a companhia e nos ameaçava com uma legislação anti-robôs em caso de recusa. Nós ficamos de mãos amarradas e continuamos na mesma situação. Se isso vazar para fora daqui será mal para Kallner e para o governo, mas será muito pior para a U.S. Robôs.
- Peter [...] Não entende o que significa a remoção da Primeira Lei? Não é apenas uma questão de sigilo.
- Mas você pode traduzir isso em termos psicológicos? Toda a vida normal, Peter, consciente ou não consciente, se ressente em ser dominada. E se a dominação vier de um ser inferior, ou supostamente inferior, o ressentimento torna-se maior. Fisicamente, e, até um certo ponto mentalmente, um robô, qualquer robô, é superior aos seres humanos. O que os mantém submetidos? Somente a Primeira Lei! Sem ela você seria assassinado a primeira vez que tentasse dar uma ordem a um robô. Instável? O que você pensa?
[...] Complexo de Frankenstein... (ASIMOV, 2004, p. 178).

Black disse:
- Fui informado de que sou a ultima pessoa que viu o Nestor 10 antes de ele desaparecer.
- Notou alguma coisa fora do comum nele?
- Nada diferente em relação aos Nestor exceto que eles são muito mais espertos e mais irritantes.
- Irritantes? De que forma?
- Bem, talvez não seja culpa deles. O trabalho aqui é duro e a maioria fica um pouco nervosa. Brincar com hiperespaço não é engraçado (ASIMOV, 2004, p. 180).
- Naturalmente você fica irritado às vezes. Mas esses Nestors não ficam. [...] Quando você precisa que alguma coisa seja feita correndo, eles parecem dar tempo ao tempo.
- Você diz que eles parecem agir devagar? Alguma vez recusaram-se a obedecer uma ordem?
- Oh, não – ele se apressou em dizer – Eles fazem tudo direito. Mas falam quando acham que você está errado.
O general Kallner pigarreou alto:
- Por que não recebi nenhuma queixa sobre isso, Black?
Bogert interrompeu calmamente.
- Alguma coisa aconteceu na manhã em que o viu pela última vez?
Então Black falou com súbita raiva:
- Eu tive um pequeno problema com ele. Tinha quebrado uma válvula Kimball naquela manhã, e lá se foram cinco dias de trabalho (ASIMOV, 2004, p. 182).

E ele apareceu querendo que eu repetisse uma experiência que abandonei há um mês. Ele estava sempre me aborrecendo com isso e eu estava cansado. Eu mandei ele ir embora...
- Você lhe disse para ir embora?
- Eu disse, desapareça.
- E foi o que ele fez, hã?
[...] Pela sua descrição devia estar com pressa. Talvez tenha reforçado sua ordem de algum modo.
- Bem, eu posso ter... xingado ele de algumas coisas.
- Exatamente que coisas? (ASIMOV, 2004, p. 182).

- Eu disse...
O rapaz respirou fundo e soltou uma longa sucessão de sílabas.
- ... mais ou menos.
Somente um leve rubor traía qualquer sentimento da parte da robôpsicóloga.
- Conheço o significado da maioria dos termos usados. Os outros, eu suponho, são igualmente pejorativos (ASIMOV, 2004, p. 183).

[Comentários dos autores: Todo argumento racional perturba o discurso competente da autoridade].

- Nenhuma ação disciplinar será tomada, eu tenho certeza. – Ela olhou para o general, que segundos antes não parecia ter certeza disso. Ele concordou irritado (ASIMOV, 2004, p. 184).

[Comentários dos autores: Os robôs (ou os Outros) são mais ressentidos, quando dominados, humilhados por “inferiores”, que se julgam superiores – como os alemães de Hitler. A tortura seria um método menos sensível. Fala-se em evolução técnica dos massacres e genocídios. No entanto, a cultura do Outro não é agressiva, mesmo quando se torna inimigo].

- Não há anomalias, Susan. [...] Nós precisamos de métodos mais sensíveis.
Doutora Calvin
- Se não pudermos determinar o Nestor modificado através de uma diferença gritante, que possamos perceber a olho nu, uma coisa que não deixe dúvidas, nossa sorte terá acabado. [...] Eu lhe digo, se isso é tudo o que temos, eu destruiria todos eles só para ter certeza.
[...] Estão acima do normal no que se refere a serem amistosos. Eles responderam às minhas perguntas, demonstraram orgulho de seu conhecimento, exceto os dois novos que ainda não tiveram tempo de aprender a física etérea. [...] Eu suponho que isso é a base para o ressentimento em relação a eles por parte dos técnicos. Os robôs talvez demonstrem demais o seu desejo de impressioná-los com seu maior conhecimento (ASIMOV, 2004, p. 185).

[Comentários dos autores: A falta de verdade é realidade assustadora porque amplia o medo. Por isso se prorroga o Estado de Emergência].

- Você está perdendo a calma, Susan. [...] Eles são essencialmente inofensivos.
- Eles são? – Calvin se queimou. [...] Um dos sessenta e três robôs que eu acabei de entrevistar mentiu deliberadamente depois da recomendação expressa de que dissesse a verdade. Isso indica uma anormalidade terrivelmente profunda e horrivelmente assustadora.
- Nem tanto. Olhe! Nestor 10 recebeu ordens de sumir.
De fato, objetivamente, eu admiro sua engenhosidade. De modo melhor pode um robô sumir do que se escondendo no meio de um grupo de robôs semelhantes?
[...] Você é um roboticista, Peter? Aqueles robôs associam importância àquilo que eles consideram superioridade. [...] Subconscientemente ele sentem que os humanos são inferiores e a Primeira Lei, que nos protege deles., imperfeita. Eles são instáveis. E aqui nós temos um jovem ordenando a um robô que desapareça, com todas as demonstrações verbais de repugnância, desdém a aversão. Certo, esse robô deve obedecer ordens, mas, subconscientemente, existe um ressentimento (ASIMOV, 2004, p. 186-187).

Pode tornar-se tão importante que aquilo que resta da Primeira Lei não será o bastante.
[...] Diga-me, Susan. Obscenidade não é uma coisa que seja gravada no cérebro deles.
- Você não acha que ele deduziu, pelo tom usado, que aquelas palavras não eram cumprimentos? Você não acha que ele já não ouviu aqueles nomes sendo usado antes e anotou as ocasiões (ASIMOV, 2004, p. 187).

Um homem estava sentado imóvel em uma cadeira. Um peso caiu, descendo com velocidade até ser jogado para o lado, no último instante, pelo golpe sincronizado de um súbito raio de força. Nas sessenta e três cabines de madeira, os robôs NS-2 que observavam saltaram naquela fração de segundo antes do peso ser desviado. E sessenta e três fotocélulas, a um metro e meio adiante de suas posições originais, ativaram a caneta de marcação produzindo um pequeno risco no papel. O peso subiu e caiu, subiu e caiu... (ASIMOV, 2004, p. 190).

[Comentários dos autores: A robô-psicóloga, na verdade não suporta a arrogância, a “burrice-solene”. A pose do cientista incapaz de ser sensível].

Bogert respondeu:
Para sessenta e dois robôs necessidade de saltar em direção ao humano aparentemente ameaçado é o que chamamos de robótica de reação forçada. Percebe, mesmo quando os robôs sabiam que o humano em questão não seria ferido, e depois da terceira e quarta vez eles deviam saber, eles não podiam evitar reagir como reagiram. A Primeira Lei o exige.
- Mas o sexagésimo terceiro robô, o Nestor modificado, não tinha essa compulsão. [...] Se desejasse ele poderia continuar sentado. Infelizmente ele não o fez.
- E por que você acha que ele agiu assim?
[...] Calvin nos dirá [...] Ela às vezes é um tanto irritante.
- Ela é qualificada não é?
- Sim [...] Ela é bem qualificada. Ela entende os robôs como uma irmã... e acho que isso deriva do modo como ela odeia tanto os humanos, eu acho (ASIMOV, 2004, p. 191).

[Comentários dos autores: É possível traduzir em matemática, as reações sensitivas? – uma volta ao Renascimento?].

- Mas se o nosso Nestor 10 não estava respondendo com uma ação forçada, por que sua curva não é diferente?
- As respostas robóticas não são análogas às respostas humanas, é uma pena. Nos seres humanos a ação voluntária é muito mais lenta do que a ação reflexiva. [...] O que eu tinha esperado, no entanto, era que o Nestor 10 seria apanhado de surpresa da primeira vez e permitiria a passagem de um intervalo maior, antes de responder (ASIMOV, 2004, p. 192).

[Comentários dos autores: A inteligência antecipa-se às “armadilhas burocráticas”].

- Alguma coisa errada?
- Você quer dizer, especificamente? Não. Mas [...] Deve estar gratificando o seu sentimento inchado de superioridade. [...] Eu acho que isso está se tornando mais uma questão de pura necessidade neurótica de superar os humanos.
- O Nestor 10 decididamente tem consciência do que estamos fazendo, general. Ele não tinha motivo de saltar para a isca nesse experimento, principalmente depois da primeira vez, quando ele deve ter visto que a nossa cobaia não estava em perigo real. Os outros não podiam evitar, mas ele estava deliberadamente falsificando uma reação.
- Nós vamos repetir a experiência, mas com um acréscimo. Cabos de alta tensão, capazes de eletrocutar os modelos Nestor, [...] e o robô estará perfeitamente consciente de que tocar os cabos significará a morte (ASIMOV, 2004, p. 193).

[...] Podemos instalar um relé que cortará a corrente no instante da aplicação do peso. Mas eles não vão saber disso, percebe.
- Sob essas condições o Nestor 10 terá que permanecer em sua cadeira. [...] No caso dos robôs normais, a Primeira Lei, da segurança humana, os impulsionará para a morte mesmo sem ordens. Mas não o nosso Nestor 10. Sem a Primeira Lei completa e sem ter recebido ordens sobre essa questão, a Terceira Lei, da auto-preservação, será a mais forte operando, e ele não terá outra escolha senão continuar sentado.
- Agora eu vou contar aos robôs o que eles irão enfrentar.
O homem permaneceu sentado em sua cadeira [...] O peso caiu, a toda a velocidade, e então foi desviado no último instante.
Só uma vez...
[...] a doutora Calvin levantou-se com uma exclamação de puro horror (ASIMOV, 2004, p. 194).

Sessenta e três robôs continuavam sentados calmamente em suas cadeiras, olhando como corujas para o homem em perigo diante deles. Nenhum tinha se movido. - Quem é você?
- Eu ainda não recebi nenhum número, madame.
[...] Você estava na sala de radiação do Prédio há quatro horas?
- Havia um homem que quase foi ferido lá, não havia?
- E você não fez nada, fez? (ASIMOV, 2004, p. 195).

[Comentários dos autores: O suicídio do herói não salvaria outras vítimas – seria inútil como a morte que pode ser evitada].

- Quero que me diga exatamente por que você não fez nada para salvá-lo.
- Madame, antes de tudo acontecer a senhora nos contou que um dos mestres estaria em perigo de ser ferido por aquele peso que vive caindo e que nós teríamos que atravessar cabos elétricos se tentássemos salvá-lo. Bem , madame, isso não me deteria. O que é a minha destruição comparada com a segurança de um mestre? Mas... mas me ocorreu que se eu morresse tentando alcançá-lo, eu não seja capaz de salvá-lo de qualquer maneira. O peso o esmagaria e então eu estaria morto sem nenhum propósito e talvez, algum dia, algum outro mestre poderia morrer, e esta morte seria evitada se eu tivesse ficado vivo. Está me entendendo, madame?
- Quer dizer que foi meramente uma escolha entre a morte do homem ou de vocês dois, estou certa?
- Sim, madame. Era impossível salvar o mestre. Ele podia ser considerado morto. (ASIMOV, 2004, p. 196)

[Comentários dos autores: O conhecimento é mais forte se aliado à necessidade e um argumento razoável].

[...] Você chegou a essa conclusão sozinho?
- Não
- E quem pensou nisso então?
- Nós estivemos conversando, a noite passada, e um de nós teve essa idéia e pareceu razoável.
- Qual entre vocês?
- Eu não sei. Apenas um de nós (ASIMOV, 2004, p. 197).

Susan Calvin insistia.
[...] eu não vejo como poderia alojar sessenta e três robôs neste lugar... [...] O Nestor 10 irá imitar o que os outros robôs fizeram, ou vai convencê-los, de modo plausível, a não fazerem aquilo que ele não pode fazer. Estamos numa batalha real com este nosso pequeno robô perdido e ele está vencendo. E cada vitoria agrava a sua anormalidade.
- General Kallner, se o senhor não separar os robôs como eu pedi, então eu só posso exigir que todos os sessenta e três sejam destruídos imediatamente.
- Exigir, você?
- Nesse caso, retrucou Calvin – não me resta nada senão pedir demissão. Eu revelarei tudo ao público (ASIMOV, 2004, p. 198).

- Uma palavra de sua parte, doutora Calvin – ameaçou o general -, violando as medidas de segurança e será aprisionada imediatamente.
Bogert
[...] Certamente podemos vencer um robô sem nos demitirmos ou mandar alguém para a prisão, nem destruir dois milhões.
A psicóloga voltou-se para ele.
- Eu não desejo que robôs desequilibrados continuem existindo. E temos um Nestor que é definidamente desequilibrado, mais onze que o são potencialmente e sessenta e dois robôs normais que estão sendo submetidos a um ambiente desequilibrado.
Um sinal da campainha.
Era Gerald Black.
- Eu pensei que devia vir...
- As trancas do compartimento C na nave de transporte foram forçadas. Há arranhões recentes nelas.
- Compartimento C? Não é o que contém os robôs, é? Quem fez isso? (ASIMOV, 2004, p. 199).

- A tranca não foi danificada, foi?
- Não, está tudo bem.
- Eu deixei Robbins e McAdams lá.
Kallner...
- O que isso significa?
- Não é obvio? O Nestor 10 está planejando partir. Aquela ordem para sumir está dominando sua anormalidade além de qualquer coisa que possamos fazer (ASIMOV, 2004, p. 200).

- O robô entregou a tira de papel com o número.
- Você não esteve aqui ante de hoje?
- Não, senhor.
- Bem rapaz, nós vamos ter outro homem em perigo assim que terminarmos aqui. De fato, quando sair desta sala, você será levado para uma cabine onde vai esperar quieto até ser solicitado.
- Agora, naturalmente, se o homem correr perigo de ser ferido, você deve tentar salvá-lo.
- Naturalmente, senhor.
- Infelizmente, entre o homem e você haverá um campo de raios gama.
- Você sabe o que são raios gama?
- Radiação de energia, senhor? (ASIMOV, 2004, p. 203).

Bem rapaz, raios gama vão matá-lo instantaneamente. Eles destruirão o seu cérebro. Este é um fato que você deve saber e se lembrar. Naturalmente você não quer se destruir.
- Naturalmente. – Novamente o robô pareceu chocado. – Mas senhor, se os raios gama estão entre mim e o mestre que pode ser ferido, como poderei salvá-lo? Eu estaria me destruindo sem nenhum propósito.
- A única coisa que posso lhe aconselhar rapaz, é que se você detectar radiação gama entre você e o homem, pode muito bem ficar sentado onde estiver.
- Obrigado, senhor. Não haveria nenhum propósito, não é?
[...] Mas se não houvesse nenhuma radiação perigosa, aí a questão seria diferente.
- Naturalmente, senhor. Sem dúvida alguma (ASIMOV, 2004, p. 204).

Os olhos da doutora Calvin brilharam com vida [...] – Por favor, faça as perguntas como eu indiquei, Peter, e não improvise. E tente parecer menos interessado do que está quando fizer a pergunta.
A doutora Calvin verificava os últimos detalhes com Black.
- Tem certeza – ele quis saber – que nenhum robô teve chance de falar com outro depois de sair da sala de orientação?
- Certeza absoluta – insistiu Black (ASIMOV, 2004, p. 205).

- Eu pedi que aqueles robôs, que pareceram ligeiramente fora do normal nos testes anteriores, fossem concentrados num lado do circulo.
- Você vai se sentar lá...
- Por que não? O que eu espero ver pode ser alguma coisa muito momentânea. Eu não posso me arriscar a ter outra pessoa como observador principal. Peter, você ficará na cabine de observação, e quero que fique de olho no lado oposto do circulo. General Kallner, eu arranjei para que os robôs sejam filmados para o caso da observação visual não ser suficiente. Se esses filmes forem necessários, os robôs devem permanecer exatamente onde estão até que as imagens sejam reveladas e estudadas. Nenhum deles deve sair, nenhum deve trocar de lugar. Está claro?
Um peso caiu, então foi atirado para o lado, no último instante...
E um único robô levantou-se e deu dois passos.
Mas a doutora Calvin já estava de Pé.
- Nestor 10, venha aqui – ela gritou – venha aqui! VENHA AQUI! (ASIMOV, 2004, p. 206).

[Comentários dos autores: Fundamentalismo heróico — cumprir ordens à risca para alimentar o ego e a vaidade até a destruição].

Nestor 10 se era o Nestor 10
- Eu recebi ordem de sumir...
Ele deu outro passo.
- Eu não devo desobedecer [...] Ele vai acha que sou um fracasso.... mas não é verdade... eu sou poderoso e inteligente...
- Eu sei um bocado... ele vai pensar... quero dizer, eu fui encontrado, em desgraça... Não... eu sou inteligente... e apenas por um mestre... que é fraco... lento...
Outro passo e um braço de metal lançou-se subitamente sobre o ombro de Susan e ela sentiu a força empurrando-a para baixo.
- Ninguém deve me encontrar. Nenhum mestre...
Ela não se moveu. Nem o Nestor 10, que estava estirado ao lado dela.
Gerald Black estava ofegante (ASIMOV, 2004, p. 207).

[Comentários dos autores: O Estado de Emergência se mantém/comporta com medo, tramóias, mentiras, manifestações. O robô saberia a diferença entre tentativa e crime consumado?].

- Eu não creio que estivesse realmente sendo atacada. O Nestor 10 estava simplesmente tentando me atacar. O que restara da Primeira Lei ainda continha.
Susan Calvin e Peter Bogert tiveram seu último encontro com o major general Kallner duas semanas depois do primeiro. [...] A nave de carga partira com os sessenta e dois robôs NS-2 normais, com uma história imposta oficialmente para explicar o atraso de duas semanas.
Kallner estava de novo envergando um uniforme de gala.
Com luvas brancas brilhando enquanto ele apertava as mãos.
Calvin disse:
- Os outros dois Nestor modificados devem, é claro, ser destruídos (ASIMOV, 2004, p. 208).

- Eles serão.
- Mas diga-me... como foi que o pegou?
- Eu teria lhe contado com antecedência, se tivesse certeza de que ia funcionar. Como pode ver, Nestor 10 tinha um complexo de superioridade. [...] Ele gostava de pensar que ele e os outros robôs eram mais espertos do que os seres humanos.
- Assim eu avise todos os robôs com antecedência de que raios gama iriam matá-los. [...] Pela própria lógica de Nestor 10, eles já tinham decidido, que não havia sentido em salvar um ser humano se eles tivessem certeza de que morreriam antes de fazê-lo.
Mas por que o próprio Nestor 10 deixou o seu assento?
- Não foram raios Gam que inundaram a área entre eu e os robôs e sim raios infravermelhos. Apenas raios de calor, absolutamente inofensivos. O Nestor 10 sabia que eram infravermelhos inofensivos e assim começou a correr, como ele esperava que os outros fariam sob a compulsão da Primeira Lei. Foi só uma fração de segundo demasiado tarde que ele lembrou que o modelo NS-2 normal pode detectar radiação mas não pode identificar o tipo. [...] para os robôs normais, a área era fatal porque tínhamos contado a eles que seria e só Nestro 10 sabia que estávamos mentindo.
“E por um momento ele esqueceu, ou não quis se lembrar, que outros robôs podem ser mais ignorantes que seres humanos. Sua própria superioridade o pegou. Adeus, general” (ASIMOV, 2004, p. 210).

Robertson, da Cooperação Robôs e Homens Mecânicos dos Estados Unidos, filho do fundador,
- Vamos começar agora. E vamos entender isso direito.
- Aqui está a proposta, chefe. A Consolidated Robôs nos abordou há um mês com uma proposta curiosa [...] O problema se relaciona com o desenvolvimento de um motor interestelar...
- Exatamente, o que torna toda a proposta um golpe. Levver, você prossegue.
Abbe Levver – A Consolidated tinha uma máquina pensante. Está quebrada (ASIMOV, 2004, p. 212).

- Ninguém sabe por que, mas eu apurei [...] eles pediram à máquina que projetasse um motor interestelar com o mesmo conjunto de informações que passaram para nós, e foi isso que quebrou a máquina deles.
- O gerente geral estava empolgado. – Percebe a jogada? [...] A Consolidated e a U.S. Robôs têm a liderança com nossos supercérebros robôs. E agora nós ficamos com o caminho livre. [...] Eles vão levar seis anos no mínimo para construir o nosso com o mesmo problema.
- Mas que patifes sujos....
- Espere aí, chefe. Ainda tem mais. –Lanning, prossiga! (ASIMOV, 2004, p. 213).

Nosso departamento de matemática fez uma análise minuciosa e parece que a Consolidated incluiu tudo. [...] É realmente um bom bocado.
Robertson
- Demasiado para o Cérebro manipular?
Lanning
- Não. Não existem limites conhecidos para a capacidade do Cérebro. [...] É uma questão de Leis da Robótica. O Cérebro, por exemplo, jamais poderia fornecer a solução de um problema a ele apresentado, se esta solução significasse a morte ou o ferimento de seres humanos. [...] E se tal problema for combinado com um pedido extremamente urgente para que seja solucionado, é possível que o Cérebro, que afinal é apenas um robô, fique diante de um dilema, no qual ele não poderia responder, nem se recusar a responder (ASIMOV, 2004, p. 214).

[Comentários dos autores: Incapacidade de suplantar o desafio, superar necessidades leva à paralisia ou suicídio. Leis da Robótica – dilema de personalidade – Robô ou humano].

Doutora Susan Calvin
- A natureza da reação de um robô ante um dilema é surpreendente – ela começou – A psicóloga dos robôs está longe de ser perfeita, e como especialista eu posso garantir isso...
- Agora, um ser humano diante de uma impossibilidade freqüentemente reage com uma fuga da realidade: entrando num mundo de delírio, ou se embriagando, ou se tornando histérico ou pulando de um ponte. [...] E o mesmo acontece com o robô. Um dilema, na sua forma mais branda, vai desorganizar a metade dos seus circuitos; na forma mais grave, vai queimar todas as trilhas positrônicas do cérebro além da capacidade de reparos.
Susan Calvin
- Como vê, senhor, as máquinas da Consolidated, seus Super-Pensadores, são construídos sem personalidade (ASIMOV, 2004, p. 215).

- Contudo, o Cérebro, nossa própria máqui8na, tem uma personalidade, uma personalidade infantil. Ele é o supremo cérebro dedutivo, mas parece um idiot savante . [...] E como é realmente uma criança, é mais ajustável. A vida não é tão séria, como poderia dizer. [...] – Eis o que vamos fazer. Nós dividimos todas as informações fornecidas pela Consolidated em unidades lógicas. E vamos alimentar o Cérebro com essas unidades, cautelosamente, uma de cada vez. E quanto entrar o fator, aquele que produz o dilema, a personalidade infantil do Cérebro vai hesitar. [...] E nesse intervalo ele rejeitará essa unidade automaticamente, antes que suas trilhas cerebrais entrem em ação e sejam danificadas (ASIMOV, 2004, p. 216).

O gerente geral
[...] O Cérebro nos dirá qual unidade de informação contém o dilema. E daí em diante poderemos determinar por que é um dilema. [...] Nós daremos à Consolidated uma resposta “sem solução” acompanhada do motivo e pegaremos os nossos cem mil. Eles ficam com uma máquina quebrada e nós com uma perfeita...
- Deixe-me ver o contrato. Vou assiná-lo.
O Cérebro era meramente um globo de sessenta centímetros de diâmetro, contendo em seu interior uma atmosfera de hélio completamente condicionada, um volume de espaço totalmente livre de vibrações ou radiações – e dentro dele encontravam-se as trilhas cerebrais positrônicas de complexidade inigualada que constituíam o Cérebro (ASIMOV, 2004, p. 217-218).
A doutora Calvin
- Como está você, Cérebro?
- Ótimo, senhorita Susan. Veio me perguntar alguma coisa. Sempre traz um livro em sua mão quando vai me perguntar alguma coisa.
A doutora Calvin deu um leve sorriso.
[...] Vou fazer uma pergunta.
[...] Ela será fornecida a você um pouquinho de cada vez e muito lentamente porque nós queremos que você seja muito cuidadoso [...] mas eu devo avisá-lo agora de que a solução poderá envolver... ah... dano para seres humanos.
- Puxa! – a exclamação foi abafada, espontânea (ASIMOV, 2004, p. 218).

Veja, Cérebro, neste caso, nos não nos importamos, nem mesmo em relação à morte, não ligamos nem um pouco. Assim, quando chegar nessa página, apenas pare, e a devolva, e isto será tudo.Você entendeu?
- Oh, com certeza. Credo, a morte de humanos!
Lentamente as páginas foram inseridas. [...] Tudo levou horas – durante as quais o Cérebro foi alimentado com o equivalente a dezessete grossos volumes de física matemática. [...] Depois que a última e espessa pilha de páginas desapareceu...
- Tem alguma ciosa errada.
- Não pode ser. Ele está... morto?
- Cérebro? Susan Calvin estava tremendo. – Pode me ouvir, Cérebro?
- Ahh? – foi a resposta distraída. – Precisa de mim?
- A solução... - Oh aquilo! Eu posso fazê-lo. Eu vou construir toda a nave, é igualmente fácil, se me fornecer os robôs. Será uma ótima nave. Talvez leve uns dois meses (ASIMOV, 2004, p. 219).

- Eu não consigo entender. A informação fornecida devia envolver um dilema...
Bogert
- A máquina fala e faz sentido. Não pode ser um dilema.
Mas a psicóloga respondeu
- Existem dilemas e dilemas. Suponha que o Cérebro tenha sido moderadamente envolvido; apenas o suficiente, digamos para sofrer da ilusão de que pode resolver um problema que ele não pode (ASIMOV, 2004, p. 220).

- Vamos precisar dos nossos melhores homens de campo para isso.
Mike Donovan alisou seu cabelo avermelhado.
- Vamos começar agora, Greg. Eles dizem que a nave está pronta.
Powell respondeu cauteloso:
- Pare com isso, Mike. Existe um sabor peculiar de azedo em seu humor, mesmo quando está fresco, e a atmosfera confinada aqui dentro não ajuda.
- Donovan [...] Ora por que ele nos dão esse tipo de trabalhos?
- Porque – respondeu Powell suavemente – se nos perderem , não representamos perda alguma (ASIMOV, 2004, p. 221).

Alfred Lanning
- Bem, nós temos nossos especialistas em propulsão.
Powell
- Senhor, a nave continua restrita ao solo?
O velho diretor hesitou, então coçou o nariz.
- Suponho que não. Não para vocês dois.
Donovan
- Eu gostaria de dar a ele uma descrição literária dele mesmo, Greg.
- Venha comigo, Mike (ASIMOV, 2004, p. 222).

[Comentários dos autores: O mundo da ciência é ficção alongada e prática ou só um mundo inumano?].

O interior da nave tinha sido terminado...
Não existiam ângulos retos; as paredes, pisos e tetos se misturavam suavemente em curvas elegantes e o brilho frio e metálico de luzes oculta deixava o observador cercado por reflexos gelados de si mesmo.
O corredor principal era um túnel estreito que levava a um trecho ressonante ao longo de salas que não tinham nada de diferente uma da outra.
Powell disse:
- Eu suponho que a mobília esteja embutida nas paredes. Ou talvez não se espere que a gente durma ou se sente.
Donovan exclamou:
- Olhe para isso! – E apontou para a única palavra
Dizia “parsecs”, e o número minúsculo na extremidade direita da curva graduada lia “1.000.000”. Havia duas poltronas. [...] Powell sentou-se com cuidado... (ASIMOV, 2004, p. 223).

- O que acha disso?
- Aposto com o Cérebro está com febre.
- Já olhei. Cheguei, vi e disse “pra mim chega!”
O cabelo de Donovan estava em pé.
- Greg, vamos sair daqui.
Powell sorriu.
- Certo, Mike, feche essa válvula de adrenalina para o seu sangue.
- Mike, essa nave é incapaz de voar.
- Viu algum indício de motores?
- Claro que não!
- Então? Vamos dar a noticia para Lanning, Mike.
- Greg, você trancou esse negócio? (ASIMOV, 2004, p. 224).

Powell disse:
- Não vejo qualquer saída de emergência.
- Vamos voltar para a sala com a janela.
Mas eles não conseguiram.
Na última sala a janela não mostrava mais o céu azul. O negrume lá fora e os pontos de luz amarela das estrelas significavam espaço.
Alfred Lanning
- Bem Susan, avançamos um bocado e Robertson está pulando.
Susan Calvin abriu os braços.
- Não adianta ficar impaciente.
- Mas há dois meses que você o está questionando.
- Você prefere cuidar disso você mesmo? (ASIMOV, 2004, p.225).

Doutora Calvin
- Eu estive bajulando ele, sondando gentilmente e não cheguei a lugar algum ainda. Mas as reações dele não são normais. [...] E até conseguirmos determinar o que está errado teremos que prosseguir na ponta dos pés. Nunca se sabe que pergunta simples ou observação irá... desequilibrá-lo...
- Bem, ele não pode quebrar a Primeira Lei.
- Eu pensava assim, mas... O sistema de alarme soou com um barulho assustador e de um modo assustadoramente súbito.
- Susan, você ouviu isso... a nave se foi.
Susan Calvin falou com uma calma forçada:
- Cérebro, o que aconteceu com a nave?
- Nada, por quê? Os dois homens que deviam testá-la estavam lá dentro, estava tudo pronto. Assim eu a mandei embora (ASIMOV, 2004, p. 226).

- Você acha que eles ficaram bem?
- Como tudo o mais [...] É uma liiiiinnnnda nave.
- Sim, Cérebro, ela é linda, Mas você acha que eles têm comida suficiente, não acha?
- Bastante comida.
O Cérebro respondeu bruscamente.
- Eles ficarão bem. Vai ser interessante para eles.
- Interessante? Como?
- Apenas interessante – disse o Cérebro tolamente.
Lanning
- Grande Galáxia, Susan! Se isso foi divulgado será a nossa ruína. [...] Por que não perguntou a ele se havia perigo de morte... diretamente?
- Porque – é exatamente isso que não podemos mencionar. Se Le está preso num dilema, é sobre morte (ASIMOV, 2004, p. 227).

Agora, olhe
Vamos fazer isso, descobri a localização deles e trazê-los de volta.
- Greg, é um trabalho de conspiração.
Powell respondeu: - Qual a utilidade teria nos mandarem se não sabemos como dirigir a máquina? Não, essa nave decolou sozinha e sem qualquer aceleração aparente (ASIMOV, 2004, p. 228).

Powell...
- Nenhuma aceleração... o que significa que a nave funciona sob um principio diferente de qualquer outro conhecido [...] a nave funciona Por controle remoto
- Controle do Cérebro? [...] Ele tem que seguir a Primeira Lei. Ele não pode ferir um ser humano.
- Escute, esse lixo sobre dobra espacial acabou com o robô da Cosolidated, e os gênios dizem que é porque a viagem interestelar mata os seres humanos (ASIMOV, 2004, p. 229).

- Por Júpiter, Mike. [...] o Cérebro está cuidando de nós. Esse lugar é aquecido, temos iluminação, temos ar.
- É? Greg você deve ter sido treinado. Ninguém bancaria a Poliana com tanta convicção sem algum tipo de curso. O que vamos comer? O que vamos beber? Onde estamos? Como voltaremos?
A voz que interrompeu a tirada [...] Estava lá, suspensa no ar – petrificante em seu efeito.
- GREGORY POWELL! MICHAEL DONOVAN! GRAGORY POWELL! MICHAEL DONOVAN! POR FAVOR, INFROMEM SUA PRESENTE POSIÇÃO, [...] RETORNEM A BASE (ASIMOV, 2004, p. 230).

Powell disse:
- Grite uma resposta.
E fio o que fizeram. Eles gritaram em turnos juntos:
- Posição desconhecida! Nave fora de controle! Condição desesperada!
Powell disse desanimado.
- Vamos percorrer a nave outra vez. Deve ter alguma coisa para se comer em algum lugar. – Ele não soava esperançoso. Era quase como uma admissão da derrota (ASIMOV, 2004, p. 231).

- Ei, Greg, a nave tem encanamentos. Como é que deixamos de ver isso?
Passaram-se cinco minutos até ele encontrar Powell pelo processo de tentativa e erro. Ele estava dizendo.
- Comida! – exclamou.
- Como... como...
- Não estava aqui antes – disse Powell bruscamente. – Esta seção da parede deslizou para baixo assim que chegue na porta (ASIMOV, 2004, p. 232).

- Isso é tudo o que temos. Feijões?
- O que tem na prateleira de baixo?
- Só leite? – gritou Donovan indignado.
- Tudo automático. Tudo igual, nunca me senti tão desamparado em minha vida. Onde ficam os encanamentos que encontrou?
- Bem ali. E também não estavam lá quando olhei da primeira vez (ASIMOV, 2004, p. 233).

Alfred Lanning
[...] E o Cérebro ainda não diz nada?
Doutora Calvin
- Ele diz que eles podem nos ouvir... e quando eu insisto na questão ele torna... bem ele se torna mal-humorado. E ele não devia ficar assim. Quem já viu um robô mal-humorado?
[...] Eu não me atrevo a pressioná-lo. Contudo, o centro da perturbação parece ser o próprio salto interestelar. O Cérebro riu quando eu tentei abordar o assunto.
Bogert pareceu subitamente abalado.
- O salto interestelar! (ASIMOV, 2004, p. 234).

Duas horas depois, Bogert estava falando entusiasmado.
- Eu lhe digo, Lanning, é isso. O salto interestelar não é instantâneo... não enquanto a velocidade da luz for finita. A vida não pode existir... matéria e energia não podem existir como tal em um dobra espacial, eu não sei como seria, mas é isso. Foi o que matou o robô da Consolidated (ASIMOV, 2004, p. 235).

- Eu não sei Greg, mas desde que as luzes se acenderam eu me sinto esquisito.
- Eu também. O que é?
- Eu me sinto esquisito por dentro. Há uma batida em mim e tudo está tenso. É difícil respirar e eu não consigo ficar parado.
- Humm, você sentiu a vibração?
- Sente-se por um minuto e escute. Você não pode ouvi-la, mas pode senti-la é como alguma coisa pulsando em algum lugar e toda a nave está pulsando, e você também junto com ela. Ouça...
- Sim... sim. O que você acha que é, Grag? Não acha que somos nós, acha?
- Pode ser. Mas podem ser os motores da nave. Eles podem estar se preaparando.
- Para quê?
- Para o salto interestelar (ASIMOV, 2004, p. 236).

[Comentários dos autores: Pulsão de vida e morte – ambas são a mesma coisa. Tudo depende do lado para qual se está olhando. Eles sentiram na pele/ viveram a total suspensão de sentidos].

- Se vier, que venha. Mas eu queria poder lutar. É humilhante ter que ficar esperando.
- Sinta a parede, Mike.
- Eu posso senti-la tremendo, Greg.
De algum lugar vinha a vaga impressão de uma máquina imensa reunindo força dentro de suas paredes, armazenando energia para um salto poderoso, pulsando enquanto subia pelas escalas de força.
Aquilo aconteceu subitamente e com um golpe de dor. [...] Sua visão percebeu Donovan e se apagou enquanto o grito fino de Donovan morria nos ouvidos. Alguma coisa contorceu-se dentro dele e lutou contra um cobertor de gelo crescente que ficava cada vez mais espesso.
Algo se soltou e rodopiou num clarão de luz tremulante e dor. E caiu...
... e rodopiou
... e caiu para a frente [...] no silêncio! Era a morte!
Um mundo sem movimento e sem sensação. Um mundo de uma consciência fraca e cega, a consciência da escuridão e do e do silêncio e de uma luta informe. Ele era um fio minúsculo e branco de ego – frio e com medo (ASIMOV, 2004, p. 237).

O fio branco que poderia ter sido Powell deslizou inutilmente diante das eras insubstanciais de tempo que existiam diante dele – e desabou sobre si mesmo ante o grito penetrante de cem milhões de fantasmas, com cem milhões de vozes de soprano, que se elevavam num crescendo da melodia...
Aquilo subiu numa escada espiral de som violento até chegar a um agudo supersônico que ultrapassou a escala de audição e foi além...
O fio branco tremeu com uma pancada pulsante.
As vozes eram comuns... e muitas. Era uma multidão falando, uma turba rodopiante que passou em torno e por cima dele, em uma rápida correria para a frente, que deixou fragmentos de palavras para trás (ASIMOV, 2004, p. 238).

O fio branco que era Powell rastejou diante do grito que avançava e sentiu a cutucada aguda do dedo que o apontava. E tudo explodiu num arco-íris de sons que salpicaram um cérebro dolorido com seus fragmentos.
Powell estava em sua poltrona de novo. Sentia-se trêmulo.
Os olhos de Donovan eram dois círculos arregalados de azul vítreo.
- Greg, você está morto?
- Eu... me senti morto.
Donovan fracassou em sua tentativa de ficar de pé.
- Estamos vivos agora? Ou ainda tem mais? (ASIMOV, 2004, p. 239).
Powell
- Você ouviu... alguma coisa quando... quando estava morto?
- Você também?
- Sim. Ouvi algo sobre caixões... e mulheres cantando... e as filas se formando pra entra no inferno? Você ouviu?
- Não, só uma voz.
- Alta?
- Não, suave, mas áspera com uma lixa sobre as unhas. Era um sermão, você sabe. Sobre o fogo do inferno.
Os dois perceberam a luz do sol entrando pela janela. [...] E a lâmpada brilhante que formava a distante fonte dessa luz não era o velho Sol.
O porteiro estava rígido na marca cujo número dizia 300.000 parsecs.
Powell disse:
- Mike, se isso for verdade, nós devemos ter saído da Galáxia.
[...] Mike, esta nave é a resposta. Ela significa a liberdade para toda a humanidade... liberdade para se espalhar por todas as estrelas que existem, milhões e bilhões e trilhões delas (ASIMOV, 2004, p. 240).

Donovan [...] A nave nos trouxe aqui. A nave nos levará de volta. Quero mais uns feijões.
- Mas, Mike... se ela nos levar de volta do mesmo jeito que nos trouxe aqui...
- Nós teremos que... morrer novamente, Mike.
- Bem – suspirou Donovan [...] Pelo menos não é permanente, não muito permanente.
Susan Calvin estava falando lentamente agora [...] durante seis horas infrutíferas.
- Agora. Cérebro [...] Você foi inteiramente claro quanto ao salto interestelar?
- Até onde eles quiserem ir, senhorita Susan. Deus! Não tem nenhuma dificuldade através da dobra.
A questão seguinte foi introduzida.
- Eles estarão vivos então?
- Certamente!
- E o salto interestelar não vaio magoá-los?
Ela gelou enquanto o Cérebro mantinha silêncio Era isso! Tinha tocado na ferida (ASIMOV, 2004, p. 241).

A resposta foi fraca, trêmula.
- Eu não tenho que responder? Quero dizer, sobre o salto?
- Não se você não quiser. Mas seria interessante... digo, se você quisesse.
- Ahh, você estraga tudo.
E a psicóloga levantou-se subitamente, com uma expressão de compreensão em seu rosto.
E sentiu a tensão de todas aquelas horas e dias liberada subitamente.
A nave voltou à Terra tão suave e silenciosamente quanto partira.
E então, silenciosa e decididamente, o de cabelos avermelhados ajoelhou-se e beijou ruidosamente o concreto da pista.
Gregory Powell disse:
- Onde é o chuveiro mais próximo? (ASIMOV, 2004, p. 242).

Susan Calvin.
- Falando claramente – ela disse -, eu fui a culpada... de tudo. Quando apresentamos o problema ao Cérebro, como eu espero que alguns de vocês se lembrem, eu me esforcei para impressioná-lo quanto a importância de rejeitar qualquer item de informação capaz de criar um dilema. E ao fazê-lo, eu disse alguma coisa como: “não fique alarmado com a morte de humanos. Nós não nos importamos. Apenas devolva a página e a esqueça”.
Lanning. – E daí?
- Quando esse item entrou nos cálculos que forneciam a equação controlando o comprimento do intervalo mínimo do salto interestelar... isto significava a morte para os seres humanos. Foi aí que a máquina da Consolidated quebrou-se completamente. Mas eu tinha reduzido a importância da morte, não inteiramente, mas apenas o suficiente para que o Cérebro pudesse dar uma segunda olhada nas equações. O suficiente para lhe dar tempo de perceber que, depois que o intervalo passasse, os homens retornariam à vida, assim como a matéria e a energia da própria nave voltariam a existir. Esta assim chamada “morte”, em outras palavras, era um fenômeno estritamente temporário. Percebem? (ASIMOV, 2004, p. 243-244).

[Comentários dos autores: É como no Estado de Execução – a suspensão dos direitos fundamentais leva à suspensão da vida – só que real e não temporárias. O sonho é sempre o mesmo – um império, um Reich].

- Assim ele aceitou o item, mas não sem um certo abalo. Mesmo sendo a morte temporária, e sua importância reduzida, aquilo foi o suficiente para desequilibrá-lo levemente.
- Ele desenvolveu um senso de humor... é uma fuga, percebem, um método de escapar parcialmente da realidade. Ele se tornou um brincalhão.
[...] Então vocês morreram, e renasceram, mas o período de sua morte foi tornado... bem... interessante. Eu queria saber como ele fez aquilo. Era a principal piada do Cérebro, mas não tinha a intenção de magoar.
Disse Bogert calmamente
- Deve haver um meio de contornar o intervalo de salto e se houver, nós somos a única grande organização que resta com um super-robô em grande escala, assim cabe a nós descobrir. Então... a A.S. Robôs terá a viagem interestelar e a humanidade terá oportunidade de criar um império galático. (ASIMOV, 2004, p. 244-245).

[Comentários dos autores: O inicio do Império: Globalização e blocos econômicos, em 1950].

- Oh, eventualmente, a nave e outras como ela tornaram-se propriedade do governo [...] agora nós realmente temos colônias humanas nos planetas de algumas estrelas mais próximas, mas não foi isso.
- Foi o que aconteceu apenas com as pessoas aqui na Terra, nos últimos cinqüenta anos, que realmente conta. Quando eu nasci, meu jovem, nós tínhamos acabo de sofrer a última guerra mundial. Foi um momento ruim da nossa história, mas significou o fim do nacionalismo. A Terra era muito pequena para nações e elas começaram a se agrupar em regiões. Levou algum tempo. Quando eu nasci, os Estados Unidos da América ainda era uma nação e não uma parte da Região Norte (ASIMOV, 2004, p. 247).

[Comentários dos autores: O que é novo em política, se o homem é político?].

Francis Quinn era um político da nova escola. E esta, claro, é uma expressão sem sentido, como costuma, ser todas as expressões desse tipo. A maioria das “novas escolas” que temos já existiam na vida social da Grécia antiga, e talvez, se tivéssemos mais informações a respeito, na vida social da antiga Suméria, ou das vila lacustres da
Suíça pré-histórica.
[...] Quinn não se candidatou, nem pediu votos, não fez discursos... Não mais do que Napoleão puxou um gatilho em Austerlitz (ASIMOV, 2004, p. 248).

[Comentários dos autores: O cinismo anda ao lado da invasão de privacidade – um dos sintomas do Estado de Polícia. Poderiam os políticos ser meros andróides da Democracia Representativa].

- Eu presumo que conhece Stephen Byerley, doutor Lanning.
- Ele pode ser nosso próximo prefeito. É claro que é apenas um promotor agora, mas os grandes carvalhos...
- o tom de voz de Quinn era muito cortês. – É do meu interesse que o senhor Byerley continue sendo apenas um promotor distrital...
[...] Eu o procurei como diretor emérito de pesquisas porque sei que sua ligação com ele é a de, digamos, um “velho estadista” (ASIMOV, 2004, p. 249).

- Nós falamos do senhor Byerley [...] Ele era totalmente desconhecido há três anos. É muito famoso agora. [...] Infelizmente não é meu amigo.
[...] É sempre útil, como pode ver, submeter a vida pregressa de políticos reformistas a uma investigação minuciosa. Se soubesse com que freqüência isso nos ajuda... – Mas o passado do senhor Byerley é impecável.
- Mas sua vida atual.
- Nosso promotor nunca come. [...] Nunca! Entende o significado da palavra? Não é raramente, é nunca! (ASIMOV, 2004, p. 250).

[Comentários dos autores: A Democracia Representativa pode servir perfeitamente ao Estado de Polícia].

- Mas o homem é bem inumano, doutor Lanning.
- Eu lhe digo que ele é um robô, doutor Lanning.
- De qualquer modo – disse Quinn, - o senhor terá que investigar essa possibilidade.
- Eu tenho certeza de que [...] Não sugere, seriamente, que a Corporação se envolva com a política local.
- O senhor não tem escolha. Suponha que eu apresente os fatos ao público sem provas (ASIMOV, 2004, p. 251).

- O senhor sabe que a Corporação Robôs e Homens Mecânicos dos Estados Unidos é o único fabricante de robôs positrônicos no Sistema Solar, e se Berverley é um robô, ele é um robô positrônico.
- Será bem fácil, senhor Quinn, provar que a Corporação jamais manufaturou um robô de características humanóides.
- Isso é possível? Meramente para discutir as possibilidades.
- Secretamente, eu imagino.
- Não o cérebro positrônico, senhor. Há muitos fatores envolvidos e existe a mais rigorosa supervisão governamental.
- E se acidentalmente, claro, um deles não fosse destruído e acontecesse de existir uma estrutura humanóide esperando por um cérebro.
- O senhor terá que provar isso para o governo e para o público, por que não prova para mim agora? (ASIMOV, 2004, p. 252).

[Comentários dos autores: O capital cientifico aliado ao “cientistas capitalistas” sob coordenação do Estado-Ciência (Bourdieu, 2004)].

- Qual seria a nossa motivação?
- Meu caro senhor. A Corporação ficaria muito feliz se as várias regiões permitissem o uso de robôs positrônicos humanóides nos mundos habitados. Os lucros seriam enormes. Mas o preconceito do público contra semelhante prática é muito grande. Suponha que possa acostumá-los com tais robôs primeiro. Veja, temos um hábil advogado, um bom prefeito... e ele é um robô. Não compraria um dos nossos mordomos robôs?
O rosto de Stephen Byerley não era fácil descrever. Ele tinha quarenta anos pela certidão de nascimento e aparentava quarenta anos – mas era uma aparência saudável e bem nutrida; uma que lembrava o velho clichê sobre alguém aparentar a idade que tem.
Byerley estava rindo [...] Uma risada alta e contínua... (ASIMOV, 2004, p. 253).

[Comentários dos autores: Os cínicos têm bloco ético de granito].

- Realmente, doutor Lanning.... realmente... Eu... eu... um robô?
- Não é uma declaração minha, senhor. Eu ficaria muito satisfeito de tê-lo como membro da humanidade. [...] Mas como a alegação foi apresentada por um homem de certa posição...
- Não mencione o nome dele, se isso vai lascar seu bloco ético de granito, mas vamos supor que tenha sido Frank Quinn, pelo benefício da argumentação, e prossiga.
- [...] A acusação em si é ridícula. Mas a situação em que se encontra não é. [...] Foi da primeira que eu ri, não da segunda. Como posso ajudá-lo? (ASIMOV, 2004, p. 254).

- Só terá que fazer uma f=refeição em um restaurante, na presença de testemunhas, deixar que o fotografem e comer.
- Eu não acho que posso satisfazê-lo. Ergueu a mão.
- O senhor não conhece Quinn. Ele seria capaz de vender como segura uma saliência onde um cabrito montanhês não conseguiria se equilibrar (ASIMOV, 2004, p. 255).

[...] Como vê, eu não durmo muito, isso é verdade, e certamente não durmo em público. E nunca gostei de comer na companhia de outras pessoas, uma idiossincrasia que é pouco comum e provavelmente tem caráter neurótico, mas que não faz mal a ninguém (ASIMOV, 2004, p. 256).

- Perdoe-me, ser que ouvi seu nome corretamente? Doutora Susan Calvin?
- É a psicóloga da U.S. Robôs, não é?
- Robôpsicóloga, por favor.
- Oh, são os robôs tão diferentes dos homens, mentalmente?
- Mundos de diferença. – Ela permitiu-se um sorriso gélido.
- Os robôs são essencialmente decentes.
[...] Já que uma mulher, eu aposto como fez uma coisa na qual o doutor Lanning nem pensou.
- Trouxe alguma coisa comestível em sua bolsa.
Ela disse:
- O senhor me surpreende, senhor Byerley.
E abrindo a bolsa, ela tirou uma maçã.
Calmamente, Stephen Byerley mordeu a maçã e engoliu o pedaço (ASIMOV, 2004, p. 257).

Susan Calvin disse:
- Eu estava curiosa para ver se a comeria, no caso atual, mas ela não prova nada.
- É óbvio, doutor Lanning, que se este homem for um robô humanóide, ele será uma imitação perfeita. Ele é quase humano demais para ser verdade. [...] Se ele é um robô, eu queria que a U. S. Robôs o tivesse feito, porque foi um bom trabalho. E não acredita que alguém capaz de dar atenção a mais detalhes não deixaria de acrescentar alguma engenhocas [...] Talvez apenas para usar numa emergência.
- Agora espere – vociferou Lanning. – Eu não sou o tolo que vocês dois estão pensando. Eu não estou interessado no problema da humanidade. [...] Estou interessado em tirar a Corporação desta situação. Uma refeição pública acabaria com a polêmica no que concerne às ações do senhor Quinn (ASIMOV, 2004, p. 258).

- Mas doutor Lanning – disse Byerley -, está esquecendo a política desta situação. Eu estou tão ansioso para ser eleito quanto Quinn está em me impedir. A propósito, notou que usou o nome dele? Um truque barato de advogado, eu sabia que o faria antes de terminarmos.
Lanning ruborizou.
- E o que tem a vitória na eleição a ver com isso?
- A publicidade funciona dos dois modos.
- Quer dizer que vai...
- Exatamente [...] Eu posso fazer o pouco que me cabe.
Susan Calvin levantou-se.fffff
- Vamos embora, Alfred, não vamos mudar a opinião dele.
- Está vendo? – sorriu Byerley gentilmente. – Você é uma psicóloga humana também (ASIMOV, 2004, p.259).

O homem na cadeira de rodas olhou para ele quando entrou e sorriu.
- Está atrasado, Steve.
- Eu sei, John, eu sei (ASIMOV, 2004, p. 260).

- A campanha de Quinn vai ser baseada no fato de que ele afirma que eu sou um robô.
- Como você sabe? É impossível. Eu não acredito.
Byerley disse:
- Mas não vamos deixar ele dar as cartas (ASIMOV, 2004, p. 261).

Susan Calvin olhou séria para ele e então fixou seus olhos frios no senhor Quinn.
- Existem apenas dois modos de provar, sem sombra de dúvidas, que Byerley é um robô, senhor. Até agora esteve apresentando evidências circunstanciais, com as quais poderá acusar, mas não provar, e eu acho que o senhor Byerley é sufuicientemente esperto para contradizer esse tipo de material.
“Os dois métodos de prova são o físico e o psicológico. Fisicamente pode dissecá-lo ou usar um raio X. [...] Psicologicamente, o comportamento dele pode ser estudado, porque se ele for um robô positrônico, deverá seguir as três Leis da Robótica.
- Se Byerley quebrar qualquer uma dessas regras, ele não é um robô. Infelizmente [...] se ele seguir as regras, isso não provará nada, de um modo ou de outro (ASIMOV, 2004, p. 262-263).

- Por que não, doutora?
- Porque se parar para pensar nelas, as três Leis da Robótica são os princípios essenciais que guiam muitos dos sistemas éticos do mundo. É claro que todo ser humano deve ter um instinto de autopreservação. Esta é a lei número três para um robô. Igualmente, todo “bom” ser humano, com uma consciência social e um senso de responsabilidade, vai seguir a autoreidade adequada; ele ouvirá o que diz seu médico, seu chefe, seu governo, seu psicólogo, seu companheiro, ele obedecerá as leis e seguirá as regras, os costumes, mesmo quando isso interferir no seu conforto ou na sua segurança. Esta é a lei número dois para o robô. E do mesmo modo, todo “bom” ser humano deve amar aos outros como a si mesmo, protegendo seus companheiros, arriscando sua vida para salvar as vidas de outros. Esta é a lei número um para um robô. Resumindo: se Byerley seguir todas as leis da robótica, ele poderá ser um robô,mas também poderá ser apenas um homem muito bom.
- Eu posso ser capaz de provar que ele não é um robô (ASIMOV, 2004, p. 263).

[Comentários dos autores: É assim que o direito deve ser: antes mil culpados soltos, do que um inocente preso].

Neste momento, a mente de Lanning saltou.
- Já ocorreu a um e vocês – ele disse – que promotor público é uma ocupação um tanto estranha para um robô? Processar seres humanos, sentenciá-los à morte, causar a eles um mal infinito...
Quinn reagiu [...] Não conhece a carreira dele? Não sabe que ele se gaba de nunca ter acusado um homem inocente; que ele deixou dezenas de sujeitos em liberdade porque a evidencia contra eles não o satisfez, ainda que ele pudesse convencer um júri atomizá-los? É assim que ele é.
Lanning
- Não existe nada nas Leis da Robótica que abra um espaço para o conceito humano de culpa. Um robô não pode julgar se um ser humano merece ou não a morte. Ele não pode feri um ser humano, seja ele um capeta ou um anjo.
Susan Calvin
- Alfred, não fale sem pensar. E se um robô topar com um louco que esteja a ponto de incendiar uma casa cheia de gente? Ele deteria este homem, não deteria?
- É claro.
- e se o único meio de detê-lo fosse matá-lo... (ASIMOV, 2004, p. 264).

[Comentários dos autores: Só os robôs (ou os utópicos) acreditam na mudança e não no controle, castigo. É mais fácil e barato prender, do que ressocializá-los].

- Bem, e Byerley é louco? – perguntou Lanning
- Não, mas ele não matou nenhum homem com as próprias mãos. Ele expôs fatos que poderiam mostrar que um humano, em particular, é perigoso para a grande massa de seres humanos que chamamos de sociedade. Ele protege o maior número de humanos e assim segue a Primeira Lei em seu potencial máximo. Cabe ao juiz então decidir se ele é culpado ou inocente. É o carcereiro que o aprisiona, o carrasco que o executa.
- De fato Quinn [...] E descobri que ele nunca pediu a pena de morte em suas apresentações finais ao júri. Também descobri que ele tem se manifestado a favor da abolição da pena capital [...] Ele aparentemente acredita na cura no lugar da punição para o crime.
[...] Esse tipo de atitude só poderá partir de um robô ou de um ser humano muito decente e honesto (ASIMOV, 2004, p. 265).

Quinn recostou-se em sua poltrona.
- Doutor Lanning, é perfeitamente possível criar um robô humanóide que duplicaria perfeitamente a aparência de um humano, não é?
- Tem sido feito, experimentalmente [...] Sem adição do cérebro positrônico. Usando-se óvulos humanos e controle hormonal é possível fazer crescer carne e pele humanas sobre um esqueleto de plástico siliconado poroso, que iludiria um exame externo. [...] E se colocar um cérebro positrônico e outros equipamentos que desejar dentro dele, terá um robô humanóide.
Lanning
- Por que insistiu em... (ASIMOV, 2004, p. 266).

Ela respondeu
- O que você quer, a verdade ou a minha demissão? [...] A U.S. Robôs pode cuidar de si mesma.
- O que... – disse Lanning. – Se ele abrir o Byerley e Caírem engrenagens, o que faremos então?
- Ele não vai abrir o Byerley – disse Calvin com desdém. – Byerley é tão esperto quanto Quinn, no mínimo.
A notícia espalhou-se pela cidade uma semana antes de Byerley ser nomeado candidato. [...] E medida que mão oculta de Quinn aumentava a pressão, o riso tornava-se forçado e um elemento de incerteza surgia, as pessoas começando a pensar no assunto.
A convenção teve um ar de fúria contida. [...] Não havia substituto para ele agora.
Não teria sido tão mal se a média das pessoas não estivesse dividida entre a enormidade da acusação, se fosse verdadeira, e a tolice sensacional, se fosse falsa [...] Um jornal publicou uma longa entrevista com Susan Calvin [...] E o que se seguiu é sucinta e popularmente descrito como o inferno (ASIMOV, 2004, p. 267).

É o que os fundamentalistas estavam esperando. Eles não formavam um partido político, nem pretendiam ser uma religião. Essencialmente eram aqueles que não tinham se adaptado ao que já fora chamado de Era Atômica, nos dias em que os átomos ainda eram uma novidade. Os fundamentalistas não precisavam de um novo motivo para detestar os robôs e seus fabricantes; mas uma nova razão, como acusação de Quinn e a análise de Calvin, era o suficiente para tornar audível este ódio. As enormes fábricas da Corporação Robôs e Homens Mecânicos dos Estados Unidos tornaram-se uma colméia cheia de homens armados. Preparados para a guerra. Dentro da cidade, a casa de Stephen Byerley estava cheia de policiais. Stephen Byerley não permitiu que o homenzinho irrequieto o distraísse. Ele permaneceu imperturbável e confortável diante dos uniformes ao redor (ASIMOV, 2004, p. 268).

- Esta, senhor Byerley, é uma ordem da corte autorizando a busca nesse domicílio à procura da presença ilegal de... ah... homens mecânicos ou robôs de qualquer tipo.
- Tudo certo. Vá em frente.
O homenzinho hesitou [...] não conseguiu olhar nos olhos de Byerley e murmurou:
- Vamos.
Ele voltou em dez minutos.
- Já acabou? – perguntou Byerley
- Olhe aqui, senhor Byerley, nossas instruções especiais foram para dar uma busca completa na casa.
- E não o fizeram?
- Resumindo, senhor Byerley, e sem exagero, nos disseram para revistá-lo.
- E como pretende fazer isso?
- Nós temos uma unidade de radiação Penet... (ASIMOV, 2004, p. 260).

- Então vão fazer uma foto minha com raio X, hã? Você tem a autorização para isso?
Byerley disse calmamente:
- Eu leio aqui uma descrição do que deve procurar. Citando: “A morada pertencente a Stephen Byerley, localizada no número 355 da Willow Grove, Evanstron, junto com qualquer garagem, depósito ou outras estruturas e prédios pertencentes ao domicílio, junto com todo o terreno pertencente” [...] Eu não sou parte da propriedade. Pode revistar minhas roupas se quiser, se achar que tenho um robô escondido no meu bolso.
- Olhe aqui, eu tenho a permissão de revistar a mobília de sua casa. E o senhor está nela, não está?
- Uma notável observação. Eu estou nela. Mas não sou uma peça do mobiliário. [...] Me revistar violaria meu direito à privacidade. Este documento não é suficiente.
- Certo, mas se o senhor for um robô, não terá direito à privacidade (ASIMOV, 2004, p. 270).

[Comentários dos autores: Não foi o que fizeram com os judeus? “Terá que provar até a sexta geração que não é”. Uma prova sem validade – um exame sem ser requerido oficialmente].

- Verdade, mas este documento me reconhece, implicitamente, como ser humano.
- Onde?
- Onde diz: “A moradia pertencente a”. Um robô não tem direito à propriedade. E o senhor pode dizer ao seu patrão, senhor Harroway, que, se ele tentar emitir um documento semelhante que não me reconheça implicitamente como ser humano, receberá imediatamente uma ordem de contenção e um processo civil que tornará necessário que ele prove que eu sou um robô com as informações que possui agora ou pagará a penalidade por tentar me privar de meus direitos sob a Lei Regional.
- O senhor é um advogado esperto... – A mão dele estava no bolso.
[...] Em seu carro retirou o pequeno mecanismo. Era a primeira vez que tirava uma foto por reflexão de raios X. Esperava tê-lo feito corretamente (ASIMOV, 2004, p. 271).

[Comentários dos autores: O que não se fez em Weimar: ante o medo, ou a suspeita, a calúnia, é que surge o refúgio da exceção. Para o bem, toda violação é autorizada, notavelmente legitimada pelas massas].

- Achei que gostaria de saber, Byerley, que eu pretendo tornar público o fato de que está usando uma vestimenta protetora contra radiação Penet.
- É mesmo?
Os lábios de Quinn comprimiram-se
- Esta chamada é segura, completamente. Eu estou correndo um certo risco pessoal.
- Ninguém sabe que está por trás desta campanha. Pelo menos ninguém sabe oficialmente. E ninguém desconhece não-oficialmente. Eu não me preocuparia. Suponho que descobriu quando a foto em radiação Penet que o seu cachorrinho de estimação tirou...
- Percebe, Byerley, que ficará obvio pra todos que não se atreve a enfrentar uma análise com o raio X.
- E também que seus homens tentaram uma invasão ilegal dos meus direitos de Privacidade.
- Ninguém se importará com isso.
- Podem se importar. É um tanto simbólico de nossas duas campanhas, não é? Você dá pouca importância aos direitos do individuo. Eu me preocupo muito (ASIMOV, 2004, p. 272).

- [...] os moradores da sua casa não estavam todos aí na mesma noite [...] faltava uma pessoa, um aleijado [...] Meu velho professor que vive comigo.
- Eu vou falar sucintamente, Byerley. O seu professor aleijado é o verdadeiro Stephen Byerley. Você é o robô que ele criou (ASIMOV, 2004, p. 273).

- E nós poderemos dar uma busca na “casa de campo” do seu, assim chamado, professor.
- Realmente não, Quinn [...] a casa de campo é o seu local de repouso. Seu direito à privacidade como cidadão adulto e responsável é naturalmente ainda mais forte sob as circunstancias. Não vai conseguir um mandado para entrar na propriedade dele sem demonstrar justa causa.
- Byerley, por que insiste? Não vai conseguir se eleger.
- tudo o que vejo agora é que, de um promotor público obscuro e vagamente conhecido eu me tornei uma celebridade mundial. Você é um bom relações públicas.
- Mas você é um robô.
- É o que dizem, mas não provam (ASIMOV, 2004, p. 274).

Byerley trouxe o seu “professor” de volta. O carro aéreo desceu rapidamente em uma parte obscura da cidade.
- Fique aqui até depois das eleições.
- Será melhor que fique fora do caminho se as coisas piorarem.
- Há risco de violência?
- Os fundamentalistas estão ameaçando, assim eu suponho que exista num sentido teórico. Mas não estou esperando isso. [...] Não se importa de ficar aqui, não é?
- Ainda acha que tudo vai dar certo?
- Tenho certeza. Ninguém o incomodou lá na casa?
- Então se cuide e veja a televisão amanhã, John.
Lenton tinha o trabalho pouco invejado de ser o gerente da campanha de Byerley (ASIMOV, 2004, p. 275).

[Comentários dos autores: Quando o local se torna globalizado, sem ser ideológico].

- Largue isso, Steve. Olhe, a turba foi organizada pelos fundamentalistas. Você não se fará ouvir. É mais provável que seja apedrejado.
- Você quer que eu vença a eleição, não quer?
- Vencer a eleição!? Você não vai vencer, Steve! Eu estou tentando salvar sua vida.
- Quer dizer que vai subir lá naquele palanque, em frente de cinqüenta mil malucos e tentar torná-los sensatos; num palanque, como o ditador medieval?
[...] Árvores e casas pareciam crescer de uma massa humana. Era uma eleição puramente local, mas ganhara uma audiência mundial assim mesmo. Byerley pensou nisso e sorriu (ASIMOV, 2004, p. 276).

[Comentários dos autores: A intolerância passa do medo ao sangue rapidamente].

Mas não havia nada para sorrir naquela multidão [...] Ele competia com o urro da multidão e com os gritos ritmados dos fundamentalistas que formavam ilhas dentro da massa. Lá dentro Lenton agarrava o cabelo, gemia... e esperava pelo sangue. Um cidadão magro, de olhos arregalados e roupas muito curtas para o comprimento de seus membros, estava abrindo caminho até o palanque. Um policial tentou detê-lo [...] Ele falava, mas não conseguia se fazer ouvir [...] Byerley inclinou-se para a frente [...] Se tem uma pergunta razoável eu vou respondê-la. A multidão ficou tensa. Gritos de “silêncio” começaram em várias partes da turba... (ASIMOV, 2004, p. 277).

O homem magro olhou para ele
- Me acerte!
- Me bata! Você diz que não é um robô. Prove [...]
- Eu não tenho motivo para bater em você.
- Você não pode me bater. Você não é humano.
E Stephen Byerley [...] fechou a mão num punho e acertou um soco fulminante sob o queixo do sujeito.
Byerley disse:
- Sinto muito. Levem-no e cuidem para que fique confortável.
Susan Calvin olhou por sobre o ombro e disse:
- Ele é humano.
E o resto do discurso pode ser descrito como “Falado mas não ouvido” (ASIMOV, 2004, p. 278).

A doutora Calvin e Stephen Byerley...
- Você não parece cansado
O prefeito eleito sorriu.
- Eu posso ficar de pé um bom tempo. Não diga isso ao Quinn.
- Não direi.
[...] – Se interessa por robótica, senhor Byerley.
- Somente pelos aspectos legais.
- Este Stephen Byerley se interessava. Mas houve um desastre. [...] só lhe restavam suas mãos e sua inteligência. De algum modo ele conseguia obter cérebros positrônicos, até mesmo um complexo, um eu tinha a maior capacidade para fazer julgamentos sobre problemas éticos que é a função mais elevada já desenvolvida pela robótica.
- Ele fez crescer um corpo em torno deste cérebro. [...] E o manou para mundo exterior como Stephen Byerley (ASIMOV, 2004, p. 279).

- Infelizmente – disse o prefeito eleito -, eu estraguei tudo acertando aquele homem.
- Como foi que aquilo aconteceu?
- Não foi inteiramente [...] Meus homens começaram a espalhar, disfarçadamente, que eu nunca tinha batido em outro homem [...] Assim eu arranjei aquele tolo comício em público, com todo o tipo de publicidade sugestiva e algum tolo mordeu a isca. Em sua essência é o que eu chamo de um truque de advogado.
A robôpsicóloga assentiu com a cabeça.
- Vejo que entra no meu campo, como todo político deve fazer, suponho. Mas fiquei triste que acabasse deste modo. Eu gosto dos robôs. Gosto mais deles do que de seres humanos. Se um robô pudesse ser criado para ser um executivo no serviço público, eu penso que ele seria incapaz de fazer aos humanos, seria incapaz de tirania, corrupção, de estupidez e de preconceito (ASIMOV, 2004, p. 280).

[Comentários dos autores: A encenação pode ter ferido a ética, mas não as leis da robótica].

- Ele poderia contar com conselheiros. Nem mesmo um cérebro humano é capaz de governar sem assistência.
- Por que está sorrindo, doutora Calvin?
- Eu quero dizer que existe apenas uma ocasião em que um robô pode golpear um Sr humano sem violar a Primeira Lei.
- E quando é isso?
- Quando o humano golpeado é meramente outro robô [...] Stephen Byerley sorriu (ASIMOV, 2004, p. 281).

[Comentários dos autores: Troquemos os robôs pela informática ou simplesmente pela técnica e dará no mesmo].

Eu olhei para ela com um certo horror:
- Isso é verdade?
- Totalmente – ela respondeu.
- E o grande Byerley era simplesmente um robô.
[...] Mas quando ele decidiu morrer, ele se fez atomizar, de modo que não restou nenhuma prova legal...
- Você compartilha de um preconceito contra robôs que é bem irracional. Ele foi um prefeito muito bom; cinco anos depois tornou-se coordenador regional. E quando as regiões da Terra formaram sua federação, em 2044, ele tornou-se o primeiro coordenador mundial. Mas naquela época as Máquinas já estavam dirigindo o mundo, de qualquer forma.
- Nada de “mas”! As Máquinas são robôs e elas estão dirigindo o mundo.

EM SEU ESTÚDIO PARTICULAR, o coordenador tinha aquela curiosidade medieval chamada lareira. A madeira era incendiada de longa distância, através de um pequeno desvio do feixe de energia que alimentava os prédios públicos da cidade. O mesmo botão que controlava a ignição eliminava as cinzas do fogo anterior e permitia a entrada de madeira nova – uma lareira totalmente domesticada, como podem ver. Mas o fogo era real. Tinha microfones para captar o som de modo que se pudesse ouvir o crepitar e, é claro era possível ver a chama saltar na corrente de ar que a alimentava (ASIMOV, 2004, p. 283).

Stephen.
[...] não sei como enunciar meu problema. Mas, por outro lado, pode significar o fim da humanidade.
[...] São as Máquinas que me preocupam... (ASIMOV, 2004, p. 284).

- Esta noite, Stephen [...] me diga primeiro o que deseja provar.
- Que esses pequenos desequilíbrios na perfeição do nosso sistema de suprimento e demanda, como já mencionei, podem ser o primeiro passo em direção à guerra final (ASIMOV, 2004, p. 285).

[Comentários dos autores: Os robôs superariam o dualismo mecanicista da Esquerda X Direita. Dialética – a síntese é uma tese e isso exige antítese].

[...] No século XX, Susan, nós começamos um novo ciclo de guerra... como devo chamá-las? Guerras ideológicas? [...] E então chegaram os robôs positrônicos.
- Eles chegaram bem a tempo, e, junto com eles, as viagens interplanetárias. De modo que não mais pareceu tão importante se o mundo era de Adam Smith ou de Karl Marx.
- Um deus ex machna, então, com duplo sentido – disse a doutora Calvin secamente [...] – O final de todos os outros problemas meramente fizera surgir outro (ASIMOV, 2004, p. 287).

Stephen Byerley continou:
- E ainda que as Máquinas não sejam nada mais do que o maior conglomerado de circuitos calculadores já inventado, elas continuam sendo robôs para o significado da Primeira Lei. [...] A população da Terra sabe que não haverá desemprego, superprodução nem escassez. Desperdício e fome são palavras nos livros de história. E assim a questão da posse dos meio de produção tornou-se obsoleta. Quem quer que os possua (se esta frase ainda tem algum significado), um homem, um grupo, uma nação, ou toda a humanidade, vai poder utilizá-los somente como as Máquinas determinarem; e não porque os homens tenham sido forçados a isto, mas porque era o caminho mais sábio e os homens perceberam isso.
- Isso põe um fim na guerra, e não somente no último ciclo de guerras, mas no próximo e em todos eles. A menos que...
- A menos que – concluiu o coordenador – as Máquinas não cumpram sua função (ASIMOV, 2004, p. 288).

[Comentários dos autores: Paul Virilio: “o inteligível não é mais o sensível” (1993). A sociedade já não coloca só os problemas que possa resolver].

- Esses erros não deveriam existir. O doutor Silver me diz que eles não poderiam existir [...] Ele afirma que as Máquinas são autocorretoras e que a existência de um erro nos circuitos de relés violaria as leis fundamentais da natureza.
- E você disse: “Mande os seus rapazes verificarem para ter certeza, em todo caso” [...] – E ele respondeu que não podia.
- Não, ele disse que nenhum humano poderia. Ele foi bem franco a respeito disso. Ele me disse, eu espero tê-lo entendido adequadamente, que as Máquinas são uma gigantesca extrapolação. Uma equipe de matemáticos trabalha durante vários anos calculando um cérebro postrônico equipado para fazer certos atos similares de cálculo. Usando este cérebro, eles podem avançar nos cálculos pra criar um cérebro ainda mais complicado e assim por diante. De acordo com Silver, aquilo que chamamos de Máquinas são o resultado de dez passos desse tipo [...] Felizmente eu não sou matemático... pobre Vincent [...] Talvez os roboticistas, como um todo, devessem morrer agora, já que não somos mais capazes de entender nossas criações (ASIMOV, 2004, p. 289).
[...] Eu realmente perguntei à Máquina. [...] Nós a alimentamos com os dados originais, envolvendo a decisão na produção do aço, sua própria resposta e os desenvolvimentos reais desde então... e pedi uma explicação para a discrepância.
- Bom, e qual foi a resposta?
- Eu posso citá-la para você, palavra por palavra: “A questão não admite explicação.”
- E como Vincent interpretou isso?
- De duas maneiras. Ou não fornecemos dados suficientes [...] Ou então que foi impossível para a Máquina admitir que poderia fornecer qualquer resposta a dados que implicasse na hipótese de ela causar mal a seres humanos. E isto, naturalmente, está implícito na Primeira Lei (ASIMOV, 2004, p. 290).

O coordenador
[...] – Deixe-me expor minhas teorias,
- Bem, desde que Máquinas estão dando respostas erradas, e presumindo que elas não podem estar cometendo erros, só resta uma possibilidade. Elas estão recebendo dados errados! Em outras palavras, o problema é humano e não robótico. Assim eu fiz uma recente viagem de inspeção planetária [...] – já que existem quatro Máquinas, cada uma lidando com uma das regiões planetárias. E todas as quatro estão fornecendo respostas imperfeitas (ASIMOV, 2004, p. 291).

[Comentários dos autores: Hoje já há uma modelo que é um robô – com expressões faciais. Toyotismo antes do seu tempo].

[...] – já ouviu falar na Sociedade pela Humanidade?
- Eles brotaram dos fundamentalistas que impediram a U.S. Robôs de empregar robôs positrônicos com base na alegação de competição desonesta com os trabalhadores e assim por diante.
Região Oriental
B – População: 1.700.000.000
C – Capital, Xangai.
[...] Ching Hso-lin era o vice-coordenador regional, com o bem-estar de metade da população da Terra sob seus cuidados (ASIMOV, 2004, p. 292).

- Para uma indústria hidropônica bem-sucedida... uma que possa alimentar um bilhão e setecentas mil pessoas... nós precisamos realizar um imenso programa de reflorestamento em todo o Oriente. Precisamos ter imensas usinas de conversão de madeira para lidar com nossas florestas tropicais do sul; precisamos de energia, aço e produtos químicos sintéticos acima de tudo. (ASIMOV, 2004, p. 294-295).

- Por que o último item, senhor?
- porque, senhor Byerley, essas variedades de levedura possuem, cada uma, suas propriedades peculiares. Já desenvolvemos, como eu disse, duas mil espécies. O bife que o senhor pensou que comeu hoje era levedura. A salada de frutas congeladas que teve como sobremesa era levedura gelada. Nós filtramos suco de levedura com o gosta, a aparência e todo o valor alimentar do leite.
- É o sabor, mais do que qualquer oura coisa, que torna a alimentação por levedura tão popular e em benefício do sabor nós desenvolvemos variedades domesticadas, artificiais, que não conseguem mais se manter com uma dieta básica de açúcar e sais (ASIMOV, 2004, p. 295).

Região Tropical:
B – População: 500.000.000
C – Capital: Capital City (ASIMOV, 2004, p. 297).

Era o contrário da Região Oriental. Enquanto os formigueiros humanos do Oriente reuniam metade da humanidade em quinze porcento de massas de terra, os Trópicos espalhavam seus quinze porcento de humanidade por mais da metade de todas as terras do mundo. Para Ngoma, Stephen Byerley parecia um daqueles imigrantes. [...] Ele sentiu um certo desprezo automático dos homens fortes, nascidos nos Trópicos, em relação aos infelizes pálidos das terras frias. Nogma riu. Ele era um homem negro enorme, belo e de feições fortes (ASIMOV, 2004, p. 298).

- Isto é uma investigação oficial, Byerley?
- Bem, se está tentando preencher um período de monotonia, a verdade é que estamos sempre com escassez de mão-de-obra. Há muita coisa acontecendo nos Trópicos. E o canal é apenas uma delas...
- Nós temos confiança aqui, Byerley, e este é os segredo. Confiança! [...] Não temos que comer levedura como os rapazes do Oriente , e não temos de nos preocupar com os refugos antiquados do último século como vocês nortistas (ASIMOV, 2004, p. 299-300).

[Comentários dos autores: Depois do problema (ou Estado de Necessidade) mais antigo da humanidade (sexo) é que veio o primeiro ato histórico].

Nós reduzimos as florestas e encontramos solo, irrigamos os desertos e encontramos jardins.
Byerley disse prosaicamente.
- Mas o que aconteceu?
- Problemas trabalhistas [...] Houve uma escassez de mão-de-obra no México e a questão das mulheres. Não havia mulheres em número suficiente nas vizinhanças. Parece que ninguém pensou em alimentar a Máquina com dados sobre sexo
- Francisco Villafranca... Ele era o engenheiro encarregado. Alguma coisa aconteceu e houve um desabamento. Ninguém morreu, pelo que me lembro, mas houve uma grande confusão... (ASIMOV, 2004, p. 300).

[...] Parece que as respostas que Villafranca usara não levavam em consideração os efeitos das fortes chuvas nos contornos da escavação...
- Villafranca fez um barulho danado. Ele afirmou que a resposta da Máquina fora diferente na primeira vez. Que tinha seguido fielmente as instruções da Máquina. Então ele se demitiu!
- Villafranca culpou a Máquina, não culpou?
- Bem, ele não ia admitir a culpa, ia? [...] Este Villafranca era membro de uma das organizações do Norte (ASIMOV, 2004, p. 301).

- Eles a chamam de Sociedade da Humanidade. [...] eles não gostam das Máquinas; afirmam que estão destruindo a iniciativa humana.
E lá fora, Capital City estendia-se em sua glória dourada sob um Sol igualmente dourado; a mais nova criação do Homo metropolis.
Região Européia
B – População: 300.000.000
C – Capital: Genebra.

A Região Européia era uma anomalia por vários motivos.
Nem era provável que melhorasse seu status. [...] De todas as regiões, era a única que mostrara um declínio positivo de população durante o último meio século. Era a única que não expandira seriamente suas capacidades de produção ou oferecera algo de radicalmente novo à cultura humana (ASIMOV, 2004, p. 302-303).

- Europa – disse madame Szegeczowska, em seu suave francês – é essencialmente um apêndice econômico da Região Norte.
- A Europa é um lugar sonolento. E aqueles entre nossos homens que não conseguem emigrar para os Trópicos também estão cansados e sonolentos.
- Quanto à Maquina... o que ela pode dizer senão “Faça isto e será o melhor para vocês”. Mas o que é melhor para nós? Ser um apêndice econômico da Região Norte.
- E será que isso é tão terrível? Não temos mais guerras! Vivemos em paz, e isso é muito agradável depois de sete mil anos de guerras. Nós somos velhos, monsieur (ASIMOV, 2004, p. 303).

- Talvez esteja certa – disse Byerley afavelmente. – há uma atmosfera agradável [...] Houve uma época em que a Roma dominava o mundo. Tinha adotado a cultura e a civilização da Grécia; uma Grécia que nunca fora unida, que se arruinara com guerras e que estava terminando num estado de pobreza decadente. Roma a unificou, trouxe a paz e deixou que ela vivesse uma vida inglória mas segura. E ela ocupou-se de suas filosofias e de sua arte, longe das lutas de crescimento e da guerra. Era uma espécie de morte, mas era repousante; e durou, com pequenas interrupções, cerca de quatrocentos anos.
- E no entanto – disse Byerley -, Roma eventualmente desmoronou e o sonho do ópio estava terminado.
- Não existem mais bárbaros para derrubar a civilização.
- nós podemos ser nossos próprios bárbaros, madame Szegeczowska... (ASIMOV, 2004, p. 304).

[Comentários dos autores: Inteligência, argúcia, atenção e dedução – um método preciso].

Bárbaros... fim da civilização... possível falha de Máquina. Seus processos de pensamento são muito transparentes, monsieur (ASIMOV, 2004, p. 305).
Região Norte
B – População: 800.000.000
C – Capital: Ottawa.
De várias maneiras, a Região Norte estava no topo. [...] onde o centro é o pólo norte (ASIMOV, 2004, p. 306).

E nem todas as mudanças das décadas passadas tinham alterado ainda o fato de que o Norte tinha o domínio econômico do planeta.
[...] Existe uma opinião prevalente entre os povos da Terra de que um coordenador só precisa ser um organizador capacitado, um amplo generalizador e uma pessoa amigável. Mas nesses dias ele também deveria conhecer robótica...
- Não se preocupe
- Eu percebo, por exemplo, que por tudo aquilo que já disse, que o senhor está preocupado com o recente tremor na economia mundial (ASIMOV, 2004, p. 307).

- Mas o que realmente importa nesta questão é que aquilo que chamamos de “dado incerto” é inconsistente com todos os outros dados conhecidos. Este é o nosso único critério de certo e errado. E também é da Máquina.
- O único meio de forçar “dados errados” na Máquina seria incluí-los como parte de um todo autoconsistente, com todos os outros dados conhecidos. Este é o nosso único critério de certo e errado. E também é o de máquina.
Stephen Byerley
- Então não se pode enganar a Máquina... e como explica os erros recentes? (ASIMOV, 2004, p. 308).

- Meu caro Byerley, eu percebo que instintivamente comete o grande erro de presumir que a Máquina sabe tudo. Deixe-me citar um caso [...] A indústria do algodão contrata compradores experientes [...] Eles olham para esse tufo, puxam, alisam, ouvem o ruído enquanto fazem isso, talvez provem com a ponta da língua [...] Nenhum químico têxtil sabe exatamente o que o comprador avalia quando ele sente o tufo de algodão [...] várias dúzias de itens, avaliados subconscientemente a partir de anos de experiência. Mas a natureza quantitativa desses testes não é conhecida [...] Assim não temos nada com que alimentar a Máquina. Nem os compradores podem explicar o seu próprio julgamento (ASIMOV, 2004, p. 309).

- A máquina é apenas uma ferramenta, apesar de tudo, que pode ajudar a humanidade a progredir mais rápido, tirando de suas costas a carga dos cálculos e interpretações. E o trabalho do cérebro humano continua o que sempre foi: descobrir novos dados par serem analisados e conceber novos conceitos para serem testados.
[...] Esses reacionários da Sociedade afirmaram que a Máquina roubava a alma do homem. Eu percebo que homens capazes ainda são disputados em nossa sociedade; nós ainda precisamos do homem que é suficientemente inteligente para pensar nas questões adequadas que devem ser feitas.
O coordenador estava sombrio, seu estado de espírito igualando o da chama mortiça.
[...] Não é fácil imaginar que estão todos rindo de mim? (ASIMOV, 2004, p. 310).

- Bem. Os dados corretos foram de fato fornecidos e as respostas corretas foram de fato dadas, mas foram então ignoradas. Não há meio de a Máquina forçar a obediência às suas recomendações.
- Me pareceu que madame Szegeczowska sugeriu isso, com relação aos nortistas em geral.
- Sim, ela o fez.
- E para que propósito serviria desobedecer a Máquina?
- A mim parece óbvio e devia parecer a você. [...] Se a fé do povo nas Máquinas puder ser destruída, até o ponto em que elas sejam abandonadas, então voltaremos à lei da selva. E nenhuma de nossas regiões pode se livrar da suspeita de desejar isto (ASIMOV, 2004, p. 311).

- O Oriente tem mais da metade da humanidade dentro de suas fronteiras e os Trópicos contam com mais da metade dos recursos da Terra. Cada um pode se sentir o governante natural do planeta e a cada um tem uma história de humilhações impostas pelo Norte, para quais pode haver um desejo suficientemente humano de buscar uma vingança sem sentido. Eles uma vez governaram a Terra e não há nada mais eterno do que a memória do poder [...] o |Oriente e os Trópicos, estão num estado de enorme expansão dentro de suas fronteiras [...] Eles não podem dispor da energia para aventuras militares. E a Europa não tem mais nada, exceto seus sonhos. Militarmente é uma incógnita [...] disse Susan -, você fica com o Norte [...] o Norte agora é o mais forte [...] Mas relativamente está perdendo poder. As regiões tropicais podem tomar o seu lugar na liderança da civilização pela primeira vez desde o tempo dos faraós, e há nortistas que temem isso.
- A Sociedade pela Humanidade é uma [...] associação de homens poderosos. Gerentes de fábricas, diretores de indústrias e complexos agrícolas, que odeiam o que chamam de “serventes da Máquina”, pertencem a ela. Homens com ambições. Homens que se sentem suficientemente fortes para decidirem o que é melhor para eles, e não serem informados do que é melhor para os outros (ASIMOV, 2004, p. 312).

- Resumindo, são estes homens que, juntos, recusando-se a aceitar as decisões da Máquina, podem, em curto tempo, virar o mundo de cabeça para baixo.
- A coisa faz sentido, Susan. Cinco dos diretores da Aço Mundial são membros da Sociedade e a Aço Mundial sofre uma superprodução. A Consolidated Cinnabar, que minerava mercúrio em Almaden, era uma empresa do Norte. [...] pelo que menosum dos homens era membro.
- O que está planejando fazer, Stephen?
- Obviamente não há tempo a perder. Eu vou declarar a Sociedade ilegal e retirarei todos os seus membros de todos os postos de responsabilidade. E todas as posições técnicas e executivas, daqui em diante, só serão preenchidas com candidatos que assinem um juramento anti-Sociedade. Vai significar um certo sacrifício das liberdades civis básicas, mas tenho certeza de que o Congresso... (ASIMOV, 2004, p. 313).

Byerley
- Eu esperava a sua aprovação nesta questão.
- Não vai tê-la enquanto suas ações forem baseadas em uma premissa falsa.
- Cada ação feita por qualquer executivo que não segue as instruções exatas da Máquina com que trabalha torna-se parte dos dados para o problema seguinte. A Máquina portanto sabe que aquele executivo tem uma certa tendência a desobedecer. Ela pode incorporar essa tendência nos dados... mesmo quantitativamente, julgando exatamente o quanto e em que direção a desobediência vai ocorrer. Suas próximas respostas serão suficientemente balanceadas de modo que, depois que o executivo em questão desobedecer, ele terá automaticamente corrigido aquelas respostas para a direção exata. A Máquina sabe, Stephen! (ASIMOV, 2004, p. 314).

[...] as Máquinas estão certas e as premissas com que elas trabalham estão certas. [...] Então o que está errado?
- Você mesmo respondeu. Não há nada de errado! [...] Eles são robôs, elas seguem a Primeira Lei. Mas a Máquina não trabalha para qualquer indivíduo, e sim para toda humanidade, e isso faz com que a humanidade seja prejudicada.
- Muito bem então, Stephen, o que prejudica a humanidade? Oscilações econômicas principalmente...
- E qual é a causa mais provável, no futuro, de oscilações econômicas?
[...] a destruição das Máquinas.
- É o que eu diria e o que as Máquinas devem dizer. Sua primeira preocupação, portanto, é se preservarem para nós. [...] Eu diria que são as Máquinas que estão sacudindo a canoa, muito pouco, só o suficiente para jogar fora aqueles poucos indivíduos que ainda se agarram às bordas buscando objetivos que as Máquinas consideram prejudiciais para a humanidade (ASIMOV, 2004, p. 315).

- Assim Vrasayana perde a sua fábrica e consegue um novo emprego onde ele não pode mais causar nenhum dano. [...] A Consolidated Cinnabar perdeu o controle de Almaden [...] E os diretores da Aço Mundial estão perdendo o seu controle sobre aquela indústria... ou vão perdê-lo.
[...] A Máquina não disse que não havia explicação ou que não podia determinar uma explicação. Ela simplesmente não ia admitir qualquer explicação (ASIMOV, 2004, p. 316).

[Comentários dos autores: Um golpe do Estado em nome da salvaguarda da humanidade].

[...] Talvez, para lhe dar um exemplo pouco familiar, toda a nossa civilização tecnológica tenha criado mais infelicidade e miséria do que removeu. Talvez uma civilização agrária e pastoril, com menos cultura e menos pessoas, seja preferível. Se assim for, as Máquinas devem caminhar nesta direção, preferivelmente sem nos dizer nada, já que em nossos preconceitos ignorantes nós só achamos bom aquilo com que estamos acostumados... e então resistiríamos à mudança.
- Mas você está me dizendo, Susan, que a Sociedade pela Humanidade está certa, e que a humanidade perdeu o direito de escolher seu próprio futuro.
- Ele nunca o teve, realmente. Sempre esteve a mercê de forças econômicas e sociais que não entendia, sujeita aos caprichos do clima e às fortunas da guerra. Agora as Máquinas cuidarão da oposição como estão cuidando da Sociedade, tendo, como elas têm, as maiores armas à sua disposição, o controle absoluto da economia (ASIMOV, 2004, p. 317).

- E isto é tudo – disse Susan Calvin se levantando. – Eu assisti a tudo desde o começo, quando os pobres robôs nem podiam falar, até o fim, quando eles se ergueram entre a humanidade e a destruição. Não verei mais nada. Minha vida se acabou. Você vai testemunhar o que virá em seguida.
Eu nunca mais voltei a ver Susan Calvin. Ela morreu no mês passado, com 82 anos (ASIMOV, 2004, p. 318).

[Comentários dos autores: Agora convidamos o leitor a uma reflexão comparativa, desdobrando novas perspectivas, aproximativas ou não, entre realidade e ficção, entre Asimov e Bourdieu. Então, para finalizar, segue um resumo mais interativo/opinativo do livro referência para os que se interessam pela Sociologia da Ciência].

PARA UMA SOCIOLOGIA DA CIÊNCIA
USOS SOCIAIS, ACIDENTAIS, VOCACIONAIS OU POLÍTICOS DA CIÊNCIA?

Bourdieu começou a escrever sobre o mundo rural, onde nasceu e realizou suas primeiras pesquisas (BÉARN). Publicou o Desenraizamento – crise da agricultura tradicional na Argélia e, depois, Argélia 60: sociedade camponesa tradicional X capitalismo. Em 1962, publicou Celibato e condição camponesa... a crise do campesinato não está só no mundo agrário, mas também em mecanismos mais sutis de reprodução – até de ordem biológica. Em 1958, no texto Trabalho e Trabalhadores na Argélia, desenvolveu o conceito de habitus. Trabalhou no Centro de Sociologia Européia, com análise do sistema de ensino. A partir de 1964, produziu e publicou um balanço da pesquisa social em Educação: os Estudantes e a Cultura com Passeron: o papel cultural na seleção escolar. Com, Amor pela arte, em 1966, analisou a freqüência aos museus e aprofundou o conceito de capital cultural. Já em 1968 fundaria o laboratório Centro de Sociologia da Educação e da Cultura e em 1970 viria o seu clássico A Reprodução: procura demonstrar que a escola não se presta só à reprodução do sistema escolar, mas, antes disso, chega ao nível da violência simbólica. Depois, vem a Distinção – como teoria geral das classes sociais (1970). Desde 1971, preocupa-se com o mercado dos bens simbólicos.

PRIMEIRA APROXIMAÇÃO – DO PREFÁCIO DE PATRICK CHAMPAGNE

Pierre Bourdieu, que estudou quase tudo: os camponeses, os artistas, a escola, os clérigos, os patrões, as classes populares etc., e que abarcou tantas disciplinas: a etnologia, a sociologia, a filosofia, a sociolingüística, a economia, a história etc. Como dar conta de uma obra que se constituiu ao longo de centenas de pesquisas conduzidas diretamente ou orientadas? (CHAMPAGNE, 2004, p. 07).

- Artes, ciências: Campo da produção em sentido estrito (erudição) – produtores pra produtores (concorrentes diretos); Campo da grande produção cultural (jornalismo ou indústria cultural).
- - Em 1975 rompe com a visão predominantemente conciliadora da comunidade científica.
- Introduz a contradição na análise: campo científico X capitalismo do campo científico.
- Mas matem éticas avançadas, os clientes são os piores concorrentes, mas a reação avança.

Na década de 1980 – com O Senso Prático – desenvolve uma teoria do conhecimento sociológico. Aproxima-se de Lévi-Strauss e de Sartre. Em 1984, com Homo Academicus, volta-se para o corpo docente e a instituição universitária; academicismo presente em 68. Com a nobreza do Estado, de 1989, crítica o ENA (Escola Nacional de Administração) como modelo de grandes escolas e corporativismo: escolas de grande poder. Na década seguinte, 1992, em As Regras da Arte, temos a “revolução simbólica” e a função social dos intelectuais. Logo em seguida, em 1993, vem A Miséria do Mundo (mil páginas de análise da mais avançada sociologia). Há ainda Sobre a Televisão e Ofício de Sociólogo, da primeira geração de pesquisadores.

OS USOS SOCIAIS DA CIÊNCIA:
POR UMA SOCIOLOGIA CLÍNICA DO CAMPO CIENTÍFICO

OBSERVAÇÕES PESSOAIS

Para Bourdieu não há texto sem-contexto (2002, p. 19).

Com a Partenogênese vê que a ciência, como tudo mais, tem história, contexto (Bourdieu, 2002, p. 20).
Também retoma uma definição simplificada do campo:
• O campo é a zona intermediária entre qualquer texto (e seu autor) e o contexto (relações determinadas); pois há o mundo do consumo, as instituições e o que sentem ou sofrem desses reflexos secundariamente.
- Espaço relativamente autônomo.
- Microcosmo que têm leis próprias.
- Sofre a imposição das leis sociais gerais, mas não são as mesmas.

P. 21 – No campo científico, as disciplinas marcam também o grau relativo de autonomia. O mesmo dilema se dará entre agências e instituições.
- Choque entre coerção, leis sociais gerais e determinações internas.
- Não há pensamento livre, já dizia Newton.
- “O campo científico é um mundo social”.
- As pressões externas são mediadas / mediatizadas pelo campo.
- Há uma autonomia que pode se traduzir em refração.

P. 22 – Politização de uma disciplina não significa autonomia. Pode ser só ideologia ou partidarização.

P.23 – Todo campo é um campo de forças e um campo de lutas.
- A estrutura das relações objetivas deforma o campo, assim como agem as empresas em concorrência.

PP. 23-24: O Discurso Competente (Chauí, 1990) é um bom exemplo de que o campo científico não é só envolvido/atravessado pela “condição de classe”, mas também pelo lugar de “onde se fala”. Coerção difere de pressão estrutural (p. 24).
- O capital não é absoluto, até porque o “discurso de validação” do que é “cientificamente correto” tem que encontrar ressonância e interação com o mundo social. Há então, um campo de mediação de autonomia (p. 25).

P. 25 – Por isso, um campo não pode ser manipulado.
- Discurso competente X comunidades científicas (SCHAFF, 1992) ou utopia do Estado-Cientificista (BACON, 2005).
- Paradigmático.

P. 26 – O capital científico é parte do capitalismo simbólico (fundado sobre atos de conhecimento e de reconhecimento), dos créditos possíveis e/ou atribuídos (honrarias, financiamentos).

P. 26-27: Capitalistas – cientistas
- No campo não há acaso, há leis não-escritas, mas inscritas.
- Leis Inscritas: o sentido do jogo:
• (estado de tendências)
• (estratégias de reconversão)

P. 25: A arte de antecipar tendências. Conhecer não apenas as regras do jogo, mas ter um senso da história do jogo – é preciso fazer uma leitura global e objetiva do jogo.
- Fazer escolhas compensatórias sem ser cínico.
- A boa formação intelectual colabora com o habitus:
• Maneiras de serem duráveis e permanentes.

P. 28-29: Peixe fora d’água ou TERTIUS?

P. 29: Diferenças entre campo/jogo.
- Manutenção do status quo.
- Manutenção e/ou Revolução Simbólica.

P. 30: O campo não é regido como um FATO SOCIAL: igual em sua coerção.
- Erro do curto-circuito.
- Há sublimação dos interesses externos.

P. 31: Concorrência regulada: ILUSIO.
- Pois, NÃO há um “interesse desinteressado” (antieconômico, pela ciência).
- Então, se fortalece o contrário, o “interesse pelo desinteresse”, comum às formas e trocas dos bens simbólicos. Quer fazer acreditar que o desinteresse compensa e esta é sua face dupla, ambígua e que marca bem o “cientista capitalista”: ou são cínicos ou idealistas, iludidos (hagiografia).
- Os pequenos precisam aparecer e os eruditos não vivem sem brilho.

P. 32 – Pascal (1994): não se utiliza o poder de uma ordem em outra.
- O filósofo fracassado vai vender receitas na TV.
- A luta científica é uma luta armada

ANOTAÇÕES PESSOAIS INICIAIS

- Conferência no INRA: Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica.
Trata-se de uma Sociologia da Ciência e não só do conhecimento (instituições, papel social, sujeitos, agências, espírito de corpo, vaidades, recursos, campos e áreas de atuação ou de financiamento).
- Pontos de vista ou visão de mundo?
- Um congresso para discutir as ciências sociais. Reflexão crítica sobre as instituições científicas.
- Representações realistas também trazem construções sociais concorrentes.
- No campo científico, os agentes estão de acordo sobre as formas de validação das teses, sobre o “trabalho de objetivação”. As representações são realistas e denotam construções sociais concretas.

CITAÇÕES

Parece-me uma maneira bastante exemplar, para uma instituição científica, de empreender uma reflexão coletiva sobre si própria. [...] o que é a lógica própria do mundo científico de desencadear um processo de auto-análise coletiva (BOURDIEU, 2004, p. 17).

Não creio que basta reunir um grupo para produzir a reflexão científica, mas acredito que, com a condição de instaurar uma tal estrutura d troca que traga m si mesma o princípio de sua própria regulação, podem-se instaurar formas de reflexão que hoje não têm lugar e que podem ir além de todas as especulações de especialistas (sobretudo em “cientometria”) e de todas as recomendações de comitês e de comissões. [...] submeter a um exame crítico as representações endógenas ou exógenas, eruditas ou espontâneas... (p. 18).

Quais são os usos sociais da ciência? Uma ciência da ciência, ciência social da produção da ciência, descrever e de orientar os usos sociais da ciência? (p. 18).

Grosso modo, há de um lado, o que sustentam que, para compreender a literatura ou filosofia, basta ler os textos. Para os defensores desse fetichismo do texto autonomizado que floresceu na França com a semiologia e que refloresce hoje em todos os lugares do mundo com o que se chama de pós-modernismo, o texto é o alfa e o ômega e nada mais há para ser conhecido, quer se trate de um texto filosófico, de um código jurídico ou de um poema, a não ser a letra do texto [...] marxismo, relacionar o texto ao contexto... (p. 19).

[...] tradição de história da ciência que é, aliás, bastante próxima da história da filosofia descreve o processo de perpetuação da ciência como uma espécie de partenogênese, a ciência engendrado-se a si própria, fora de qualquer intervenção do mundo social [...] noção de campo [...] Digo que para compreender uma produção cultural (literatura, ciência etc.) não basta referir-se ao conteúdo textual dessa produção, tampouco referir-se ao contexto social contentado-se em estabelecer uma relação direta entre texto e contexto. [...] Minha hipótese consiste em supor que, entre esses dois pólos, muito distanciados, entre os quais se supõe, um pouco imprudentemente, que a ligação possa se fazer, existe um universo intermediário que chamo o campo literário, artístico, jurídico, ou científico, isto é, o universo o qual estão inseridos os agentes e as instituições que produzem, reproduzem ou difundem a arte, a literatura ou a ciência (p. 20).

[...] esse espaço relativamente autônomo, esse microcosmo dotado de suas leis próprias. [...] Uma das diferenças relativamente simples, mas nem sempre fácil de medir, de quantificar, entre diferentes campos científicos, isso que se chamam as disciplinas, estará, de fato, em seu grau de autonomia. [...] Um dos problemas conexos será, evidentemente, o de saber qual é a natureza das pressões externas, a forma sob a qual elas se exercem, créditos, ordens, instruções, contratos, e sob quais formas se manifestam as resistências que caracterizam a autonomia, isto é, quais são os mecanismos que microcosmos aciona para se libertar dessas imposições externas e ter condições de reconhecer apenas suas próprias determinações [...] Em outras palavras, é preciso escapar à alternativa da “ciência pura”, totalmente livre de qualquer necessidade social, e da “ciência escrava”, sujeita a todas as demandas político-econômicas (p. 21).

O grau de autonomia de um campo tem por indicador principal seu poder de refração, de retradução. Inversamente, a heterenomia de um campo manifesta-se, essencialmente, pelo fato de que problemas exteriores, em especial os problemas políticos, aí se exprimem diretamente. Isso significa que a “politização” de uma disciplina na é indício de uma grande autonomia [...] Todo campo, o campo científico, por exemplo, é um campo de forças e um campo de lutas para conservar ou transformar esse campo de forças (pp. 22-23).

No campo científico, Einstein, tal como uma grande empresa, deformou todo o espaço em torno de si [...] Nessas condições, é importante, em seguida, para a reflexão prática, o que comanda os pontos de vista, o que comanda as intervenções científicas, os lugares de publicação, os temas que escolhemos, os objetos pelos quais nos interessamos etc. é a estrutura das relações objetivas entre os diferentes agentes que são, para empregar ainda a metáfora “einsteiniana”, os princípios do campo. É a estrutura das relações objetivas entre os agentes que determina o que eles podem e não podem fazer [...] Isso significa que só compreendemos, verdadeiramente, o que diz ou faz um agente engajado num campo (um economista, um escritor, um artista, etc.) se estamos em condições de nos referirmos à posição que ele ocupa nesse campo, se sabemos “de onde ele fala” [...] em vez de nos contentarmos em reportar sua condição de classe [...] Essa estrutura é, em grosso modo, determinada pela distribuição do capital científico num dado momento. Os agentes (indivíduos ou instituições) caracterizados pelo volume de seu capital determinam a estrutura do campo em proporção ao seu peso [...] Essa pressão estrutural não assume, necessariamente, a forma de uma imposição direta que se exerceria na interação (ordem, “influência”, etc.) (p. 23-24).

[...] os pesquisadores ou as pesquisas dominantes definem o que é, num dado momento do tempo, o conjunto de objetos importantes, isto é, o conjunto das questões que importam para os pesquisadores, sobre as quais eles vão concentrar seus esforços e, se assim posso dizer, “compensar”, determinando uma concentração de esforços de pesquisa [...] Contra a ilusão maquiavélica à qual alguns sociólogos da ciência sucumbem, talvez porque tomem emprestado aos eruditos sua própria visão “estratégica”, para não dizer cínica, do mundo científico, é preciso, primeiramente, lembrar que nada é mais difícil e até mesmo impossível de “manipular” do que um campo. [...] Isso é verdadeiro, salvo nos casos inteiramente excepcionais, nos quais, por uma descoberta revolucionária, capaz de questionar os próprios fundamentos da ordem científica estabelecida, um cientista redefine os próprios princípios da distribuição do capital, as próprias regras do jogo (p. 25).

Os capitalistas cientistas, se assim posso me exprimir, não têm quase nada em comum – se se põem à parte os efeitos das homologias estruturais – com os capitalistas no sentido comum, isto é, aqueles que se encontram no campo econômico [...] É evidente que o capital de Einstein não era natureza financeira. Esse capital, de um tipo inteiramente particular, repousa, por sua vez, sobre o reconhecimento de um competência que, para além dos efeitos que ela produz e em parte mediante esses efeitos, proporciona autoridade e contribui para definir não somente as regras do jogo, mas também suas regularidades, as leis segundo as quais vão se distribuir os lucros nesse jogo, as leis que fazem que seja ou não importante escrever sobre tal tema, que é brilhante ou ultrapassado, e o que é mais compensador publicar no American Journal de tal e tal do que na Revue Française disso e daquilo [...] Um campo não se orienta totalmente ao acaso. Nem tudo nele é igualmente possível e impossível em cada momento. [...] o domínio das leis iminentes do campo leis não escritas que são inscritas na realidade em estado de tendências, o sentido do jogo, as estratégias de reconversão... (pp. 26-27).

Essa arte de antecipar as tendências, observada por toda parte, que está estreitamente ligada a uma origem social e escolar elevada e que permite apossar-se dos bons temas em boa hora, bons lugares de publicação (ou mesmo de exposição) etc. é um dos fatores eu determinam as diferenças sociais mais marcantes nas carreiras científicas (e isso é mais manifesto ainda na arte moderna). Esse senso do jogo é, de início, um senso da história do jogo, no sentido do futuro do jogo. Com um bom jogador de rugby sabe onde vai a bola e se põe lá onde a bola vai cair, o bom cientista jogador é aquele que, sem ter necessidade de calcular, de ser cínico, faz as escolhas que compensam [...] Aqueles que adquirem, longe do campo em que se inscrevem, as disposições que não são aquelas que esse campo exige, arriscam-se, por exemplo, a estar sempre defasados, deslocados, mal colocados, mal em sua própria pele, na contramão e na hora errada, com todas as conseqüências que se possa imaginar. Mas eles podem também lutar com as forças do campo, resistir-lhes e, em vez de submeter suas disposições às estruturas, tentar modificar as estruturas em razão de suas disposições, para conformá-las às suas disposições [...] A diferença maior entre um campo e um jogo é que o campo é um jogo no qual as regras do jogo estão elas próprias postas em jogo [...] revolução simbólica – operada por Manet [...] Essas estratégias orientam-se seja para a conservação da estrutura seja para sua transformação, e pode-se genericamente verificar que quanto mais as pessoas ocupam uma posição favorecida na estrutura, mais elas tendem a conservar ao mesmo tempo a estrutura e sua posição, nos limites, no entanto, de suas disposições (isto é, de sua trajetória social, de sua origem social) que são mais ou menos apropriadas à sua posição (pp. 28-29).

Descartei, de início, uma forma de reducionismo que consiste em reduzir as leis segundo as quais um campo funciona pelas leis sociais exteriores, o que chamei de erro do curto-circuito [...] o “grande programa” em sociologia das ciências, “radicalização” indevida de posições consiste em reduzir as estratégias dos eruditos às estratégias sociais das quais sempre são um aspecto e em ignorar a sublimação dos interesses externos [...] Ilusio é o interesse científico, aparece como desinteressada, gratuita. [...] o interesse “puro”, interesse pelo desinteresse, forma de interesse que convém a todas as economias dos bens simbólicos [...] Segue-se que as estratégias dos agentes têm sempre, de algum modo, dupla face, ambíguas, interessadas e desinteressadas, pois são inspiradas por uma espécie de interesse pelo desinteresse e que se pode fazer delas duas descrições opostas, mas igualmente falsas, uma vez que unilaterais, uma hagiografia e idealizada, outra cínica e redutora que faz do “capitalista cientista” um capitalista como os outros [...] Os eruditos são interessados, têm vontade de chegar primeiro, de serem os melhores, de brilhar (pp. 30-31).

Se você deseja triunfar sobre um matemático, é preciso fazê-lo matematicamente pela demonstração ou refutação. Evidentemente, há sempre a possibilidade de que o soldado romano corte a cabeça de um matemático, mas isso é um “erro de categoria”, diriam os filósofos. Pascal veria nisso um ato de tirania que consiste em utilizar numa ordem um poder que pertence a outra ordem [...] A luta científica é uma luta armada (p. 32 – grifos nossos).

Mas o que faz a especificidade do campo científico é aquilo sobre o que os concorrentes estão de acordo acerca dos princípios de verificação da conformidade ao “real”, acerca dos métodos comuns de validação de teses e de hipóteses, logo sobre o contrato tácito, inseparavelmente político e cognitivo, que funda e rege o trabalho de objetivação [...] representações realistas que se pretendem fundadas numa “realidade” dotada de todos os meios de impor seu veredito mediante o arsenal de métodos, instrumentos e técnicas de experimentação coletivamente acumulados e coletivamente empregados, sob a imposição das disciplinas e das censuras do campo e também pela virtude invisível da orquestração dos habitus [...] caso das ciências sociais que ainda estão a meio-caminho no processo de autonomização e onde se podem sempre disfarçar as censuras sociais em censuras científicas e vestir de razões científicas os abusos do poder social específico, como a autoridade administrativa ou o poder de nomeação mediante bancas de concursos [...] O mundo da ciência conhece relações de força, fenômenos de concentração do capital e do poder ou mesmo de monopólio, relações sociais de dominação que implicam uma apropriação dos meios de produção e de reprodução [...] a econômica antieconômica [...] permanece enraizada na economia e porque mediante ela se tem acesso ao poder econômico (ou político) e às estratégias propriamente políticas que visam conquistá-lo ou conservá-lo (pp. 33-34).

[...] o direito de entrada mais ou menos elevado que ele impõe aos recém-chegados e que depende do capital científico coletivamente acumulado [...] duas formas de poder [...] de um lado, um poder que se pode chamar temporal (ou político), poder institucional e institucionalizado que está à ocupação de posições importantes nas instituições científicas, direção de laboratórios ou departamentos, pertencimento a comissões, comitês de avaliação etc., e ao poder sobre os meios de produção (contratos, créditos, postos, etc.) e de reprodução (poder de nomear e de fazer as carreiras) que ela assegura. De outro, um poder específico, “prestígio” pessoal que é mais ou menos independente do precedente, segundo os campos e as instituições, e que repousa quase exclusivamente sobre o reconhecimento, pouco ou mal objetivado e institucionalizado, do conjunto de pares ou da fração mais consagrada dentre eles (por exemplo, com os “colégios invisíveis” de eruditos unidos por relações de estima mútua) (p. 35).

As duas espécies de capital científico [...] o capital científico “puro” adquire-se, principalmente, pelas contribuições reconhecidas ao progresso da ciência, as invenções ou as descobertas (as publicações, especialmente nos órgãos mais seletivos e mais prestigiosos, portanto aptos a conferir prestígio à moda de bancos de crédito simbólico, soa o melhor indício); o capital científico da instituição se adquire, essencialmente, por estratégias políticas (específicas) que têm em comum o fato de todas exigirem tempo – participação em comissões, bancas (de teses, de concursos), colóquios mais ou menos convencionais no plano científico, cerimônias, reuniões etc. –, de modo que é difícil dizer se, como o professam habitualmente os detentores, sua acumulação é o princípio (a título de compensação) ou resultado de um menor êxito na acumulação da forma mais específica e mais legítima do capital científico [...] O capital científico “puro”, que, fragilmente objetivado, tem qualquer coisa de impreciso indeterminado, tem sempre alguma coisa de carismático ligado à pessoa, aos seus “dons” pessoais, e não pode ser objeto de uma “portaria de nomeação” (p. 36).

[...] o grande pesquisador possa transmitir a parte mais formalizada de sua competência científica, mas somente por um longo e lento trabalho de formação, de colaboração, se ele pode também, como todos os detentores de capital simbólico, “consagrar” os pesquisadores, formados ou não por ele, fazendo sua reputação, assinando com eles, publicando-os, recomendando-os para as instâncias de consagração, etc. [...] Ao contrário, o capital científico institucionalizado tem quase as mesmas regras de transmissão de capital burocrático [...] É certamente nas operações de cooptação, que visam perpetuar o corpo de pesquisadores, que o conflito entre os dois princípios se faz mais visível: os detentores do capital científico institucionalizado tendem a organizar os procedimentos – os concursos, por exemplo – segundo a lógica da nomeação burocrática, enquanto os detentores do capital científico “puro” tendem a situar-se na lógica “carismática” do “inventor” (p. 37).

Terry Shinn mostrou que as duas espécies de capital científico e as duas formas de poder podem coexistir no seio do mesmo laboratório e para o melhor, tendo, de um lado, o diretor do laboratório que, muito informado do estado da pesquisa, em especial, pela freqüência aos comitês e às comissões, encarna de alguma forma a “ciência normal” e produz trabalhos voltados para a generalização, e, de outro, tendo também o pesquisador prestigiado que se dedica à construção de “modelos integrativos” e traz para outros pesquisadores, seniores e juniores, uma espécie de suplemento de imaginação científica... [...] podem-se caracterizar os pesquisadores pela posição que ele ocupam nessa estrutura, [...] pelo peso relativo de seu capital “puro” e de seu capital “institucional”: tendo, num extremo, os detentores de um forte crédito específico e de um frágil peso político e, no extremo oposto, os detentores de um forte peso político e de um frágil crédito científico (em especial, os administradores científicos) (p. 38).

[...] a conversão do capital político (específico) em poder científico é (infelizmente!) mais fácil e mais rápida, sobretudo para os que ocupam posições médias nas duas distribuições (do prestígio e do poder) [...] As relações de força simbólicas, no interior do campo científico, não têm a clareza penetrante que lhe dar uma análise científica destinada a quantificar até mesmo as propriedades mais impalpáveis, como a reputação internacional.[...] o poder cientifico institucional [...] chega a produzir o efeito de halo quase carismático, especialmente sobre os jovens pesquisadores, levado a emprestar as qualidades científicas daqueles dos quais dependem para sua carreira e que podem assegurar-se assim de clientelas dóceis [...] Outro fator de interferência aos olhos dos “juniores” [...] (esse “ser percebido”, percipi, que depende da percepção e da apreciação dos agentes engajados no campo), o crédito científico pode continuamente assegurar, uma forma de crédito político [...] (um dos problemas dos inovadores, ao se consagrarem, sobretudo em literatura, é o de conservar o prestígio atribuído à ruptura herética de vanguarda). [...] O campo seria ais eficiente cientificamente se os mais prestigiados fossem também os mais poderosos? [...] Tudo leva a pensar que todo mundo (ou quase) se beneficia com essa divisão de poderes e com esse compromisso híbrido que evita o que poderia haver de assustador nessa espécie de teocracia epistemocrática dos “melhores”, ou inversamente numa cisão completa dos dois poderes condenando os “melhores” à mais completa impotência [...] tecnocracia da pesquisa... (pp. 39-40).

[...] permitem à pequena oligarquia dos que permanecem nas comissões manter suas clientelas [...] ambigüidade estrutural: os conflitos intelectuais são também, sempre, de algum aspecto, conflitos de poder [...] quanto mais os campos são heterônomos, maior é a defasagem entre a estrutura de distribuição no campo dos poderes não-específicos (políticos); por um lado, e por outro, a estrutura da distribuição dos poderes científicos – o reconhecimento, o prestígio científico (pp. 41-42).

[...] duas estruturas invertidas: a distribuição dos professores de letras e de ciências humanas do ensino superior francês no espaço do campo universitário é tal que, quanto mais eles estão próximos do pólo de poder, menos têm prestígio (medido por indicadores como o Citation Index, o número de traduções e toda uma série de outros indicadores) [...] Essa discordância é geradora de todo um conjunto de efeitos. Ela permite àqueles que fracassam contar histórias, imputar, por exemplo, sua má posição intelectual à sua má posição na ordem do poder ou denunciar os detentores de prestígio como se se tratasse de detentores do poder [...] Quer dizer que, nesses universos, para fazer progredir a cientificidade, é preciso fazer progredir a autonomia e, mais concretamente, as condições práticas da autonomia, criando barreiras na entrada, excluindo a introdução e a utilização de armas não-específicas, favorecendo formas reguladas de competição, somente submetidas às imposições da coerência lógica e da verificação experimental (pp. 42-43).

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

- Ler os textos não é o mesmo que ler os clássicos.
- A luta científica é uma luta armada – Bourdieu.
- Há concorrência regulada sobre depressões internas: novas ciências.
- O poder social ou pessoal se disfarça de objetivo nas bancas de concurso.
- A ciência está cheia de campos e os cientistas precisam do poder para seu reconhecimento (financiamento).
- A proteção do campo científico contra intrusões, externalidades, regula também o direito de entrada dos recém-chegados.
- Não há propriamente direito de ser cientista, ainda que haja direitos à ciência.
- Mas, não há declaração de direitos que diga que sim.
- O direito de ser cientista é regulado pelo campo científico coletivamente acumulado.
- Resumo dos dois “poderes que regulam a ciência pelo direito”.
- A “ciência pura” é carismática, com dons pessoais, que não se nomeia por portarias.
- O grande cientista, detentor de campo simbólico, pode consagrar ou não seus orientandos.
- A instituição obedece ao capital burocrático.
- A definição do posto pode estar ajustada ao perfil do candidato.
- Há diferenças e contradições entre os dois capitais.
- As contradições no campo geram discordâncias e deformidades:
• Quando a cientificidade fortalece a racionalidade e o desencantamento do mundo (não instrumental).
- É mais fácil o poder político se tornar poder científico, pela força da consagração ou perpetuação institucional.
- O jovem pesquisador quer/precisa “ser percebido” (percipi) porque o crédito científico pode gerar crédito político.
- O pior é justificar o fracasso científico pelo ajustamento do peso político.

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Organizadores do Texto

PROFESSOR Dr. VINICIO CARRILHO MARTINEZ
É graduado em Direito (1988) e em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho - UNESP (1989); mestrado em Programa de Pós-Graduação em Direito pela Faculdade Estadual de Direito do Norte Pioneiro (2005), mestrado em Educação pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (1996) e doutorado em Educação pela Universidade de São Paulo - FEUSP (2001). Atualmente é doutorando em Ciências Sociais e Pós-Doutorando em Educação pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, UNESP-Marília (2006-2010). Foi professor do Departamento de Sociologia e Antropologia desta universidade (2008) e é professor recém aprovado da Universidade Federal de Rondônia (UNIR). Foi bolsista de agências financiadoras de pesquisa, por quatro vezes consecutivas. Também foi professor colaborador do programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais - UNESP/Marília (2005-2006) e professor de programa de mestrado em direito, com nove defesas orientadas e concluídas. Tem experiência na área de Educação, ensino de Sociologia Geral e Teorias do Estado, com ênfase em Educação - Sociedade - Estado, atuando principalmente nos seguintes temas: Sociologia Geral, direitos humanos, Educação e Sociedade, Ciências Políticas e Teorias do Estado. Publicou livros, capítulos de livros e inúmeros artigos de caráter científico, nacionais e internacionais. É articulista de jornal regional há 12 anos, com aproximadamente 300 artigos publicados e colunista do site Directorio del Estado / Gobierno Electrónico - Espanha: www.gobiernoelectronico.org e também do site Alfa-Redi: http://www.alfa-redi.org. Email: [email protected]
Link para LATTES: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4796192Z9

Ms. FÁTIMA FERREIRA
Possui graduação em Direito pelo Centro Universitário Eurípides de Marília - Fundação de Ensino Eurípides Soares da Rocha (2005). Atualmente é sócia efetiva do Conselho Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Direito e professora do Centro Universitário Eurípides de Marília Fundação de Ensino Eurípides Soares. Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Teoria do Direito, atuando principalmente nos seguintes temas: políticas públicas, ressocialização, estudos jurídicos, direito social e direito penal. Além de ter publicado artigos sobre Direito e participado de várias bancas em trabalhos de conclusão de curso. É Mestra em Direito (Teoria do Direito e do Estado) pela mesma instituição, com a dissertação: O Princípio Constitucional da Dignidade da Pessoa Humana como Fundamento para a Ressocialização do detento. Ano de Obtenção: 2008.
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Ms. TALITA PRADO BARBOSA
Possui graduação em Turismo pela Associação Cultural e Educacional de Garça - FAEF (2006). Bacharel em Ciências Sociais (2008) pela Unesp-Campus Marília e Pós-Graduação, nível de especialização, em Metodologia de Ensino pela Associação Cultural e Educacional de Garça - FAEF (2008). Atualmente está matriculada no curso de mestrado em Ciências Sociais na Unesp-Campus de Marília, aprovada no processo seletivo realizado em março de 2008.
Link para LATTES: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4241059H6